Home QuadrinhosMinissérie Crítica | Hellblazer: Ascensão e Queda (Rise and Fall)

Crítica | Hellblazer: Ascensão e Queda (Rise and Fall)

por Ritter Fan
1121 views (a partir de agosto de 2020)

Aos poucos, talvez mais vagarosamente do que o ideal, o selo Black Label da DC Comics que, dentre outras funções, veio substituir o adorado e sensacional selo Vertigo, vem abordando personagens que não sejam Batman, Superman e Mulher-Maravilha (principalmente o primeiro e seus agregados). Ainda que existam outras em andamento no momento, as minisséries fora da Trindade que já chegaram a seu fim foram apenas quatro: O Questão: As Mortes de Vic Sage, O Último Deus: Livro I das Crônicas de Fellspyre, Sweet Tooth: O Retorno e Hellblazer: Ascensão e Queda.

Hellblazer, primeiro título solo de John Constantine, personagem criado por por Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben como coadjuvante na publicação A Saga do Monstro do Pântano #25, de junho de 1984, começou a ser publicado ainda pela DC Comics em 1988, migrando para a Vertigo em 1993 e tornando-se um dos carros-chefes do consagrado selo e tendo a honra de ter sido o título mais longevo de lá. Para muitos leitores de longa data, é perfeitamente razoável concluir que Hellblazer é quase sinônimo de Vertigo, ainda que, hoje, possamos dizer que existem dois Constantines, um mais jovem e mais, digamos, padrão, que vem sendo trabalhado dentro da continuidade normal da DC Comics, seja em título próprio, seja como parte da Liga da Justiça Sombria, e outro mais velho e mais clássico como parte do cada vez mais expansivo selo The Sandman Universe.

Hellblazer: Ascensão e Queda é, por assim dizer, um meio termo entre os dois Constantines que povoam as publicações da DC Comics e funciona como um “ponto de entrada” para o personagem para aqueles que porventura não o conheçam ou que apenas leram pouco dele. Mas não é uma versão para qualquer idade, que fique claro, já que a história é decididamente adulta, com muita violência e sexo, ainda que tanto um quanto o outro não seja explícito demais. Mas o John Constantine da história não tem a sutileza do clássico das décadas de 80 e 90, o que pode afastar alguns puristas. Afinal, mesmo sendo um mago, o personagem, em seu começo, trabalhava os aspectos místicos de maneira mais mundana, de certa forma mais realista e, aqui, o Constantine que vemos é daqueles que escreve runas de fogo no ar e que chega até mesmo a conjurar uma genérica “bola de fogo” com a mão, criando aquela aura padrão de super-herói, algo que ele decididamente não é.

A história lida com o mistério de bilionários que literalmente caem do céu, morrendo das maneiras mais horrorosas possíveis, o primeiro deles espetado por um pináculo. Mas esses bilionários mortos têm asas de anjo que, ato contínuo, são arrancadas por um personagem misterioso. Só a premissa já “agarra” o leitor com força e cria a força motriz que gera a necessária curiosidade para a leitura da minissérie em três edições de tamanho avantajado (50 páginas cada) e formato mais quadrado que é uma das marcas do Black Label. Somada à premissa, há Constantine, claro, que é visto primeiro em flashback para o seu nascimento e depois para um evento macabro aos 11 anos, o que cria um contexto pessoal importante para o desenrolar da narrativa, com mais culpas sendo jogadas em seus já pesados ombros.

Há, ainda, a participação relevante do próprio Lúcifer Morningstar que, na verdade, é parte diretamente interessada nas ocorrências estranhas. Se Constantine é uma fusão entre algumas versões do personagem, o diabo de Tom Taylor é curiosamente mais frágil, mais “humano” e, por isso mesmo, mais falho do que normalmente o vemos e, por isso, ele pode parecer mais “bobo” na percepção de muitos. Tenho para mim, porém, que esse Lúcifer mais relacionável é potencialmente bem mais interessante que o todo-poderoso e distante Rei do Inferno e a dinâmica de buddy cop que é criada pelo roteiro funciona muito bem, especialmente o lado jocoso do Príncipe das Mentiras e a forma como Constantine lida com isso em meio à sua costumeira rabugice.

Mas Ascensão e Queda é uma HQ também bastante politizada, com duras críticas aos políticos no comando atual da Inglaterra e também aos muito ricos, que Constantine logo de início já afirma odiar pela forma como eles oprimem os que estão abaixo deles. Claro que o cinismo do protagonista funciona bem como veículo para essas críticas e Taylor consegue dar uma boa voz à sua versão de Constantine. No entanto, há, talvez, uma simplificação exacerbada da questão, com uma binarismo por vezes raso demais na linha de “rico = malvado” que cansa um pouco e não necessariamente porque eu discorde ou concorde com as afirmações, mas sim porque elas são óbvias e pouco trabalhadas, com uma solução ao final que simplifica toda a questão de tal forma que até mesmo, dentro de uma história com narrativa desse naipe, exige bastante da suspensão da descrença.

