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Crítica | Hannibal: A Origem do Mal, de Thomas Harris

por Leonardo Campos
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Depois de manipular a investigação de Will Graham em Dragão Vermelho, traçar uma trajetória magnética de autoconhecimento para Clarice Starling em O Silêncio dos Inocentes e circular num esquema narrativo global que envolveu Itália e Estados Unidos em Hannibal, romance que tinha como um dos pontos centrais o reencontro com a agente do livro anterior e as estratégias de Mason Verger para capturar o canibal, pouca coisa havia para ser realizada na travessia deste que é um dos psicopatas mais famosos da cultura contemporânea. Escrito em paralelo ao roteiro de cinema para a adaptação comandada por Peter Webber em 2007, Hannibal – A Origem do Mal deflagra a febre industrial das narrativas de uma época que ainda ecoa atualmente: o fervilhar dos prelúdios, estratégia de resgate para histórias já exauridas, conhecida como prequel. Neste segmento, temos um personagem contemplado pelas bases de sua mitologia, explorado num esquema que ilumina as suas dimensões físicas, psicológicas e sociais para explicar as motivações que o definem em outros pontos de partida, neste caso, os três romances anteriores.

Em 1999, Thomas Harris já tinha delineado alguns pontos do passado do Dr. Hannibal Lecter para os leitores, elementos radiografados com precisão ao longo das 200 páginas da edição brasileira, traduzida por Gilson Soares e interessante em diversos aspectos, mas não suficiente para dar conta de uma trajetória literária tão enigmática, subversiva e atmosférica, aqui demasiadamente exaurida para saciar a sede de quem não se contenta com o ótimo legado de uma franquia e precisa esgotá-la até não ter mais o que colher de material literário suficiente para justificar a sua existência. É o mecanismo já comum nas indústrias culturais e até mesmo em nossa relação com os recursos naturais que movem o nosso planeta, não é mesmo? Pois foi assim que encarei Hannibal – A Origem do Mal, publicado pelo escritor em 2006, material irregular que só podia originar um filme semelhante, genérico e sem muita criatividade. O preâmbulo de tudo é Hannibal ainda pequeno, na Lituânia, em plena Segunda Guerra Mundial. Ele é um sobrevivente com a sua irmã Mischa, após a morte de seus pais enquanto estavam escondidos em sua casa de campo.

O que pode ter acontecido com a sua querida irmã? Será mesmo que os soldados a devoraram durante o longo inverno enfrentado ou é tudo fruto da mente de uma criança que não consegue compreender o que de fato aconteceu na ocasião, tamanha a carga traumática? É o que acompanharemos como mote desta história que tem algum potencial enquanto ponto de partida, mas se revela genérica demais, apenas mais uma trama sobre alguém vingativo sendo apresentado em seu romance de formação, biográfico e até forçado demais em determinadas passagens que insistem em traçar paralelos entre acontecimentos pontuais das histórias posteriores dentro da cronologia de Hannibal Lecter. É neste processo que Thomas Harris enfrenta uma avalanche de artificialidade que não consegue driblar, perdendo-se dentro do próprio material que em outras épocas, tinha maior controle. Voltemos: depois da situação dramática, o garoto vaga pele neve e ao ser encontrado pelos russos, é levado ao orfanato, local onde sofre maus-tratos.

Sem exprimir uma palavra sequer e ter pesadelos constantes com a nítida imagem dos canibais algozes que devoraram a sua irmã, o menino cresce e a cada dia enfrenta demônios internos responsáveis por transformá-lo, futuramente, numa criatura bastante perigosa. Ele foge do orfanato após algum tempo e dentre as tantas coincidências da narrativa, encontra o seu tio Robert Lecter, casado com a enigmática Lady Murasaki, mulher que após o assassinato de seu parente mais próximo da ideia que tem de família, será a sua responsável, posteriormente “amante”. É na França, na mansão luxuosa de seu tio que ele recobrará a fala e se tornará um exímio estudante de medicina, brilhante ao ponto de utilizar os aprendizados da área para desenvolver o seu projeto de vingança contra todos os responsáveis pela sua história de desgraça e dor. É ao longo de suas 255 páginas que o jovem canibal nos é apresentado por Thomas Harris, numa narrativa mais letárgica que as investidas anteriores no universo do sofisticado e vil Hannibal Lecter, personagem exaurido em sua mitologia, da infância ao momento adulto, entre o amor e o ódio, descobrindo-se e revelando-se para o leitor que fuça demais a sua história e reveste o manto de enigma delineado por sua figura nas histórias anteriores, agora exposto demais, óbvio e “comum”.

