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Crítica | Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos

por Luiz Santiago
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O manual inquisitorial Malleus Maleficarum (mais conhecido por nós como O Martelo das Feiticeiras) foi publicado na Alemanha no ano de 1486, sendo revisto e republicado um ano depois, com algumas cópias circulado com um curioso anexo: a bula papal de Inocêncio VIII chamada Summis Desiderantis Affectibus (1484), que reconhecia a existência da bruxaria e dava aprovação para a Inquisição prosseguir “corrigindo, aprisionando, punindo e castigando” quem quer que fosse acusado de atos demoníacos. O Malleus Maleficarum é um largo e rigoroso manual de perseguição que fala sobre o demônio e sua ligação com a bruxaria; sobre as tentações sofridas pelas pessoas comuns no dia a dia; sobre como deveriam ser o julgamento das bruxas e como os religiosos e “homens de bem” deveriam fazer cumprir as sentenças contra os tais “vasos do diabo“. Foi baseado nesse livro que o cineasta dinamarquês Benjamin Christensen escreveu o roteiro de Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos (1922), um dos filmes mais interessantes e mais perturbadores da História do cinema.

Em certa medida, o longa é também um documentário de costumes históricos, teologia, demonologia e pensamento medieval de massa. No decorrer de suas sete partes, o diretor procura construir um argumento crítico ao contrastar as práticas da Inquisição contra as milhares de pessoas que “se comportavam de maneira diferente” e eram condenadas à morte, com a maneira como, na Idade Contemporânea, a sociedade trata as pessoas com problemas mentais, comportamentais e emocionais. Cria-se então uma relação direta com os hospícios, realidade que não parece tão horrenda no filme, mas que sabemos ter sido um verdadeiro martírio na vida de milhares de pessoas ao redor do mundo, tornando o argumento de Christensen dolorosamente verdadeiro: a falsa ciência por trás da cultura manicomial agiu, sim, como um novo tipo de Inquisição.

Sabemos que todo período histórico possui os seus vícios e valores. Diante deles, temos o legado e as consequências históricas que fornecerão às gerações futuras a oportunidade de estudar, julgar e analisar o modo de vida e pensamento das sociedades que as precedeu. Essa consciência é abraçada aqui pelo diretor, que começa o filme dialogando com o público, explicitando a sua intenção em abordar questões ligadas à mitologia cristã e sua relação com toda a mística do Universo dos demônios, bruxas, feitiçarias e afins. Isso dita, portanto, a maneira como Christensen guia o primeiro bloco, reunindo fatos históricos e religiosos sobre o pensamento sobrenatural do medievo, partindo das primeiras percepções humanas a respeito de figuras demoníacas. É uma arqueologia interessante, com demonstração de fotografias, desenhos e estatuetas mesopotâmicas e egípcias diante das quais o texto procura criar uma linha permanente de pensamento humano envolvendo entidades maléficas, tudo numa abordagem didática, mas ao mesmo tempo chamativa, jamais cansando ou enjoando o espectador.

As partes seguintes dramatizam de forma fantasiosa e depois analítica as ações que a Igreja Católica tomava durante o período da Inquisição e o medo em que viviam as populações medievais. A parte fantástica é também uma das mais divertidas e ao mesmo tempo assustadoras, onde a direção de arte, a maquiagem, os figurinos e o brilhante uso da trilha sonora clássica (com obras de Schubert, Gluck e Beethoven) nos insere em diversos rituais satânicos, onde vemos desde bruxas beijando o ânus de um demônio até demonstração de sacrifícios de crianças, diversos tipos de oferendas, invocações e preparações para encantamentos e voos em vassouras. O cuidado na recriação desses espaços exigiu não só uma grande pesquisa do diretor — dando ao filme uma aplaudível marca iconográfica em relação ao período que retrata e ao tema que aborda — como também bastante dinheiro, fazendo de Häxan o filme escandinavo silencioso mais caro já realizado.

Quando chegamos ao momento presente e as relações simbólicas começam a acontecer, Häxan parece tornar-se um filme de nosso tempo, com ares de ensaio a respeito do tratamento dado às mulheres, aos pobres e aos mental, emocional e comportamentalmente problemáticos. É o momento em que a crítica do autor ganha ares Universais e não apenas os comentários sarcásticos ou certas alfinetadas à Igreja e ao pensamento místico, como fizera no decorrer da fita. Após nos introduzir a uma cultura do passado e dramatizar cenas dessa cultura, o diretor nos mostra como ela pode ser vista de modo refigurado, recolorido e atendendo por novos nomes em nossos dias.

Seja através de forças sobrenaturais incompreensíveis ou das “características incompreensíveis” de uma pessoa, as sociedades sempre terão os seus “possuídos” para queimar, as suas regras de conduta moral para serem obedecidas, os seus estereótipos e mentiras utilizados para gerar medo e estigma e, por fim, as suas muitas ações de violência contra quem é diferente ou suspeito de ser diferente. Por mais que trate essencialmente de um momento histórico-cultural bem específico, a ponte que o cineasta faz no último ato abre as interpretações e aproximações dessa obra com todo tipo de exclusão e condenação social que tivemos e ainda temos na História. Todas ancoradas em profundo desconhecimento do outro, e mais profundo ainda desrespeito pela vida.

Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos (Häxan) — Suécia, Dinamarca, 1922
Direção: Benjamin Christensen
Roteiro: Benjamin Christensen
Elenco: Maren Pedersen, Clara Pontoppidan, Elith Pio, Oscar Stribolt, Tora Teje, John Andersen, Benjamin Christensen, Poul Reumert, Karen Winther, Kate Fabian, Else Vermehren, Astrid Holm, Johannes Andersen, Gerda Madsen, Aage Hertel
Duração: 100 min.

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