Crítica | Hellboy No Inferno

  • Há spoilers. Leia, aqui, todo nosso material sobre Hellboy.

Tormenta e Fúria, encadernado composto por duas minisséries de Hellboy, deu continuidade tardia e um certo fim à linha narrativa principal de Hellboy, contando sua história a partir do final da dobradinha O Clamor das Trevas e Caçada Selvagem. Ao final, depois de derrotar a manifestação terrena de Ogdru Jahad, o fantasma de Nimue, que fora possuída pelo dragão  lovecraftiano, arranca-lhe o coração no melhor estilo Mola Ram e o mata.

Mas, em quadrinhos, a morte é sempre relativa (a não ser que seja o Tio Ben, por enquanto) e Mike Mignola, que não mataria assim sem mais nem menos sua galinha dos ovos de ouro, continuou a história de seu grande personagem em um dos poucos lugares que ele ainda não havia visitado: o Inferno. Afinal, se uma penca de outros personagens de HQs já visitaram esse simpático local, porque não logo Hellboy, que tem Inferno em seu nome e como local de nascimento, não é mesmo?

Hellboy no Inferno foi publicado em 10 edições supostamente mensais, publicadas entre 2012 e 2016 (quatro anos!!!), todas escritas e desenhadas por Mignola, formando dois arcos bem marcados que foram originalmente publicados tanto lá fora quanto aqui dessa forma separada, com o primeiro sendo batizado de The Descent (Descenso) e o segundo de The Death Card (A Carta da Morte). Como realmente houve um intervalo muito grande entre as duas partes da maxissérie, dividi a presente crítica exatamente conforme os arcos, com análises e notas específicas para cada uma.

(1) Descenso e (2) A Carta da Morte.

Descenso
(The Descent)

Se Tormenta e Fúria desapontou pela forma como desfez elementos narrativos anteriores e se valeu de um deus ex machina para permitir a vitória de Hellboy sobre Ogdru Jahad, a descida do Vermelhão ao inferno é uma ótima leitura que aborda esse tão temido lugar de maneira refrescantemente original, mas sem tirar o peso da situação e a marcada melancolia e até resignação do protagonista em sua continuada tentativa de ser ele mesmo e não um predestinado agente do apocalipse. Descenso é justamente o que o título indica, fazendo Hellboy passear pelos arredores do inferno até chegara a Pandemônio, sua capital, e além.

A história definitivamente não é o que se espera. Com certeza há algumas boas pancadarias entre Hellboy e criaturas infernais, mas esse aspecto do arco é emudecido pelo seu foco principal que basicamente coloca o protagonista em uma jornada pessoal, de cunho até mesmo filosófico e que bebe de uma inusitada fonte literária principal, o clássico Um Conto de Natal, de Charles Dickens, temperado por O Paraíso Perdido, de John Milton, como inspiração para a geografia do inferno. A combinação funciona muito bem e os fantasmas que levam Ebenezer Scrooge para aprender com seu passado, presente e futuro são convertidos em demônios com função parecida para Hellboy, que passa a entender um pouco melhor sobre suas raízes demoníacas.

Mistérios são estabelecidos ainda cedo na história, com Hellboy assassinando, sem lembrar-se do que fez, o próprio Satã, elemento que passa a ser pontilhado pelas páginas de todo o arco. Da mesma forma, a presença do investigador paranormal do século XIX Edward Grey, que sempre esteve nas sombras das histórias do Vermelhão sem nunca efetivamente interagir com ele, é enviado na direção de Hellboy por ninguém menos do que a bruxa eslava Baba Yaga, com a missão de salvar o personagem já que ele teria ainda três missões a cumprir. Grey, então, passa a ser parte integral da narrativa, especialmente em sua segunda metade, quando sua origem trágica é revelada para Hellboy.

Mesmo que a presença de Grey pareça aleatória, já que ele, como disse, nunca fora um personagem ativo, é perfeitamente possível aceitá-lo no arco como um avatar da referida bruxa, essa sim sempre muito importante na mitologia de Hellboy e que, agora, tem até um dos olhos do Vermelhão. O desenvolvimento da história como um todo é lento, mas muito bem cadenciado, mantendo o interesse do leitor constantemente exatamente pelo inusitado da situação, pela inserção dos mistérios e novos personagens e por manter Hellboy daquele seu jeito calmo clássico, sem realmente alterar-se mesmo diante do cenário dantesco ao seu redor.

