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Crítica | Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J.K. Rowling

por Guilherme Coral
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estrelas 3,5

É difícil encontrar um livro que tenha marcado tanto uma geração quanto Harry Potter e a Pedra Filosofal e, naturalmente, suas sequências. Ainda lembro quando ganhei a primeira edição brasileira do livro, que sequer contava com o raio na letra “P” e na qual o nome de Malfoy fora traduzido para “Drago”. Dito isso, não é tarefa fácil distanciar-se da obra a fim de analisar os aspectos que levaram a seu sucesso, ou mesmo se ela é merecedora de todo o hype que gerou, mas é isso que farei aqui.

Para aqueles que viveram em uma caverna nos últimos vinte anos, o livro gira em torno de um menino, Harry, cujos pais foram assassinados quando ele ainda era bebê por um bruxo das trevas conhecido como Voldemort. Órfão, o pequeno Potter é deixado na casa de seus tios Válter e Petúnia para que seja criado até a idade na qual poderá ingressar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Com onze anos seu convite chega e Harry entra em um mundo mágico, iniciando uma jornada que só terminaria sete livros depois.

Desde as primeiras páginas, J.K. Rowling consegue nos trazer uma história que, ao menos, atiça nossa curiosidade. A perspectiva de Tio Válter no trecho inicial tem o evidente objetivo de fazer o estranhamento dele, o nosso. Aos poucos, Rowling nos transforma de trouxas em bruxos, ao passo que nos identificamos mais e mais com Harry e seus amigos que com os Dursley e outros humanos não-mágicos. Evidentemente que a autora coloca uma grande dose de exageros no comportamento dos tios de Potter e na maneira como eles o trata. Mas estamos falando de uma história destinada a um público na faixa de onze anos, a mesma idade do protagonista.

Dito isso, alguns elementos em comum com contos infantis definitivamente podem ser encontrados ao longo de Harry Potter e a Pedra Filosofal. A própria maneira como J.K. lida com o tempo aqui é uma prova disso – ao longo de toda a leitura existem inúmeras elipses, que constroem um retrato bastante fragmentado do que é um ano escolar em Hogwarts. É evidente que ela busca, através desse primeiro romance, apenas introduzir seu universo, mas não podemos deixar de sentir falta de um esmero maior, mais detalhes que nos ajudem a compor uma ideia mental do que significa todo esse universo.

Chega a ser curioso como ideias tão criativas são inseridas aqui e lá, criando imagens bem nítidas em nossas mentes, enquanto outros pontos são deixados tão no escuro. Felizmente, esses elementos desenvolvidos pela autora conseguem, ao menos, definir não só o tom da história, como o caráter fantástico desse universo. Um bom exemplo disso são as escadarias móveis da escola ou os retratos que se movem (e alguns até falam). Rowling, que busca inspiração de inúmeras outras obras, faz uma mistura curiosa e surpreendentemente bastante homogênea, criando em nós a percepção de que tudo é possível. Ela ainda sabe nos contar uma história bastante coesa, visto que faz uma precisa inserção de elementos ao longo da história, que, no fim, são resgatados a fim de trazer um ponto de virada lógico, mas ainda assim surpreendente.

J.K., contudo, conta com um defeito considerável: ela é péssima para escrever diálogos. Não que as falas não sejam interessantes ou não tragam informações relevantes, mas a maneira de um personagem falar não se diferencia do outro. Percebam como Hermione fala igualzinho Harry, que fala igual a Rony. Se a autora parasse de identificar quem é o responsável por cada fala, jamais saberíamos quem está discursando durante todo o livro. Mesmo personagens de diferentes idades não são diferenciados, salvo quando oferecem alguma pérola de sabedoria, o que é constante nas falas de Dumbledore. Esse defeito da obra, evidentemente que não a destrói, mas cria um certo empecilho para que conheçamos cada um dos personagens e só sabemos quem é cada um em virtude dos seus traços mais fortes – Hermione é a inteligente, Rony é o melhor amigo de Harry, Neville é o menino inseguro (pois corajoso ele é) e assim por diante. Não trazer um discurso único a cada um deles acaba dificultando o aprofundamento de suas personalidades – no fim, até mesmo o crescimento de cada um é minimizado.

Antes de finalizar o texto, devo abrir um parentese em relação à tradução brasileira realizada por Lia Wyler. J.K. definitivamente não facilitou o processo de tradução ao criar inúmeras palavras novas, tanto para objetos, quanto para o nome das casas de Hogwarts. Embora não houvesse a necessidade de Lia traduzir Gryffindor, Slytherin, Hufflepuff ou Ravenclaw, ela o fez de forma bastante inteligente, se apoiando na sonoridade de cada palavra e nos animais que são representados em cada emblema. O mesmo vale para outros itens, como o “pensieve”, que se transforma em “penseira” ou quiditch, que vira quadribol. A enorme responsabilidade de Wyler simplesmente moldou nosso olhar em cima de um mundo que afetou profundamente uma geração e o fato de utilizarmos essas nomenclaturas até hoje, sem reverter para o original em inglês, é a prova definitiva de um ótimo trabalho de tradução.

Harry Potter e a Pedra Filosofal, porém, apesar de seus deslizes, justifica todo o sucesso que fez ao redor do mundo, criando fãs e mais fãs que permanecem fiéis até hoje a esse universo de magia e bruxaria. Longe do perfeito, esse primeiro romance de J.K. Rowling é uma leitura bastante simples, mas que certamente merece ser mostrada para as crianças de diferentes gerações. Um adulto, porém, terá dificuldades em se imergir, a não ser que seja pego por uma onda saudosista.

Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Philosopher’s Stone) — Reino Unido, 26 de junho de 1997
Autores: J.K. Rowling
Editora original: Bloomsbury
Editoria no Brasil: Rocco
224 páginas

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