Crítica | Hellboy – Vol. 4: A Mão Direita da Perdição

  • Leia, aqui, todo nosso material sobre Hellboy.

Acompanhar as publicações soltas de Hellboy na medida em que elas eram publicadas nos EUA deve ter sido muito complicado, já que Mike Mignola e a Dark Horse Comics inseriam o personagem não só em publicações próprias como também nas mais diversas antologias e de maneiras diferentes. Ainda bem que os encadernados existem para ordenar a bagunça. A Mão Direita da Perdição é o quarto volume da história principal da criação noventista de Mignola e o segundo seguido a trazer uma coletânea de contos – oito no total – que abordam momentos diferentes na vida do Garoto do Inferno.

Mas, diferente de O Caixão Acorrentado, a editora reuniu os contos por “eras”, ou seja três sobre a juventude do herói em Os Anos Dourados e outros três em Os Anos de Maturidade. Foi apenas uma escolha organizacional que dá um semblante de arco, mas que, na verdade, apenas coloca em capítulos separados histórias que não se conectam em nada que não seja, claro, Hellboy e toda a temática sobrenatural. Além disso, esses seis primeiros contos não são diretamente importantes para a história contínua de Hellboy e podem ser lidos em qualquer ordem ou mesmo pulados, ainda que eles, como de praxe, resultem em uma ótima leitura e, claro, a contínua expansão desse magnífico universo. Fechando o volume, porém, há duas outras histórias, a que dá nome ao encadernado e A Caixa do Mal, essas sim importantes para a mitologia do protagonista e que conversam diretamente uma com a outra.

Começando então pelo começo, Os Anos Dourados traz Panquecas, a primeira história de Hellboy ainda criança e que, de acordo com Mignola, ele escreveu meio que a contra-gosto, sem real interesse em abordar sua criação em idade tão tenra. Mesmo assim, em apenas duas páginas, o resultado é muito divertido, pois mostra que uma das razões pelas quais Hellboy adaptou-se tão bem à vida na Terra é seu gosto por panquecas. Simples e prosaica, a historieta traz um baita sorriso mesmo aos leitores mais carrancudos. Em seguida, temos A Natureza da Fera, passada na Inglaterra, em 1954, que coloca Hellboy, a pedido de um misterioso grupo de pessoas com conexão com seu pai adotivo, contra um dragão mítico que havia primeiro sido derrotado por um monge há 1400 anos. A narrativa é simples, mas carrega muito significado, além de Mignola trabalhar muito bem a circularidade narrativa, além de criar mistério sobre o grupo que pede o tal favor a Hellboy e que parece ter interesses ulteriores na criatura invocada por Rasputin. Finalmente, Rei Vold, escrita exclusivamente para o encadernado, adapta duas histórias do folclore norueguês e coloca Hellboy, novamente obedecendo súplica de um amigo de seu pai adotivo, às voltas com um rei fantasma e seus lobos de estimação em um conto cheio de ganância e bons momentos de pancadaria mitológica.

Em Os Anos de Maturidade, Mignola começa adaptando uma lenda japonesa que coloca Hellboy contra cabeças vampiras voadoras no precisamente intitulado conto Cabeças. Novamente, há muita simplicidade aqui, mas a história é tão surreal que a diversão é garantida. Adeus, Senhor Tod, o segundo conto, é também o mais sem graça de todos do volume, com Hellboy às voltas com um médium falido que tem problemas para conjurar um monstro lovecraftiano ectoplásmico. Um tanto bizarro, mas completamente sem ação e sem grandes atrativos. Finalmente, em O Vârcolac, Hellboy enfrenta um vampiro capaz de “engolir” a lua em uma boa narrativa que pega a lenda dos sugadores de sangue e imprime novidades a ela, em uma estrutura onírica muito bem narrada.

Hellboy em (1) Cabeças e (2) A Caixa do Mal.

A terceira parte do encadernado, batizada simplesmente de A Mão Direita da Perdição, reúne o breve conto homônimo e sua continuação direta A Caixa do Mal, com um epílogo escrito especialmente para o compilado. Como dizem os americanos, é aqui que está o “suco” de todo o volume 4 do investigador paranormal vindo diretamente do inferno, com histórias que, sem pressa e sem revelar muito, procuram abordar justamente a descomunal mão direita de pedra que Hellboy costuma usar como marreta para dar o golpe final em todas as assombrações que enfrenta.

