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Crítica | Heleno

por Luiz Santiago
112 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

Cinema e futebol no Brasil é uma mistura que vem desde o início do século passado, com o filme Partida Internacional Entre Brasileiros e Argentinos (1908). O esporte que representa culturalmente o Brasil (e isso é inegável, mesmo para os desafetos), teve  bons filmes a representá-lo, do reverenciado Garrincha, Alegria do Povo (1963) aos divisores de opinião como Boleiros – Era Uma Vez o Futebol (1998) e Linha de Passe (2008). Mais recentemente, alguns filmes “institucionais” patrocinados por grandes clubes ou por torcedores/executivos de diversos Clubes chegaram aos cinemas, somando “mais um” ao catálogo futebolístico do cinema brasileiro. Em 2011, entrou para as partidas cinematográficas a cinebiografia Heleno, que mesmo não sendo plena de qualidade, garante um bom entretenimento ao espectador e se firma com mais um passo na ousadia temática da nossa Sétima Arte. Nem que seja só por isso, o filme já vale a sessão.

A história, como se sabe, é sobre o mineiro Heleno de Freitas (1920 – 1959), filho de um industrial e proprietário de cafezais que, desde muito cedo, demonstrou sua paixão pelo futebol. Mesmo tendo se formado em direito, Heleno nunca exerceu a profissão. Sua carreira no Botafogo entre 1937 e 1948 marca a ascensão de uma lenda do futebol nacional e a popularização de um temperamento colérico em campo. O que mais chama atenção nesse aspecto é que o diretor José Henrique Fonseca e os outros dois roteiristas problematizam o tema, mais ou menos afetados pelo reflexo do nosso tempo, onde não raramente bons e jovens atletas deixam-se consumir pelo orgulho e pelo mau comportamento, abrindo as portas para um futuro de inimigos e consequências pouco louváveis.

Heleno não é um filme sobre o futebol ou sobre a carreira em campo do jogador Heleno de Freitas. Não sei se os leitores perceberam, mas tem se tornado cada vez mais comuns as cinebiografias que procuram mostrar a face privada de seus objetos de estudo, usando da fama ou da ocupação pública apenas como alavancas narrativas para expor uma história íntima e desconhecida. Até aí, o roteiro e a direção de Fonseca funcionam bem. A história consegue uma força considerável e fisga o público muito cedo. O que incomoda a partir de um certo ponto são as escolhas que o diretor se permitiu fazer, e a montagem é o exemplo mais grave nesse quesito. O trânsito entre o presente e o passado, através de flashbacks, é bem cansativo, e o tempo passa a ser mal aproveitado a partir daí, porque adequar com um bom ritmo espaços temporais tão longos e diferentes não é fácil para nenhum editor. O resultado não é algo que se possa chamar de inesquecível.

Dado o problema das escolhas narrativas, minha tendência é apontar o diretor como responsável pela queda de qualidade e marasmo (mesmo que palatável) do filme. Mas há coisas que merecem aplausos efusivos em Heleno: a brilhante atuação de Rodrigo Santoro, a linda trilha sonora e a produção visual, destacando-se a fotografia, a direção de arte e o figurino. É impossível não gostar dos ambientes iluminados por Walter Carvalho (que uma safra antes, assinara um documentário sobre Raul Seixas), a delicada criação do guarda-roupa de Valeria Stefani (que já havia feito um ótimo trabalho em A Suprema Felicidade) e os ambientes muito bem projetados e decorados pela direção de arte. O que o filme perde em narrativa, ganha em qualidade de produção visual.

Por incrível que possa parecer, mesmo tendo escorregado na condução do roteiro em idas e vindas cansativas e às vezes desnecessárias, o filme tem uma finalização maravilhosa. Ajudado por Santoro (e pelo elenco de apoio, com boas atuações), que criou um personagem complexo e forte, Heleno entra nos trilhos e nos presenteia com um final “aberto”, sugestivo e inquietante. Se alguma coisa parece não ter se saído bem e uma sensação de vazio permanece enquanto os créditos finais aparecem, é um reflexo dos tropeços no desenvolvimento, mas se olharmos friamente para o longa, veremos que a partida jogada merece ao menos o título de “valeu a pena”.

Heleno (Brasil, 2011)
Direção: José Henrique Fonseca
Roteiro: José Henrique Fonseca, Fernando Castets e Felipe Bragança
Elenco: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Edson Capri, Aline Moraes, Angie Cepeda, Erom Cordeiro, Orã Figueiredo, Henrique Juliano, Duda Ribeiro
Duração: 116min.

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13 comentários

Gabriel Leão Buendía 1 de maio de 2020 - 08:36

Acho que as pessoas ainda tem um pouco de preconceito com o Rodrigo Santoro, mas eu o acho um otimo ator, aqui ele estava excelente. Belíssima fotografia em preto e branco, a trilha sonora também, ótimas escolhas pra cada momento.
Ninguém mais sentiu semelhanças com Touro Indomável?

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 1 de maio de 2020 - 09:13

Não senti semelhanças com Touro Indomável, mas concordo que o Santoro é um ótimo ator. Pelo menos na minha bolha ninguém tem preconceito contra ele. O cara já provou inúmeras vezes o quão bom é.

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Luiz Santiago 12 de julho de 2018 - 16:28

Aaaaaah sim. Eu não me incomodei com isso não, achei como parte da construção do personagem. Mas consigo algo irritante ali sim, se me colocar em outro tipo de olhar.

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Luiz Santiago 11 de julho de 2018 - 18:10

Se você se refere às explosões emocionais, de fato, refletem o comportamento do biografado.

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Dan Oliver 12 de julho de 2018 - 13:23

Me refiro a um certo maneirismo em relação aos movimentos do Santoro.

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Dan Oliver 11 de julho de 2018 - 16:51

Curti o filme, mas achei a atuação do santoro um tanto “afetada”, mas acredito que isso talvez reflita o temperamento do Heleno.

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Anônimo 29 de junho de 2018 - 11:08
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Luiz Santiago 29 de junho de 2018 - 11:11

São boas sugestões mesmo. Esses estão sempre no radar, em algum momento pode aparecer por aqui!

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Luiz Santiago 27 de junho de 2018 - 14:22

Na boa, a Alemanha deve ter alguma maldição cara, não é possível! A Rússia definitivamente não é o lugar para os alemães estarem! hahahahaahhaha

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ABC 27 de junho de 2018 - 13:43

É um filme interessante para tirar do ostracismo um dos melhores jogadores do futebol brasileiro, praticamente conhecido apenas por botafoguenses é pelos moradores de São João Nepomuceno/MG, onde ha uma estátua do mesmo no centro da cidade.

E espero por mais críticas sobre filmes com a tematemá de futebol, em comemoração à copa do mundo (pode ser algum com a sina alemã nao avançar na Rússia tbm).

Saudações.

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Gabriel Leão Buendía 1 de maio de 2020 - 08:33

Hahahahahaha

Verdade, não tinha pensado nisso

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Crítica | Heleno – Críticas 26 de junho de 2018 - 15:00

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antonio nahud júnior 4 de abril de 2012 - 19:29

Fiquei contente em saber que o futebol não é o eixo central do filme. De qualquer forma, já ia ver o filme. O Santoro merece.

O Falcão Maltês

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