Crítica | Hellboy – Vol. 1: Sementes da Destruição

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Hellboy é a grande criação de Mike Mignola e as HQs referentes a ele são as publicações carro-chefe da Dark Horse Comics. Quem conhece o personagem ao longo dessas décadas sabe o quanto sua mitologia foi expandida, com uma riqueza de novos personagens sendo criados dentro desse universo gótico-lovecraftiano que começou em 1994 com Sementes da Destruição, arco em quatro edições que literalmente é a semente que fez germinar todo o restante.

Tecnicamente, porém, o referido arco não é a primeira história com o personagem, já que a primeira teve apenas quatro páginas colocando Hellboy contra Anúbis e foi publicada na San Diego Comic-Con Comics #2, de 1993 (mais detalhes, aqui). Mas Sementes da Destruição é, para todos os efeitos, o grande marco editorial de Hellboy e um impressionante exemplo de “construção de universo”, ou seja, é um arco que tem como função primordial de estabelecer as bases para o crescimento e multiplicação do que hoje pode facilmente ser denominado de Hellboyverse.

Escrita pelo grande John Byrne, a história começa em 1944, durante a 2ª Guerra Mundial, com uma tropa de soldados americanos acompanhados do Tocha da Liberdade, o Capitão América desse universo, em uma missão que ninguém sabe exatamente o objetivo, mas que parece ter relação com o sobrenatural, já que eles são acompanhados por três autoridades nesse campo, notadamente o professor Trevor Bruttenholm ou apenas “Broom”. Sem perder muito tempo, somos levados para mais ao norte, onde uma tropa nazista espera o mago russo Rasputin completar uma cerimônia de conjuração, usando estranhas manoplas (e que lembra o final de Caçadores da Arca Perdida em vários aspectos). Quando tudo acaba, o resultado do trabalho do vilão é uma criança-demônio que, porém, se materializa onde a tropa americana estava. Nascia Hellboy.

Corta para 1994, mais precisamente 10 meses depois que o professor Broom havia sido dado como morto em uma expedição para o Ártico juntamente com três membros da família Cavendish. Com a memória confusa, ele tenta contar o que lembra para Hellboy, agora um já crescido e experiente investigador do B.P.D.P., ou Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal. Eventos estranhos acontecem, o professor Broom efetivamente morre e Hellboy, juntamente com seus companheiros de Bureau Abraham “Abe” Lincoln, um ser anfíbio, e Liz Sherman, mulher com habilidades pirocinéticos, saem para investigar o ocorrido, o que, claro, os coloca em rota de colisão com o próprio Rasputin tentando acabar o que começara há 50 anos.

Há dois elementos principais – além da criação e design do próprio protagonista, claro – que fazem esse primeiro volume de Hellboy ser um primor narrativo.

O primeiro deles é o mistério. Com exceção de breves flashbacks narrador por Hellboy que contextualizam Abe e Liz, explicando de onde vieram, o texto de Byrne é econômico e furtivo. Nada que não seja essencial para o entendimento diria até raso da linha narrativa principal é efetivamente abordado e explicado. Ora, nem mesmo Hellboy ganha maiores detalhamentos que não seja uma breve “não-explicação” sobre sua descomunal mão direita, que nenhum cientista soube explicar para que serve e que ele próprio não tem maior uso para ela do que como um eficiente porrete e como o vilão passou décadas sem aparentemente envelhecer. Os planos exatos de Rasputin, aliás, ficam apenas na linha geral da conjuração de demônio lovecraftiano de um nexo de dimensões (com um excelente detalhe sci-fi no meio) e não muito mais do que isso, o que ao mesmo tempo irrita o leitor e o deixa extremamente curioso pelo que está por vir. E isso sem falar no intervalo de 50 anos entre os eventos de 1944 e os de 1994, que o autor “preenche” com brevíssimos comentários de Hellboy sobre aventuras passadas que não só dão estofo narrativo ao personagem, como abrem as portas para décadas de aventuras. É a perfeita isca e o perfeito planejamento para a expansão desse universo.

Mas o roteiro de Byrne, por melhor que seja, não seria suficiente para tornar Hellboy o que ele é hoje em dia. A arte de Mike Mignola é o segundo e essencial elemento para a excelência de Sementes da Destruição. Seu estilo marcante, um tanto caricatural e com desproporções anatômicas (benignas, muito diferente da porcariada que marcou os anos 90) que ele já vinha demonstrando nas publicações mainstream notadamente da DC Comics ganha um espaço sem freios em Hellboy, em que o artista pode realmente mergulhar na sua pegada gótica, trabalhando profundamente o chiaroscuro e a atmosfera de terror que permeia toda a narrativa, com a figura do Hellboy “quebrando”, do seu jeito, a aura mais pesada que a história poderia ter, mas que, ainda bem, não tem.

Mignola não se preocupa em trabalhar os mínimos detalhes e mantém a simplicidade pelas quatro edições que fluem muito facilmente ao longo da leitura, escondendo o que talvez exigisse mais minúcias com as belíssimas sombras que preenchem não só todos os ambientes, especialmente a mansão Cavendish, mas também cada personagem. Apenas o vermelho da pele do protagonista se sobressai, mas sem que Hellboy, ele mesmo, seja constantemente mergulhado nas sombras a ponto de ser raro vermos seus olhos.

De certa maneira, o sobrenatural é o grande protagonista aqui nesse arco inicial. Hellboy e seus colegas de trabalho ganham desenvolvimento apenas na medida do necessário para fazer a história funcionar, com o vermelhão quase – quase! – podendo ser classificado como coadjuvante em sua própria história já que, apesar de ser sempre o centro das atenções, os eventos que se desenrolar no arco acontecem apesar de sua presença e não em razão dela. No entanto, não vejo isso como um defeito, mas sim como um escolha deliberada de Byrne e Mignola que, aqui, estão preocupados em estabelecer os aspectos macro desse então novo universo. Hellboy, portanto, é muito mais o nosso ponto de vista que serve como veículo de aprendizado sobre o que aconteceu e está acontecendo ali, com os mistérios que são mistérios inclusive para ele funcionando muito bem para inexigir maiores desenvolvimentos ou um protagonismo mais relevante do Garoto do Inferno.

Sementes da Destruição é uma aula de gênese de universos da Nona Arte. Em relativamente poucas páginas, Mignola e Byrne nos fazem voltar para os quadrinhos de terror dos anos 70 devidamente embrulhados com homenagens às obras mainstream e sorvendo todos os seus alicerces da bibliografia de H. P. Lovecraft. E o resultado é uma criação única que provavelmente marcará qualquer um que se debruçar sobre ela.

Hellboy – Vol. 1: Sementes da Destruição (Hellboy – Vol. 1: Seed of Destruction, EUA – 1994)
Contendo: Hellboy #1 a 4
Roteiro: John Byrne
Arte: Mike Mignola
Cores: Mark Chiarello
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: março a junho de 1994, outubro de 1994 (encadernado)
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: 1998
Páginas: 130 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.