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Crítica | “Happier Than Ever” – Billie Eilish

por Matheus Camargo
2523 views (a partir de agosto de 2020)

“I’ve had some trauma, did things I didn’t wanna

Was too afraid to tell ya, but now, I think it’s time”

Como suceder um dos álbuns de maior sucesso da última década? Como proceder após se tornar o ícone de uma geração, protagonizando a cena musical de 2019 e se tornando a artista mais jovem a vencer as quatro categorias principais do Grammy Awards? Não é surpresa alguma que questionamentos fossem lançados sobre o futuro e o caminho que Billie Eilish trilharia após tanto reconhecimento – principalmente numa indústria onde até mesmo os ídolos estão sujeitos a se tornarem descartáveis conforme o volátil interesse público. Dois anos depois e Happier Than Ever, seu segundo álbum de estúdio, nasce das mesmas dúvidas, um pouco mais distante da utopia adolescente para enraizar e crescer no solo árido que explora o peso da fama, os fantasmas que derivaram desse fardo, a vida adulta e relacionamentos abusivos. Não é basicamente sobre a felicidade em si, mas sobre a busca, aqui inconstante, árdua e intensa, recheada de altos grandiosos e baixos taciturnos, mas com certeza, mais madura. 

E, se o último álbum termina numa nota extremamente melancólica, o posterior é aberto com um diferente tipo de tristeza. Getting Older é a forma perfeita de abrir o álbum, servindo como uma síntese dos últimos anos da vida da artista e suas autodescobertas como pessoa enquanto envelhece atrelada a fama e seus demônios. A faixa abre as portas para uma atmosfera vulnerável que resvala em tópicos sensíveis num desabafo soturno. Numa de suas melhores composições, os versos se completam no poder pessoal e sincero que, juntos ao minimalismo da batida, ecoam pela mente em seus múltiplos significados e interpretações. Já em I Didn’t Change My Number temos uma canção mais clássica da Billie, provavelmente uma das mais radiofônicas do álbum, flui bem para o lado mais divertido e rancoroso da mesma. E, apesar de seguir uma fórmula, ainda ousa em certas experimentações, através dos “tremores” em seu final. 

É um sentimento que começa a tomar forma aqui mas se torna presente durante todo o resto: de que, o que estamos presenciando, é Billie e Finneas simplesmente testando, expandindo, brincando com as próprias barreiras por meio de experimentos musicais refinados que conversam muito bem entre si. Billie Bossa Nova é uma mudança de foco, fortemente inspirada por artistas brasileiros, e funciona como uma mistura do gênero e das características da artista numa canção sensual e teatral. my future, primeiro contato que tivemos com o álbum na metade do ano passado (e um dos meus singles favoritos de 2020) aposta numa alteração de ritmo no meio da faixa. As barreiras do experimental se quebram de vez e temos o hyperpop industrial de Oxytocin, que estronda em gritos alarmantes: “You should really run away!”, antes de sermos agraciados com o divino, o mundano e todos os seus conflitos, inebriantes e aparentes na ambiguidade poética de GOLDWING.

Entretanto, acredito que a grande maioria concorde que as escolhas para singles do álbum geraram certa confusão e receio em relação a coesão sonora do álbum. Lost Cause sendo a que mais divergiu opiniões, segue a linha melódica de um R&B contemporâneo mais comum, porém demora a realmente engatar e termina sendo básica em comparação às outras. O mesmo acontece com Your Power, que apesar de ter um tema forte, recontando sua história pessoal de um relacionamento abusivo e como isso a afetou, recebeu todo o tratamento de lead single da era mas se concentra basicamente na letra, não trazendo elementos musicais suficientemente interessantes. Em contraponto, outras baladas me tocaram muito mais, como os devaneios, a euforia e o conforto de se apaixonar em Halley’s Comet, ou, num outro extremo, a morbidez catastrófica e, de alguma forma, tranquilizante, sobre a efemeridade da vida em Everybody Dies. E tudo bem, porque tendo tantos temas e sonoridades diferentes, é normal que algumas canções conversem mais contigo e outras não: porém um dos pontos fortes de Happier Than Ever é o quão fluido ele consegue ser como álbum em si, equilibrando os diferentes sons sem quebrar o senso de continuidade. 

