Crítica | Hellboy – Vol. 3: O Caixão Acorrentado

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O terceiro volume encadernado da série regular e principal de Hellboy é o primeiro a ser, apenas, uma compilação de histórias “soltas” do personagem publicadas entre o lançamento da primeira edição mensal do personagem em março de 1994 (ou seja, a primeira parte do volume 1, Sementes da Destruição), passando por todo o volume 2 e alcançando este volume aqui, lançado originalmente em 1998. O sucesso do personagem logo na largada gerou diversas “encomendas” a Mike Mignola pela Dark Horse Comics que ele, claro, com o objetivo de solidificar o personagem na editora e no imaginário popular, não titubeou em entregar.

Portanto, ainda que as sete historietas publicadas de diversas maneiras diferentes (one-shots, minisséries, serialização) ao longo de quatro anos e compiladas em O Caixão Acorrentado não sejam essenciais para a compreensão do arco maior de desenvolvimento do Vermelhão, elas preenchem e expandem a mitologia sobrenatural do personagem, além de trazer muita diversão gótico-lovecraftiana ao leitor, algo que nunca é demais, convenhamos, se ela vem de um autor tão preocupado, como é o caso de Mignola, em converter mitos e lendas do folclore mundial, dos mais aos menos conhecidos, de maneira tão inteligente como sabemos que ele é capaz.

Em termos de relevância para a continuidade da saga de Hellboy, talvez os contos mais interessantes sejam o curtíssimo one-shot Baba Yaga, a única história criada especialmente para o compilado e que faz referência expressa a uma menção em O Despertar do Demônio sobre o primeiro encontro do Garoto do Inferno com a bruxa das lendas eslavas com a casa construída em cima de um pé de galinha gigante e Quase Um Deus, minissérie (originalmente publicada em duas partes em edições próprias) que lida com as consequências dos eventos do volume anterior e traz Roger, o Homúnculo que ganhou vida graças à Liz Sherman, para o Bureau de Pesquisas e Defesa Paranormal. Se o primeiro é anti-climático e talvez breve demais considerando os poderes que Rasputin reputa à bruxa em O Despertar do Demônio, o segundo é o típico exagero “hellboyano”, com uma história inspirada em Frankenstein (por sua vez, claro, inspirado no mito judaico do golem), mas de pretensões amplas e extremamente destrutivas, que colocam Hellboy contra um sensacional monstro gigante criado pelo “irmão mais velho” de Roger.

Já fora da continuidade normal, o conto que logo chama atenção é o que batiza o encadernado (one-shot publicado originalmente no compilado comemorativo Dark Horse Presents #100, Parte 2) e que coloca Hellboy de volta à igreja na Inglaterra onde ele primeiro apareceu na Terra depois de conjurado por Rasputin em Sementes da Destruição. Sem explicar com todas as palavras, mas fazendo mais do que apenas dando a entender, Mike Mignola conta uma bela e aterradora história de origem de Hellboy, por intermédio da visão “em flashback” dos fantasmas que assombram o local, inclusive o padre e a freira que são vistos na história original. O Caixão Acorretado é um breve exemplo do quanto Mike Mignola sabe escrever bem, pois ele poderia ter escolhido narrar uma história linear, mas preferiu trabalhar por intermédio de uma narração por carta de Hellboy a Abe Sapien, colocando o próprio protagonista em uma posição de mero observador em sua própria história de origem que, por sua vez, lida com temas pesados como a entrega de uma mulher a um pacto com o demônio e seu arrependimento – em vão – em seu leito de morte.

Hellboy em (1) Os Lobos de Santo Agostinho e (2) Quase um Deus.

Seguindo ainda pela ordem de relevância, vale destaque Os Lobos de Santo Agostinho, minissérie originalmente publicada em quatro edições que oferece a mais longa e mais “formalmente completa” história de Hellboy no compilado sob análise. Trata-se de uma trágica e violenta narrativa de lobisomem que leva Hellboy a investigar um vilarejo nos Bálcãs cuja população inteira (167 pessoas) é assassinada quase que literalmente do dia para a noite, incluindo o padre Kelly, amigo de Hellboy em outras aventuras (não contadas até o lançamento do encadernado). Introduzindo a especialista em folclore e ocultismo Kate Corrigan ao universo de Hellboy, personagem que, depois, seria muito explorada em outras histórias, Mignola triunfa ao estabelecer um clima investigativo e sobrenatural que conta com inspiradas sequências de horror e de ação que não deixam nada a dever a clássicos do subgênero da licantropia nos quadrinhos.

Depois dessas quatro excelentes histórias, o encadernado lida com duas breves historietas divertidas, mas sem o mesmo grau de inspiração. O Cadáver, por ter sido uma encomenda específica da Dark Horse para ser serializada em seis edições do catálogo Capital City’s Advance Comics de duas em duas páginas, acaba sofrendo com essa progressão episódica. Mesmo assim, Hellboy contra duendes irlandeses que sequestram bebês é automaticamente algo que chama a atenção, mesmo que a execução em si deixe a desejar. Botas de Ferro, conto que foi escrito para compor a republicação de O Cadáver menos de um ano depois, tem melhor sorte, mas o próprio Mignola admite que ele não é “propriamente uma história, só um incidente”. E, de fato é mesmo, com Hellboy lidando com um goblin maléfico que usa as referidas botas de ferro como armas.

Fechando o volume, há O Natal Subterrâneo, objeto do especial de Natal de 1997 de Hellboy. Na história, Hellboy, cumprindo uma promessa a uma mulher moribunda de salva sua filha, embarca em uma jornada a uma alegoria do inferno para libertar o espírito da moça de um (ou “do”) demônio. De todas as histórias, essa é a mais cansativa, com uma progressão que a faz ser arrastada e pouco significativa, com os desenhos de Mignola sendo “escondidos” pela ação off-panel.  Não chega a ser ruim, mas não passa da linha mediana.

Mesmo com altos e baixos, O Caixão Acorrentado é leitura prazerosa garantida dentro desse universo sobrenatural de Mike Mignola. É, de certa forma, o primeiro vislumbre da enorme expansão que Hellboy ganharia a partir da primeira década dos anos 2000, com diversos volumes spin-off, novos personagens e tudo mais.

Hellboy – Vol. 3: O Caixão Acorrentado (Hellboy – Vol. 3: The Chained Coffin and Others, EUA – 1998)
Contendo: O Cadáver, Botas de Ferro, Baba Yaga, Natal Subterrâneo, O Caixão Acorrentado, Os Lobos de Santo Agostinho, Quase um Deus
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Mike Mignola
Cores: Matt Hollingsworth, James Sinclair, Dave Stewart
Letras: Pat Brousseau
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Datas originais de publicação:
The Chained Coffin and Others (encadernado original americano): agosto de 1998
O Cadáver: publicada entre março e agosto de 1995, em Capital City’s Advance Comics #75 a 80
Botas de Ferro: publicada em janeiro de 1996 em Hellboy: The Corpse and The Iron Shoes
Baba Yaga: agosto de 1998 em Hellboy: The Chained Coffin and Others
Natal Subterrâneo: dezembro de 1997 em Hellboy Christmas Special
O Caixão Acorrentado: agosto de 1995 em Dark Horse Presents #100-2
Os Lobos de Santo Agostinho: agosto a novembro de 1994 em Dark Horse Presents #88 a 91
Quase um Deus: junho e julho de 1997 em Hellboy: Almost Colossus
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: 2008
Páginas: 178 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.