Esse arco marca a volta de Mignola para a arte de Hellboy em uma série continuada. O autor, no começo do trabalho com seu personagem, sempre trabalhava nas duas pontas, roteiro e desenho, mas, com o tempo, passou a somente roteirizar as mais diversas histórias e dezenas de spin-offs nesse seu fascinante universo. Sua volta é bem-vinda, mesmo considerando que por diversas vezes outros grandes artistas fizeram excelentes trabalhos com o personagem, como foram os casos de Richard Corben e, principalmente, Duncan Fegredo. É que a arte de Mignola carrega fortemente nos elementos imagéticos inspirados em H.P. Lovecraft e, nesse sentido, o Inferno criado torna-se um exemplar belíssimo que funde conceitos bíblicos com o chamado Culto a Cthulhu. De toda forma, como é marca de seu trabalho, o minimalismo impera, algo que os tons escuros de sua arte-final e das cores mudas de Dave Stewart, parceiro desde sempre de Mignola no Hellboyverso.

Descenso é um belo início do fim para Hellboy e um arco que consegue até mesmo compensar o desapontamento que foi Tormenta e Fúria. Uma volta triunfal de Mignola ao controle total de seu grande personagem.

A Carta da Morte
(The Death Card)

Confesso que não sei bem o que pensar de A Carta da Morte. Acho até que Mike Mignola não sabe muito bem que ele fez aqui, pois toda a estrutura desse segundo arco, que lida com Hellboy tendo sua alma consumida por algum parasita estranho que ameaça transformá-lo em uma carcaça vazia (e isso porque ele já está no inferno!!!), parece sem rumo, sem foco, com um final já na terceira edição (há até um “fim” na última página) que não termina nada e nem começa alguma outra coisa na edição.

Diferente do arco anterior, mais filosófico e contemplativo, este é simplesmente confuso e não apresenta um fim efetivo para o personagem, mas sim, apenas, uma história dele que se passa no inferno. Ela poderia ser mais longa, mais curta, mas não deixaria de ter esse caráter de um história dentro de uma história maior, que não oferece respostas, não traz um desfecho e deixar Hellboy onde está sem que as pontas do arco anterior sejam amarradas. É frustrante, ainda que curiosa e belamente desenhada por Mignola.

Mas curiosidade e beleza não são suficientes aqui. A Carta da Morte era a promessa de um fim para o personagem, nem que esse fim fosse ele simplesmente voltar para o mundo dos vivos como se nada tivesse acontecido ou ele recomeçar a vida no tal novo mundo pós-Ragnarok mencionado tantas vezes neste e nos volumes anteriores. Mike Mignola devia isso a seus leitores, especialmente considerando o tempo que ele demorou  para escrever Hellboy no Inferno, mas o que ele entrega é anticlimático e “viajante” demais para trazer algum tipo de satisfação efetiva para os leitores.

E isso não é um traço inédito para o autor. Essa perda de foco já havia acontecido algumas vezes antes, notadamente a partir do momento em que o Vermelhão deixou o B.P.D.P. ao final de O Verme Vencedor, ou seja, um arco publicado originalmente entre 2001 e 2002, 14 anos antes desse pseudo-encerramento. A falta de rumo para o personagem, que muitas vezes parece ser escrito na base da “orelhada”, sem um mapeamento claro (no que se refere sua história macro, nãos os vários e sensacionais contos soltos ao longo de todos esse anos), mostra-se evidente em A Carta da Morte resultando em um final que não é nem de longe um encerramento e que, de quebra, não desenvolve o personagem ou sua mitologia.

É uma pena que Hellboy no Inferno acabe assim. Uma história com enorme potencial é encerrada abruptamente, sem fazer jus à longuíssima jornada desse grande personagem. Frustrante é pouco.

Hellboy no Inferno (Hellboy in Hell, EUA – 2012 a 2016)
Contendo: Helllboy in Hell #1 a 10
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Mike Mignola
Cores: Dave Stewart
Letras: Clem Robbins
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Datas originais de publicação:
Hellboy in Hell: The Descent (encadernado original americano): maio de 2014
–  Hellboy in Hell: The Death Card (encadernado original americano): outubro de 2016
–  Hellboy in Hell #1 a 5: dezembro de 2012 a dezembro de 2013
–  Hellboy in Hell #6 a 10: maio de 2014 a junho de 2016
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: Descenso (outubro de 2015), A Carta da Morte (fevereiro de 2018)
Páginas: 304 (soma dos dois encadernados brochura americanos)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.