Ainda em sua fluidez, temos a transição entre Not My Responsibility e Overheated, a primeira sendo uma faixa falada, onde Eilish expressa seu descontentamento com a objetificação de seu corpo pela mídia e o anseio público para que seu corpo se encaixe no padrão ideal de uma celebridade. É interessante como a faixa posterior é construída nos mesmos sintetizadores, sua produção cresce camada a camada enquanto a artista toma posse de seu corpo, de sua imagem, e como a sua auto aceitação é afirmação de amadurecimento. NDA e seu electropop crescente possui muito de sua personalidade, na produção poderosa, vocais distorcidos, a sua atitude de bad guy mais presente que nunca, e se integra à Therefore I Am, a faixa mais comercial do álbum, sendo uma faixa que expressa o seu lado mais divertido, porém a mais “previsível” do trabalho. Se em you should see me in a crown a fama e o poder eram seus maiores desejos, aqui são vistos como os monstros a se lidar, e seus refúgios ora são obscuros, ora são uma sátira, porém sempre turbulentos, sentimentos, sejam quais forem, jogados como dinamite para o ouvinte.

Uma hora ela explode, e é justamente na faixa-título, começando com o clássico ukulele usado em certas das canções mais íntimas de sua jornada (como party favor ou 8), Happier Than Ever desliza calmamente pela melodia tranquila e a voz murmurada que te introduzem a um sonho bege, ruas de outono e questionamentos vazios, relembrando a indiferença, a rispidez de um relacionamento acabado, que confessa: “When I’m away from you, I’m happier than ever”. Parece ser o fim, mas a última lágrima a cair na cova faz dela brotar as lembranças, as mentiras, o tormento, e a música toma um rumo oposto, crescendo entre guitarras e tensão para se tornar uma das mais caóticas representações de angústia adolescente, mergulhando numa orquestra de gritos, explosões e raiva finalizada por um catártico: “Just fuckin’ leave me alone!”. É o verdadeiro clímax do álbum e luta pelo título de melhor música da carreira. Male Fantasy, por sua vez, conduz o final para a incerteza e perplexidade de terminar certas coisas. Numa balada meio Phoebe Bridgers, seus vocais carregam a canção pelas nuances do amor – como saber o que foi real e o que foi uma fantasia? Não há resposta, apenas a presença habitual de um coração partido. 

Por trás da introspecção, fúria e o desencanto, existe uma artista que tomou posse do seu passado e o transformou em combustível para dar os próximos passos com a força contida em pertencer a si mesmo. Das fantasias idealizadas e criadas através da arte até a mais bruta e crua realidade, o segundo álbum de Billie Eilish é corajoso o suficiente para enfrentar e colocar abaixo todas as cadeias em que o prendiam: evolui liricamente, expande os horizontes de sua música e refina os elementos de produção apresentados no primeiro álbum. Somos apresentados a uma série de sentimentos, como descritos pela sua sinestesia: alguns são do mais sonolento azul, outros reluzem como ouro, outros são vermelho escuro. Se algum deles representa a sua felicidade, é impossível saber, mas dá pra se dizer que, numa mensagem geral, Eilish prova que não nos deve nada. E poder seguir em frente livre de toda e qualquer corrente é um ótimo motivo para estar mais feliz do que nunca.

Aumenta!: Oxytocin
Diminui!: Lost Cause
Minha canção favorita do álbum: Happier Than Ever

Happier Than Ever
Artista: Billie Eilish
País: Estados Unidos
Lançamento: 30 de julho de 2021
Gravadora: Interscope Records
Estilo: Pop, alternativo

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