Crítica | Hanna (2011)

Se destilarmos a essência de Hanna, notaremos que o filme capitaneado por Joe Wright (que viria a dirigir O Destino de uma Nação) cai no amplo guarda-chuva do subgênero “filme de vingança”, o que normalmente resulta em obras eletrizantes, ainda que potencialmente vazias de significados maiores. Mas, aqui, o roteiro de Seth Lockhead e David Farr pelo menos tenta trazer ingredientes inusitados para a receita batida, resultando em uma obra razoavelmente incomum por centrar-se na adolescente titular vivida de maneira muito eficiente por Saoirse Ronan, então apenas um ano mais velha que a idade de sua personagem.

Começando em alguma região inóspita do Ártico, vemos Hanna vivendo com seu pai, Erik Heller (Eric Bana), em condições primais, quase pré-históricas, caçando para comer e vestindo peles de animais para insular-se do frio. Se isso já não bastasse, Hanna é constantemente treinada por seu pai em sobrevivência, técnicas de luta, manuseio de armas, conhecimentos gerais e várias línguas. O inusitado da situação parece ter como principal função fisgar a atenção do espectador, objetivo esse que é alcançado imediatamente. Não demora e aprendemos um pouco sobre o porquê daquilo tudo e entendemos não só que Hanna é especial, mas, também, que a reintegração dos dois ao mundo civilizado depende do assassinato de Marissa Wiegler (Cate Blanchett em um papel propositalmente mais gélido do que a região congelada onde o filme começa), agente da CIA, toda a razão do treinamento pesado de Hanna.

É, portanto, quase que desapontador quando, com poucos minutos de projeção, toda a ambientação selvagem da película é trocada por lugares mais, digamos, convencionais e urbanos, com Hanna ressurgindo no deserto do Marrocos e tendo que reunir-se com seu pai em Berlim. O que vem em seguida é um pouco de outro tipo clássico de filme, o que mostra o amadurecimento de uma criança. Logo estabelecendo laços de amizade com a atirada Sophie (Jessica Barden), que viaja com sua família hippie, Hanna ingressa em algo que poderia ser chamado de “curso a jato de adolescência”, transitando convenientemente muito bem de uma menina isolada do mundo que só havia visto outro humano na figura de seu pai para uma típica adolescente de olhos esbugalhados. Essa velocidade com que Hanna absorve tudo ao seu redor e se adapta às mais diversas e completamente novas situações exige um pouco mais da suspensão da descrença do espectador do que o usual, mas resulta em bons momentos entre as duas jovens que logo estabelecem aquela química cúmplice típica de filmes com essa pegada.

Mas Wright faz, fundamentalmente, uma obra de ação e ele não perde isso de vista mesmo nos momentos mais ternos da fita, já que Hanna é perseguida pelo sanguinário e sádico Isaacs, assustadoramente encarnado por Tom Hollander. Desde a fuga de Hanna da base no Marrocos, passando por seus enfrentamentos com Isaacs até o confronto final com Marissa, o filme oferece ótimos momentos de ação e pancadaria trazendo o diferencial, como já disse, de ter uma adolescente como uma máquina de matar que, quando entra nesse “modo”, só para quando acaba, mesmo que ela obviamente sorva “doses de humanidade” por intermédio de seu contato com Sophie e sua família. Saoirse Ronan, aliás, transita muito bem entre a adolescente angelical – seus cabelos brancos, pele bem clara e olhos azuis ajudam muito nessa composição – e a assassina fria e extremamente eficiente, com Wright não economizado na litragem de sangue e em degolas, algo raro de se ver partindo de uma menina de 16 anos.

A fotografia de Alwin H. Küchler (Sunshine – Alerta Solar, Divergente) beneficia-se das filmagens quase que integralmente em variadas locações como Finlândia, Marrocos e Alemanha, com o tom frio e desolador da sequência de abertura sendo repetido de maneiras diferentes ao longo de toda a projeção, sempre que Hanna está sozinha, o que, claro, abre espaço para as cores quentes apenas em seu tempo junto com Sophie. Com isso, apesar de o filme não ser exatamente sombrio, sua aparência não é nunca completamente de leveza, especialmente por lidar com um mundo cruel visto pelos olhos de uma menina que, conforme ensinamentos do pai, não pode confiar em ninguém. Seu casulo é triste e solitário e sua saída dele não é muito melhor, o que ecoa em todo o lado de amadurecimento que a obra tenta abordar, mesmo correndo demais nesse quesito e, também, em toda a ambientação original na neve.

No final das contas, Hanna é um bom filme de ação do subgênero “vingança”, mas que desperdiça oportunidades ao aproveitar pouco a Hanna selvagem e pré-histórica no Ártico e ao lidar com seu crescimento de menina para mulher de maneira meteórica. Mas pelo menos o filme é mais do que sua premissa e oferece boas razões para não tirar os olhos da tela ao longo de sua razoavelmente curta e frenética duração.

Hanna (Idem, EUA/Reino Unido/Alemanha – 2011)
Diretor: Joe Wright
Roteiro: Seth Lochhead, David Farr
Elenco: Saoirse Ronan, Eric Bana, Cate Blanchett, Jessica Barden, Aldo Maland, Tom Hollander, Olivia Williams, Jason Flemyng, Michelle Dockery, Vicky Krieps, Martin Wuttke
Duração: 111 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.