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Crítica | Harriet (2019)

por Davi Lima
416 views (a partir de agosto de 2020)

A diretora e roteirista Kasi Lemmons compreende o poder histórico do discurso e do potencial que a atriz Chynthia Erivo tem ao formar uma heroína cinematográfica de princípios transcendentais e abolicionistas. No canto, nos sonhos e no drama pessoal a jornada de fuga e conquista é emblemática, não ficando apenas nas fotos dos atores traduzidos em fotos de época, durante os créditos. Porém, o grande problema é a conciliação do Universo da obra em se mostrar vivo sem depender do fator extra filme. 

Dentro da narrativa, a construção da protagonista se fundamenta no sobrenatural, e em muitos quesitos esse é o mote das resoluções dos conflitos. A jornada da protagonista Minty, interpretada por Erivo, é o suficiente para trazer o sentimento de liberdade e ao mesmo tempo engrandecer as capacidades da escrava fugitiva. Entre seus dramas, não só existe uma relação peculiar e religiosa entre ela e sua família — que instiga-nos a assistir àquela história de visões sobrenaturais e caráter bíblico –, mas também a questão social escravista, que vai se deslocando em tratamento diferenciado pelo âmbito transcendental, moldado pelas atitudes da protagonista dentro da história.

Assim, o discurso abolicionista corre intimamente com questões religiosas, por isso a diretora posiciona sua câmera e aproveita o terreno como um conto mitológico, de uma igreja no alto, ou invoca a figura do atravessador do lago, entre outros pontos gravados como grandes travessias ou peregrinações da futura Harriet, nome que Minty tomaria para si quando liberta. Deste modo, o drama é como uma finalização encantadora de representatividade negra. Deus está envolvido em toda a conquista e o filme enfrenta os riscos do não-temor dos brancos como reflexo de conforto divino. Mas infelizmente, embora os discursos e o início da caminhada de Minty sejam efervescentes, a diretora começa a tratar os acontecimentos-chave para os clímax e viradas dramáticas com palavrões e pressões imediatas que soam intensas, porém são explosões isoladas que não alcançam muito dentro desse Universo.

A mitologia se torna tão grande, que o contraponto dos homens brancos sendo humilhados — mesmo tornando mais imponente o discurso abolicionista –, só alimenta uma dispersão do drama, do contato eficientemente e dramático entre negros e brancos, apenas acontecendo para pura conveniência de continuar o filme. No meio disso, a diretora até tenta encaixar personagens que vão se colocando quase que de maneira sobrenatural para sobrepor falhas, mas as resoluções de mesma raiz fantasiosa já eram justificativas para as fugas de Harriet e seus aliados no começo do filme, ficando incoerente utilizar o mesmo artifício de roteiro. 

Não à toa, tentando amenizar a artificialidade entre o centro religioso e o conflito com os brancos, a diretora força o relacionamento do personagem Gideon, interpretado ator Joe Alwyn, como dono de escravo apaixonado, ou dramaticamente em luta contra uma escrava que cuidou dele, e que ele maltratava. Mas isso vai se tornando excessivamente secundário e qualquer equivalência de personagens brancos no filme não parecem mais influir em uma crescente no que se quer contar, pelo contrário, as figuras humanas caucasianas se mostram como entraves visuais e narrativos, não gravitacionais na trama.

Pensando ainda mais sobre a posição dos senhores de escravos no filme, a humilhação dos brancos deveria ser determinante para o crescimento do discurso contra escravismo, mas visto que o fator transcendental fortificava isso naturalmente com a protagonista,  gravar tempo de tela com esbravejamento de aldeões e cavalarias reunidas evidencia o enchimento inócuo na história. O discurso de uma mulher branca fazendo associação de Harriet com Joana D’arc é o maior exemplo disso. Se a proposta não fosse entregar na cara do espectador “porque soava tão familiar uma mulher com preceitos divinos salvar tantos, como nas histórias antigas na Europa”, pareceria um grande pecado esse ponto do roteiro.

Além disso, é possível enxergar que um outro discurso feminino entra em voga, um que de fato já estava com a protagonista Harriet e sua persona destemida, mas a diretora busca outra voz feminina para expansão, porém, sem base forte suficiente dentro do roteiro para isso. É um outro exemplo como o filme se prostra a amarrar vários âmbitos sociais para tornar o artivismo completo. O que é estranho, já que usufruindo do próprio destino da protagonista e de suas falas motivacionais, os outros artifícios “artivistas” não parecem só desnecessários como enfraquecidos por não virem de Harriet.

Apesar dos defeitos, essa e mais outras obras abolicionistas, como Harriet, é um histórico do qual o presente público precisa se alimentar. Com a cultura e história dessa heroína da Guerra de Secessão é que se fundamenta lutas atuais contra o racismo. Entretanto, a conciliação com o material de importância representativa, externo ao filme, precisa colocar em variadas possibilidades a sua própria linguagem, para alcançar instintivamente as pessoas. 

Harriet (Harriet) – EUA, 2019
Direção: Kasi Lemmons
Roteiro: Kasi Lemmons, Gregory Allen Howard
Elenco: Cynthia Erivo, Leslie Odom Jr., Joe Alwyn, Janelle Monáe, Omar J. Dorsey, Clarke Peters, Vondie Curtis-Hall, Jennifer Nettles
Duração: 125 min.

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4 comentários

Gabriel Leão 21 de abril de 2021 - 12:11

Muito boa análise, apesar da importância social e histórica do tema abordado na película, acabei não me vinculando a história, por mais incrível que fosse, e você traduziu com perfeição esse sentimento no seu texto. Apesar dos problemas apresentados aqui, ainda espero que sejam lançadas muitas outras obras que garantam o lugar de fala das minorias.

Responder
Davi Lima 23 de abril de 2021 - 20:40

Muito obrigado, Gabriel! Também espero o mesmo que você!

Responder
Iann Jeliel Pinto Lima 11 de fevereiro de 2020 - 11:27

Excelente texto mano!! Seja bem-vindo a equipe!

Responder
Davi Lima 13 de fevereiro de 2020 - 05:38 Responder

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