Crítica | Hebe: A Estrela do Brasil

“Essa mulher é incontrolável, é uma subversiva com um microfone na mão.”

Diferente das demais cinebiografias de figuras populares brasileiras da Globo Filmes que se utilizam da mesma estrutura de origem, fama, declínio e redenção, Hebe: A Estrela do Brasil é mais precisa na escolha do recorte a se contar. Sabendo da limitação temporal, o roteiro de Carolina Kotscho – que inclusive já escreveu 2 Filhos de Francisco – opta por uma abordagem menos plurilateral e mais específica, explorando espelhadamente as relações íntimas da personagem (filho, marido, amigos) no período de transição de seu programa da Band para o SBT, após uma tentativa de censura que voltaria a acontecer na outra emissora, mas que não impediria Hebe de falar o que ela acredita, com posicionamentos políticos à frente do seu tempo – considerando os bastidores do ambiente televisivo brasileiro – em respeito à defesa da voz LGBTQ+ e confrontos diretos às organizações estatais.

O texto busca abraçar na sua personagem uma quebra didática e assumidamente escancarada de tabus, o que faz total sentido já que Carolina também escreveu o documentário Quebrando o Tabu, portanto o discurso apresentado pelo filme – bem como o da apresentadora – não apresentará sutileza, principalmente na forma como estabelece paralelos diretos com as problemáticas atuais de preconceitos relacionados a diferentes orientações sexuais, e em como o conservadorismo se contradiz quando a liberdade de expressão vai de encontro ao que ele acredita. Esse mesmo discurso se estende a toda concepção estética do filme, que não esconde seu maniqueísmo na fotografia ao reforçar os contrastes das cores, luzes e brilhos nas cenas do programa de Hebe, com cenas mais frias, acinzentada quando no quadro há algum personagem que busca lhe prejudicar de alguma forma, ou tem algum pensamento retrógrado segundo sua ideologia.

Como é o caso de seu marido, o típico caso de masculinidade frágil, que se coloca como um homem atencioso e romântico, mas no ciúme revela a verdadeira face. Suas crises rendem em especial os momentos dramáticos mais eficientes do filme, pois diferente do inimigo caricato no poder, almeja-se compreender a figura do Lélio ao invés de apenas condená-la, expondo de maneira didática a vergonha intima que o personagem sente com suas atitudes impulsivas, resultantes de um contexto maior que poderia inclusive ser mais explorado. Aí esconde-se uma limitação do filme, e bem característica de demais cinebiografias brasileiras, onde se busca “limpar” ao máximo a biografada, abstendo de mostrar, questionar ou aprofundar os seus “podres”, consequentemente, idolatrando a figura a ponto de não diluir, por exemplo, os malefícios que personagens ao seu redor sofrem diante da falta de tempo da personagem em meio ao mundo do show business, nesse ponto que me refiro à contextualização maior do ciúmes, algo que fica muito vago, por exemplo, com relação ao seu filho. 

Um adolescente que vive isolado no luxo, num sentimento de constante falta de algo, e nunca fica muito claro o que é exatamente, se são mais amigos, seu pai biológico ou mesmo a ausência de uma mãe pouco presente pelo trabalho. É problemático porque percebe-se uma reserva de tempo para a relação entre os dois, mas fica apenas na superficialidade de que era muito bonita pelo apoio mútuo e sem demais conflitos. O mesmo acontece a respeito do alcoolismo e o apoio a Maluf, dois pontos controversos na sua carreira que são apenas pincelados sem respectivos aprofundamentos, a fim de não atrapalhar a autenticidade do símbolo feminista autônomo que ela representa, o qual o filme já assume desde o primeiro diálogo, que ela é uma das maiores de sua época, mas mesmo assim, não deixa de ser uma tentativa pouco calculada de imparcialidade por parte do texto.

Sobra a Andrea Beltrão preencher essas pequenas lacunas com uma unidade precisa de composição da personagem, uma tarefa árdua tendo em vista a caricatura naturalmente exagerada de Hebe. O recorte temporal e as linhas refinadas de diálogo ajudam muito a Beltrão em captar a essência humana da personagem, mesmo que fisicamente a atriz não se pareça em nada com a figura representada, o efeito é o mesmo visto em Steve Jobs, onde a emulação dos trejeitos não se sobrepõe ao estudo da pessoa ali por trás, logo, fica muito mais fácil comprar a encarnação, principalmente diante do abraço honesto à exuberância e carisma sorridentes, tipicamente “do jeitinho” dela. A maquiagem, o design de produção e os figurinos só fazem o trabalho de complementar a transformação, e nesse ponto, eles conseguem também trazer de volta o clima oitentista da televisão brasileira, com o auxílio dos planos fechados, que literalmente transportam o público para dentro dos palcos, por mais que a escolha de elenco para reviver figuras clássicas que aparecem tenha suas irregularidades, algumas funcionam (Roberto Carlos) e outras não (Silvio Santos), no geral, o detalhismo da reconstrução de época e o casting secundário agregam bastante à conjuntura final.

É um filme que respeita muito o submundo que retrata, um cenário que certamente até hoje é questionável justamente pela banalização apelativa dos conteúdos com um falso discurso moralista e family friendly, mas que recebeu com  Hebe uma oportunidade de poder questionar ao vivo a necessidade dessas limitações impostas à base de hipocrisia, quebrando barreiras e proporcionando uma abertura mais livre e menos elitista de programação. Já que mesmo vivendo em meio a riquezas e nunca se contentando em aceitar menos do que ganha, Hebe nunca deixou de tratar ninguém com a mesma dignidade, seja a recepcionista, cabeleireiro ou mesmo o telespectador de seu programa. Uma figura popular e acima de tudo honesta no seu senso de humanidade, que ganha um retrato tão honesto quanto e bem cuidado o suficiente para estar acima da média.

Hebe: A Estrela do Brasil – Brasil, 2019
Direção: Maurício Farias
Roteiro: Carolina Kotscho
Elenco: Andréa Beltrão, Marco Ricca, Danton Mello, Caio Horowicz, Daniel Boaventura, Stella Miranda, Felipe Rocha, Otávio Augusto e Ivo Müller.
Duração: 112 min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.