Hannibal comete atos criminosos e tem na morte do peixeiro o seu primeiro ensaio. Responsável pela morte de seu tio durante uma briga, o vendedor de uma feira é dono de comentários misóginos e age com muita valentia, em especial, ao mexer com a sua tia. Furioso, o jovem traça um plano para aniquilar a vida do personagem, morto violentamente, mas sem o grafismo esperado de Thomas Harris, contemplado com assombro no constantemente mencionado romance anterior. Paul Momund é o primeiro de outros tantos que o jovem matará, sendo observado com distanciamento pelo Inspetor Popil, homem que desconfia de sua autoria nos atos criminosos que estão se acumulando na região e faz de tudo para descobrir as estratégias de Lecter para o colocar na prisão. Popil não é apenas um obstáculo em sua saga criminosa, mas também ocupa lugar desconfortável na travessia de sua relação dual com a tia, ora sexual, ora maternal, em suma, ambígua, num breve índice de complexidade psicológica desta narrativa insossa.

No desfecho, o psicopata viaja para os Estados Unidos, território que será palco de muitos conflitos que envolvem o desenvolvimento de seu legado na literatura e no cinema. É lá que ele se especializa em psiquiatria, título concedido em Maryland, ponto de partida para a sua travessia pelo território em questão. A chegada ao continente americano, por sua vez, não demarca exatamente a sua fuga, mas a última etapa dos planos de vingança contra os hiwis, lituanos traidores que ajudavam os nazistas durante o período bélico da década de 1940, grupo que se instalou na casa de campo de seus pais e devorou a sua irmã, uma das explicações para a sua postura canibalesca do futuro. Se tudo isso não é convincente, imagina contado numa prosa travada, sem a fluência esperada para permitir que compremos a ideia de deflagração das origens de um personagem tão esférico e misterioso, já popular demais quando o romance foi publicado. Complicado, concorda? É tanto que o material parece amaldiçoado, afinal, as partes menos interessantes da série televisiva inspirada no universo em questão são levemente extraídas do romance equivocado.

Diante do exposto, Thomas Harris falha ao entregar um personagem que aderiu ao caricato, mergulhado em fórmulas óbvias exaustivamente trabalhadas na cultura das séries e dos filmes sobre investigação criminal. Do luxo ao lixo, Hannibal Lecter se torna um clichê que pouco acrescenta conteúdo ao seu legado já questionável no desfecho do romance de 1999, fantasioso demais e problemático, considerado tão impossível de se filmar que fez o cineasta Ridley Scott convencer o escritor a declinar da proposta quase sobrenatural do personagem na Argentina com Clarice Starling para entregar ao público algo que não fosse tão deslizante, ou talvez, por uma palavra melhor, dissonante do estilo abordado nas histórias anteriores. Importante ressaltar que no deflagrar de suas origens, o principal combustível para a existência de um plano de vingança é a relação do protagonista com sua irmã, não apenas vaga em sua memória, mas na própria trama, pouco convincente e conveniente demais em sua proposta global de retaliação contra aqueles que tornaram a sua infância um período infernal, desculpa para levar o canibal para os Estados Unidos no desfecho, alguns anos antes de seu contato com Will Graham, em Dragão Vermelho.

Para não dizer que Hannibal – A Origem do Mal só possui problemas, ressalto que a pesquisa de Thomas Harris continua eficiente. Ele é um autor cuidado na descrição de detalhes arquitetônicos, políticos e sociais, em especial, na esfera cultural de onde emerge a figura de seu monstro, o “ogro contemporâneo” conhecido por transformar o assassinato praticamente numa instalação artística. Nascido em 30 de janeiro de 1938 na Lituânia, Hannibal Lecter já morou em Paris, Itália, Estados Unidos, Argentina, passeou pelo Rio de Janeiro e descende uma importante família da Lituânia, unificada com a sua mãe, parte integrante da alta burguesia italiana. Interessante observar, no que tange aos fatos históricos, as origens brevemente delineadas do protagonista. Ele é parte do extenso tronco da família Sforza, de Milão, dado que se perde no desenvolver da trama, mas revela origens macabras deste ser humano tão cruel quanto os seus antepassados renascentistas, governantes conhecidos pelas crueldades perpetradas por volta de 1395 até quando foram dominados pelos espanhóis em 1540, conteúdo bem mais interessante que não é mais aproveitado, pois traria ainda mais dispersão e riscos. Ademais, na literatura, o romance foi sua última aparição.

Hannibal: A Origem do Mal (Hannibal Rising – EUA, 2006)
Autor: Thomas Harris
Tradução: Gilson Soares
Editora no Brasil: BestBolso
Páginas: 255

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