Em A Mão Direita da Perdição, Hellboy e convocado pelo padre Adrian Frost para conversar sobre algo que ele encontrara entre as coisas de seu pai, o professor Malcolm Frost. Quem é Malcolm Frost? Um dos três especialistas em eventos paranormais que testemunhou a chegada de Hellboy à Terra e o único a advogar pela destruição do pequeno demônio. Isso é visto lá atrás em Sementes da Destruição, mas sem qualquer desenvolvimento, o que Mignola faz aqui muito brevemente, afirmando que o professor passou boa parte de sua vida querendo acabar com Hellboy, pecado esse que seu filho deseja expiar em nome do pai. Essa pesca e desenvolvimento de eventos do passado remoto do Vermelhão é uma manobra inteligentíssima de Mignola para alcançar seu verdadeiro e igualmente inteligente objetivo: organizar os eventos que cercaram a vida pessoal de Hellboy até o momento de publicação dessa história. Com isso, o autor usa as páginas seguintes para nos recontar cronologicamente o que aconteceu com sua criação desde que foi conjurado, passando pela primeira vez que enfrentou Rasputin em Sementes da Perdição, passando pela segunda vez que o enfrentou (dessa vez em forma espiritual) e a Hecate em O Despertar do Demônio, sem deixar de passar por sua concepção contada em O Caixão Acorrentado, e chegando até o momento presente. Se alguém tinha alguma dúvida sobre o que realmente importava sobre Hellboy até esse ponto, Mignola esclarece eficientemente aqui.

De certa maneira, o conto anterior é um prelúdio para A Caixa do Mal, que mistura o conceito de mansão mal-assombrada – e a Casa de Usher de Edgar Allan Poe é expressamente mencionada – com o aprofundamento do mistério sobre a verdadeira função de Hellboy como arauto do apocalipse, tudo por intermédio da libertação de um demônio da referida caixa do título. Mesmo demorando a decolar, a história é poderosa, pois mexe profundamente com o protagonista, que novamente se vê obrigado a lidar com sua natureza nefasta, algo que ele evita ao máximo. Aliás, a maneira como Mignola sempre abordou esse lado de Hellboy é admirável, com sua criação sempre mostrando um ar resignado, que sabe ou desconfia muito fortemente o que verdadeiramente é, mas que se recusa a aceitar. Mesmo diante do inevitável, do inegável, Hellboy luta contra sua natureza e mantém-se impassível, trazendo um doloroso ar melancólico ao personagem, o que empresta uma silenciosa profundidade a ele, algo raro de se ver em personagens de quadrinhos. Essa minissérie em duas edições é, sem dúvida alguma, até hoje uma das melhores do personagem.

A Mão Direita da Perdição é mais uma sólida compilação de contos de Hellboy, com duas histórias finais verdadeiramente importantes para sua mitologia. Mantendo a atmosfera gótico-lovecraftiana na arte, Mike Mignola entrega mais um excelente volume sobre sua criação máxima.

Hellboy – Vol. 4: A Mão Direita da Perdição (Hellboy – Vol. 4: The Right Hand of Doom, EUA – 2000)
Contendo: Panquecas, A Natureza da Fera, Rei Vold, Cabeças, Adeus, Senhor Tod, O Vârcolac, A Mão Direita da Perdição, A Caixa do Mal
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Mike Mignola
Cores: Dave Stewart
Letras: Pat Brosseau
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Datas originais de publicação:
The Right Hand of Doom (encadernado original americano): abril de 2000
Panquecas: publicado em agosto de 1999 em Dark Horse Presents Annual;
A Natureza da Fera: publicado em fevereiro de 2000 em Dark Horse Presents #151;
Rei Vold: publicado em abril de 2000 em The Right Hand of Doom;
Cabeças: publicado em março de 1998 em Abe Sapien: Drums of the Dead;
Adeus, Senhor Tod: publicado em agosto de 1999 em Gary Gianni’s The Monster Men;
O Vârcolac: publicado de julho de 1999 a janeiro de 2000 em  Dark Horse Extra #14 a 19;
A Mão Direita da Perdição: publicado em agosto de 1998 em Dark Horse Presents Annual;
A Caixa do Mal: publicado em agosto e setembro de 1999 em Hellboy: Box Full of Evil #1 e 2;
A Caixa do Mal: Epílogo: publicado em abril de 2000 em The Right Hand of Doom.
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: 2004 e 2009
Páginas: 146 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.