A arte ficou por conta de Darick Robertson, que co-criou The Boys e os traços anatômicos mais “feios” do desenhista funcionam muito bem para John Constantine e para o mundo doente em que vive. Como sempre, o artista esmera-se em detalhes de segundo plano, criando uma atmosfera rica e cuidadosa que ajuda na imersão do leitor, mesmo que seu Lúcifer, bem ao contrário do protagonista, seja basicamente um almofadinha vermelho. Não gosto da forma como ele representa o inferno ou a grande ameaça final, com a ação climática deixando a desejar em sua execução, mas ele sem dúvida tem o comando dos quadros e das páginas e cria um conjunto harmônico. As cores de Diego Rodriguez, por seu turno, mantém a ideia central de “mundo doente” que a narração de Constantine sempre procura passar e estabelece uma paleta muda, mas muito bonita e eficiente mesmo quando precisa esbanjar nas cores classicamente mais fortes.

Apesar de ser um dos raros exemplares não exatamente super-heróicos do selo DC Black Label, naturalmente mais adulto, Hellblazer: Ascensão e Queda é uma boa forma de conhecer John Constantine e Lúcifer Morningstar aos não iniciados – mas que entendam que há bastante violência e sexo, mais do que em uma HQ mainstream normal – e, também, um atrativo para os leitores que acompanhem o personagem, desde que não sejam saudosistas do estilo clássico (e, reconheço, bem melhor) do saudoso Constantine da Vertigo. Em outras palavras, há para todo mundo nessa ótima minissérie.

Hellblazer: Ascensão e Queda (Hellblazer: Rise and Fall – EUA, 2020/21)
Contendo:
Hellblazer: Rise and Fall #1 a 3
Roteiro: Tom Taylor
Arte: Darick Robertson
Cores: Diego Rodriguez
Letras: Deron Bennett
Capas: Darick Robertson, Diego Rodriguez
Editoria: Andy Khouri, Amedeo Turturro, Marie Javins
Editora: DC Comics (selo DC Black Label)
Datas de publicação: 1º de setembro, 03 de novembro de 2020, 02 de fevereiro de 2021, 27 de abril de 2021 (versão encadernada)
Páginas: 151

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11 comentários

Lucas Casagrande 29 de abril de 2021 - 08:48

Fico feliz de ver o Bat Label…ops Black Label fazer outras histórias que não seja do Batman

Curti essa Hellblazer, achei bem legal, não é o John da Vertigo que conhecemos nos anos 90 mas é bem melhor que o soltador de raios mágicos dos novos 52

Responder
planocritico 29 de abril de 2021 - 14:27

Também fico feliz! Estou esperando Strange Adventures acabar para ler e tem ainda Rorschach em andamento.

Ainda é pouco, mas as coisas estão indo!

Sobre Hellblazer, é bem isso que você disse: não é o clássico e melhor, mas também não é o do Novos 52 e pior…

Abs,
Ritter.

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Peter 29 de abril de 2021 - 01:46

Não consigo gostar dessas novas fases do Hellblazer de jeito nenhum, tá faltando alguma coisa que eu não sei descrever … Tá muito longe, mas muito longe das qualidades das histórias com a Vertigo.

Responder
planocritico 29 de abril de 2021 - 01:52

Sim, mas essa HQ não é exatamente de uma fase atual. É uma história solta, que pode ser encarada tanto como introdutória como “avançada”.

Mas certamente a fase Vertigo é muito melhor.

Abs,
Ritter.

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JC 28 de abril de 2021 - 21:04

Tenho acompanhado as histórias dele na Panini de uns tempos pra cá…tem sido bem irregular .
Agora as novas do universo do Sandman, O Sonhar pra mim foi uma das coisas mais belas que já li em bastante tempo!

Responder
Ruqui 28 de abril de 2021 - 19:28

Essas do Sandman, como O Sonhar, Livros de Magia, etc. também tinham séries antigas da época da publicação de Sandman, né? Pena que não lançaram por aqui…

Responder
planocritico 28 de abril de 2021 - 21:45

Essa aqui não é nem uma coisa, nem outra. Fica em um bom meio termo e vale ser conferida.

Abs,
Ritter.

Responder
Ruqui 28 de abril de 2021 - 23:28

Essas do Sandman, como O Sonhar, Livros de Magia, etc. também tinham séries antigas da época da publicação de Sandman, né? Pena que não lançaram por aqui…

Responder
planocritico 29 de abril de 2021 - 01:32

Você diz na época original, lá atrás? Acho que não.

Abs,
Ritter.

Responder
Lucas Casagrande 29 de abril de 2021 - 08:50

Sim, o Sonhar teve uma série de cerca de 60 edições no final dos anos 90

Livro da Magia teve uma mini série de 4 edições nos inicios dos anos 90 e depois foi seriado ( não lembro quantas edições )

Lucifer teve uma boa série nos anos 2000

Acho que só o casa dos Sussurros que não teve série anterior

Responder
JC 28 de abril de 2021 - 17:04

Tenho acompanhado as histórias dele na Panini de uns tempos pra cá…tem sido bem irregular .
Agora as novas do universo do Sandman, O Sonhar pra mim foi uma das coisas mais belas que já li em bastante tempo!

Responder

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