Crítica | Hellboy – Vol. 5: O Verme Vencedor

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Depois de O Caixão Acorrentado e A Mão Direita da Perdição, dois volumes compostos por diversas pequenas histórias independentes de Hellboy, Mike Mignola, com O Verme Vencedor, volta à estrutura clássica de um arco completo ocupando integralmente um encadernado. Bebendo direta e profundamente de Edgar Allan Poe e dedicando a história aos heróis pulp dos anos 30 e 40, além de ao G.I. Joe tamanho grande, conhecido no Brasil por Falcon (e só por essa dedicatória meu coração nostálgico explodiu…), o autor retoma alguns temas importantes para seu personagem, costurando também elementos dos contos anteriores e introduzindo um novo personagem a esse rico universo.

Começando com Poe na veia, transcrevendo o poema O Verme Vencedor que Ligeia, no conto homônimo, compõe, Mignola dá o tom fortemente gótico de sua história que coloca Hellboy e Roger, o Homúnculo contra a ameaça favorita deles: nazistas e seus experimentos tecno-necromânticos (sim, inventei a expressão agora…).  A fórmula é a de sempre, com os dois tendo que invadir um castelo milenar usado como base para uma ameaça da 2ª Guerra Mundial que ressurge nos tempos atuais, com uma cápsula espacial nazista retornando à Terra depois de todas essas décadas, tendo o cientista-cabeça Herman Von Klempt, que apareceu em O Despertar do Demônio, como pivô. Há, claro, fortes elementos lovecraftianos (a cápsula parece voltar justamente com o verme do título) e toda a sorte de pancadaria a que já estamos acostumados.

De realmente diferente, porém, há a introdução de Lagosta Johnson, um de meus personagens favoritos da mitologia hellboyana. Trata-se de um herói como o Capitão América (o segundo do tipo, já que o Tocha da Liberdade, que aparece brevemente em Sementes da Destruição, já teve essa função) que lutou contra os nazistas durante a guerra e que teria morrido justamente destruindo o plano nazista que só viria à fruição no presente. O diferente, aqui, é que o personagem é oficialmente inexistente para o Bureau e para o mundo em geral, sendo lembrado apenas como um personagem de histórias pulp. E Mignola o insere de forma “mística” na narrativa, mantendo constantemente a dúvida se ele está mesmo ali ou não, em uma jogada muito inteligente e referencial, meta-linguística mesmo.

(1) Lagosta Johnson em 1939 e (2) Hellboy, Roger, Lagosta e o Verme Vencedor no presente.

O problema do arco, porém, é que ele se perde em uma tentativa de emprestar complexidade à narrativa, inserindo uma mulher que se revela como neta de Von Klempt, a mitologia-metre de Ogdru Jahad, Rasputin, um gorila cibernético e monstros variados, além de espíritos aleatórios que, no lugar de realmente contribuir para a narrativa, acaba emperrando-a. É a primeira vez ao longo dos encadernados de Hellboy que acompanhar a progressão visual do trabalho de Mignola é difícil e frustrante, com um clímax corrido e bagunçado.

Mesmo considerando o já citado Lagosta Johnson e o dilema moral que começa com a noticia de que o Bureau inserira uma bomba em Roger de forma que qualquer eventual descontrole dele possa ser, digamos, neutralizado, e que leva Hellboy a repensar sua dedicação ao seu emprego e duvidar das boas intenções de seus chefes, o problema é que o arco abraça mais do que consegue lidar com naturalidade e os atropelos narrativos vão se avolumando até cansar. Talvez fosse o caso de uma história mais longa, capaz de realmente desenvolver seus personagens para além de “episódios” breves inseridos ao longo dos razoavelmente breves quatro capítulos, de forma que passemos a nos preocupar mais com cada um deles.

Mas, se olharmos de maneira mais estanque, nos preocupando menos com a fluidez e mais com a arte em si, há momentos gloriosos aqui que vão desde a criação do Lagosta, com um visual imbatível, passando pela parceria porradeira entre Hellboy e Roger e culminando com o verme de areia, digo, verme vencedor, até o belíssimo jogo de chiaroscuro que as cores de Dave Stewart aprofundam magistralmente, inclusive emudecendo o vermelho berrante do protagonista. Claro que isso não compensa os problemas do volume, mas considero impossível não apreciar esse estilo bem característico de Mignola para lidar com seus monstros, sejam eles os adoráveis ou os monstruosos mesmo.

O Verme Vencedor marca, de certa forma, um “fim” para o Hellboy padrão e inicia uma nova fase para o herói, agora solitário pelo mundo. Não é a melhor transição para o personagem, ainda que a leitura continue valendo a pena.

Hellboy – Vol. 5: O Verme Vencedor (Hellboy – Vol. 5: Conqueror Worm, EUA – 2001)
Contendo: Hellboy: Conqueror Worm #1 a 4
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Mike Mignola
Cores: Dave Stewart
Letras: Pat Brosseau
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: maio a agosto de 2001, fevereiro de 2002 (encadernado)
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: setembro de 2005, julho de 2013
Páginas: 146 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.