Crítica | Hellboy – Vol. 11: A Noiva do Demônio e Outras Histórias

  • Leia, aqui, todo nosso material sobre Hellboy.

Deve ter sido duro acompanhar Hellboy ao longo das publicações regulares da Dark Horse Comics. Afinal de contas, Mike Mignola, depois de engatar dois volumes seguidos que mergulharam profundamente na mitologia do personagem – O Clamor das Trevas e Caçada Selvagem – parou por anos, mantendo-se na ativa somente nas publicações paralelas do B.P.D.P. e em variados contos de seu protagonista. E, pior ainda, diferente dos contos das fases iniciais, sem estabelecer qualquer tipo de conexão, mesmo as mais tênues, com a narrativa macro. Foi assim no encadernado O Vigarista e Outras Histórias e também em A Noiva do Demônio e Outras Histórias, este objeto da presente crítica.

A grande vantagem, por outro lado, é que a mente fervilhante de Mignola consegue criar uma miríade de histórias interessantes sem as amarras da cronologia, o que certamente aliviou eventual descontentamento de quem queria saber o desfecho do cliffhanger do final de Caçada Selvagem. A Noiva do Demônio e Outras Histórias reúne cinco one-shots (um deles publicado originalmente no site do jornal USA Today de todos os lugares!) e uma minissérie de duas edições de Hellboy em um conjunto variado, mas menos inspirado do que o compilado anterior.

A primeira história é Hellboy no México, que serviria como porta de entrada para o autor voltar a essa localidade outras vezes com seu Vermelhão em aventuras envolvendo luchadores. Aqui, ele e Abe Sapien estão em região árida do México encerrando um caso quando o ser aquático dá de cara com recortes de jornal antigos com Hellboy ao lado de lutadores mascarados mexicanos, o que dá azo ao protagonista para contar sua história de caça a demônios décadas antes ao lado de três irmãos lutadores. Com arte de Richard Corben, o one-shot é uma delícia de se ler e preenche um pouco da vida pregressa de Hellboy com uma anedota ao mesmo tempo divertida e trágica, carregada de um ar melancólico e saudosista.

O one-shot seguinte é, na verdade, a versão Mignola para um grindhouse, aqueles cinemas baratos que normalmente passavam sessões duplas de filmes trash e/ou de exploitation que eram muito populares nos EUA nos anos 70 e 80. Enquadrando duas histórias como filmes passando em um cinema fantasma, o autor coloca Hellboy primeiro contra uma casa mal-assombrada lovecraftiana e, depois, investigando um sujeito enlouquecido capaz de conjurar múmias e deuses egípcios. São narrativas muito rápidas, novamente com Corben no lápis, que não deixam o leitor descansar, ainda que não sejam terrivelmente originais ou impactantes.

(1) A Noiva do Demônio e (2) Buster Oakley Realiza Seu Desejo.

O Longo Sono dos Mortos-Vivos é, como Mignola mesmo diz, sua abordagem para os vampiros europeus clássicos, algo que ele já havia trabalhado, mas não da maneira mais “raiz” como ele faz aqui. Trata-se da única minissérie do compilado e talvez a melhor história de todas, com uma atmosfera misteriosa e assustadora criada pela magnífica arte de Scott Hampton e que estabelece toda uma mitologia própria para um vampiro milenar que apoderou-se de uma moradia – e de seus habitantes – em Suffolk, na Inglaterra. Todos os componentes do Drácula de Bram Stoker estão presentes, como noivas-vampiras de cabelos esvoaçantes e vestidos brancos, vampiros de terno, caixões no subsolo de uma casa assombrada, estacas e assim por diante, mas com o cuidado de se acrescentar ingredientes que só enriquecem a narrativa, como um plano secreto de um grupo secreto de vampiros veteranos e um plot twist dentro da própria estrutura vampiresca.

