Crítica | Hellboy – Vol. 7: A Feiticeira Troll e Outras Histórias

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O Verme Vencedor separou Hellboy do contato humano ou quase-humano normal que gozava como membro do B.P.D.P. e Paragens Exóticas arremessou-o na África e, em seguida, em aventuras exóticas no mar ou perto dele. Ambos os volumes, de certa forma, podem ser vistos como ritos de passagem para o personagem, ainda que por vezes pareça que Mike Mignola não sabia lá muito bem o que fazer com sua criação. A Feiticeira Troll e Outras Histórias é o encadernado seguinte que volta a reunir curtos contos de Hellboy, todos publicados como histórias soltas dentro de compilações, com exceção de Makoma, minissérie em duas edições dedicadas de Hellboy. No entanto, diferente dos demais compilados, este é de longe o mais “solto” de todos, com histórias que, mesmo sendo consideradas canônicas e que mencionem, aqui e ali, eventos da vida do personagem que já vimos antes, podem ser lidas com grande grau de independência.

E é natural que essa circunstância, por si só, traga um pouco de frustração ao leitor da série. Afinal de contas, antes Mignola demonstrou preocupação em pelo menos trazer uma ou duas histórias curtas costuradas de maneira mais sólida à linha temporal padrão do personagem, efetivamente fazendo a história macro andar. Aqui, ele apenas nos traz historietas de Hellboy pelo mundo que não se conectam de verdade com a linha narrativa principal, talvez com exceção de Makoma, que resvala em seu futuro apocalíptico, mas sem trazer nada de verdadeiramente novo.  Mas, talvez pior do que isso é que as histórias compiladas no encadernado, em seu conjunto, sejam as mais fraquinhas, ainda que longe de ruins, que fique bem claro. É sempre incrível ver como Mignola cava fundo no folclore e na literatura mundiais para achar inspiração para suas histórias, mesmo que elas por vezes não funcionem de verdade, pelo menos não como um veículo para Hellboy.

Esse é o caso, por exemplo, de Penanggalan, o primeiro conto do encadernado. Baseado no folclore malaio e contando a história de uma assombração que é composta de uma cabeça e entranhas esvoaçantes, a narrativa prende por sua profunda estranheza e pela bela arte de Mignola (como sempre), mas não como uma história de Hellboy. E, de certa forma, o mesmo vale para o conto seguinte, A Hidra e o Leão, que mistura ideias da filha de Mignola com o mito de Hércules em uma narrativa que transforma o protagonista em um observador quase que completamente passivo.

No entanto, para compensar, A Feiticeira Troll, conto usado para batizar o encadernado, funciona muito bem, sendo facilmente o melhor de todos ainda que mais uma vez coloque o protagonista basicamente como um ouvinte. Nele, Hellboy vai para a Noruega, em 1963, para encontrar a tal feiticeira que ele suspeita ser a responsável por assassinatos na região e ela, então, passar a relatar sua terrível história de origem, como a segunda filha de um casal que não se contentou em usar uma bela flor mágica para ter uma linda primeira filha. É uma lenda belíssima e pesada, mas que Mignola torna ainda mais pesada, o que só a faz destacar-se entre seus pares no compilado.

(1) P. Craig Russell desenhando O Vampiro de Praga; e (2) Richard Corben desenhando Makoma.

O Vampiro de Praga é uma mixórdia. De curioso mesmo é que se trata da primeira história nos compilados-padrão da série principal de Hellboy sem a arte de Mignola. No lugar dele, entra P. Craig Russell nos lápis, Lovern Kindzierski nas cores e Galen Showman nas letras, ou seja, uma troca completa de time criativo. O resultado é um Hellboy mais leve e mais cômico, mas com um roteiro – este de Mignola, claro – que não sabe muito bem o que quer ser, um drama vampiresco ou uma farsa cômica. E, nessa dúvida, ele acaba não sendo nenhuma das duas coisas. Por sua vez, A Experiência do Doutor Carp, com arte e roteiro de Mignola, é 100% horror tradicional de casa mal-assombrada que diverte pelos elementos bizarros e de sci-fi que o autor enxerta do nada na narrativa e que faz com que Hellboy enfrente o doutor do título, mesmo com ele morto no presente (1991, no caso).

O penúltimo conto, O Ghoul, é introduzido por Mignola como “quase como certeza a mais estranha história de Hellboy” que ele fizera até aquele ponto. E, de fato, é. A história é simplíssima: Hellboy vai atrás de um ser sobrenatural que se alimenta de corpos no cemitério. Não é tão estranho? De fato não é. O que é realmente bizarro é que Mignola desenhou tudo e, somente depois, pesquisou poemas que se encaixam com o tom da história e que pudessem ser usados nos balões de fala da criatura. Uma experiência pessoal do autor que, se ele seguiu mesmo à risca o que disse ter seguido, vale só pelo tamanho da dor de cabeça que deve ter sido achar esses poemas.

E, finalmente, o encadernado encarra-se com Makoma, uma visão africana da própria história de Hellboy ou, pelo menos, da história que poderia ser a de Hellboy se ele não tivesse se agarrado à sua humanidade adotada. É bizarra e interessante, mas o que chama mesmo a atenção é a arte de Richard Corben que funciona maravilhosamente bem para dar vida ao protagonista em uma narrativa que é enquadrada por páginas desenhadas por Mignola e que situam a história dentro da mitologia de Hellboy. O problema é que essa narrativa poderia ter qualquer personagem como vetor e o uso de Hellboy parece artificial e forçado, diferente das outras lendas usadas por Mignola.

A Feiticeira Troll e Outras Histórias é uma coletânea razoavelmente frustrante de Hellboy por não conter histórias realmente interligadas com o arco macro do personagem e por não ter nenhum grande destaque. É como se o Mike Mignola de sempre tivesse tirado férias assim como seu próprio Hellboy que passou dois anos no fundo do mar…

Hellboy – Vol. 7: A Feiticeira Troll e Outras Histórias (Hellboy – Vol. 7: The Troll Witch and Other Stories, EUA – 2007)
Contendo: Penanggalan, A Hidra e o Leão, A Feiticeira Troll, O Vampiro de Praga, A Experiência do Doutor Carp, O Ghoul, Makoma
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Mike Mignola (historias 1, 2, 3, 5 e 6), Richard Corben (história 7), P. Craig Russell (história 4)
Cores: Dave Stewart (historias 1, 2, 3, 5, 6 e 7), Lovern Kindzierski (história 4)
Letras: Clem Robbins (historias 1, 2, 3, 5, 6 e 7), Galen Showman (história 4)
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Datas originais de publicação:
– The Troll Witch and Others (encadernado original americano): outubro de 2007
– (1) Penanggalan, publicada em março de 2004, em Hellboy Premiere Edition #1;
– (2) A Hidra e o Leão, publicada em janeiro de 2006, em The Dark Horse Book of Monsters;
– (3) A Feiticeira Troll, publicada em junho de 2004, em The Dark Horse Book of Witchcraft;
– (4) O Vampiro de Praga, publicada em outubro de 2007, em The Troll Witch and Others;
– (5) A Experiência do Doutor Carp, publicada em agosto de 2003, em The Dark Horse Book of Hauntings;
– (6) O Ghoul, publicada em junho de 2005, em The Dark Horse Book of the Dead;
– (7) Makoma, publicada em fevereiro e março de 2006, em Hellboy: Makoma.
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: março de 2008
Páginas: 146 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.