A história escolhida para batizar o encadernado – A Noiva do Demônio – traz Corben de volta para a arte em uma narrativa de possessão demoníaca que parece seguir por um caminho muito viajado, mas que Mignola o desvia e acrescenta elementos históricos (ou melhor, inspirados em eventos históricos) que amplificam a grandeza e o horror da história, contando-nos a origem do demônio Asmodeus e do Rei Davi. Apesar de uma resolução burocrática considerando a magnitude que Mignola imprime à narrativa, o conto cumpre bem sua função de trabalhar basicamente todos os conceitos demoníacos que gravitam ao redor de Hellboy desde as primeiras edições do personagem.

O penúltimo one-shot, O Legado da Família Whittier, foi uma encomenda da Dark Horse para Mignola, com o objetivo de divulgar Hellboy no jornal USA Today, sendo a única obra do encadernado também desenhada pelo roteirista, algo que, a essa altura do campeonato em sua carreira, já estava se tornando uma raridade. Seja como for, como um conto para atrair novos leitores, tenho minhas sinceras dúvidas se ele funcionou dada a natureza mais verborrágica e a mais completa falta de introdução dos personagens, já que Hellboy começa completamente inserido em uma narrativa de conjuração demoníaca nos anos 80, em Boston. É uma história curtíssima, mas também bastante “bagunçada”, que mais confunde do que esclarece.

Finalmente, Buster Oakley Realiza Seu Desejo é algo completamente diferente na carreira de Hellboy, já que, aqui, apesar de parecer que ele enfrenta mais uma conjuração demoníaca, os grandes vilões são mesmo extraterrestres que abduzem jovens, vacas e porcos para fazer experiências das mais estranhas lá em seu disco voador. A história prende pelo inusitado da coisa e pelos desenhos belíssimos do veterano Kevin Nowlan, conhecido por suas variadas obras pela Marvel Comics e por fazer o design gráfico do logotipo de Hellboy. Entre E.T.s de olhos esbugalhados, robôs gigantes e um homem-vaca, o conto final do encadernado é absolutamente irresistível.

Apesar de irregular, A Noiva do Demônio e Outras Histórias é mais um ótimo compilado de histórias soltas de Hellboy que merecem atenção dos leitores. Depois dele, Mignola finalmente voltaria à narrativa principal de sua grande criação dos quadrinhos.

Hellboy – Vol. 11: A Noiva do Demônio e Outras Histórias (Hellboy – Vol. 11: The Bride of Hell and Other Stories, EUA – 2011)
Contendo: Hellboy no México, Sessão Dupla de Horror, O Longo Sono dos Mortos-Vivos, A Noiva do Demônio, O Legado da Família Whittier, Buster Oakley Realiza Seu Desejo
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Richard Corben (história 1, 2 e 4), Scott Hampton (história 3), Mike Mignola (história 5), Kevin Nowlan (história 6)
Cores: Dave Stewart (histórias 1 a 5), Kevin Nowlan (história 6)
Letras: Clem Robbins (histórias 1 a 5), Kevin Nowlan (história 6)
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Datas originais de publicação:
– The Bride of Hell and Others (encadernado original americano): outubro de 2011
– (1) Hellboy no México, publicada em maio de 2010, em Hellboy in Mexico, or A Drunken Blur;
– (2) Sessão Dupla de Horror, publicada em novembro de 2010, em Hellboy: Double Feature of Evil;
– (3) O Longo Sono dos Mortos-Vivos, publicada em dezembro de 2010 e fevereiro de 2011, em Hellboy: The Sleeping and the Dead #1 e 2;
– (4) A Noiva do Demônio, publicada em dezembro de 2009, em Hellboy: The Bride of Hell;
–  (5) O Legado da Família Whittier, publicada em outubro de 2010, no site USAToday.com;
–  (6) Buster Oakley Realize Seu Desejo, publicada em abril de 2011, em Hellboy: Buster Oakley Gets His Wish.
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: junho de 2012
Páginas: 202 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.