Crítica | Hellboy – Vol. 8: O Clamor das Trevas

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Se A Feiticeira Troll e Outras Histórias serviu como um interlúdio completa e frustrantemente desconectado da narrativa principal de Hellboy, O Clamor das Trevas poderia também ser chamado de interlúdio, mas, desta vez, diretamente amarrado ao drama do demônio que se recusa a seguir seu destino apocalíptico. Ou melhor, talvez a minissérie em seis edições publicadas ao longo de 2008, ano de lançamento do segundo longa-metragem do personagem, possa ser caracterizado também como um prelúdio para o arco seguinte, Caçada Selvagem, esse sim importantíssimo – essencial mesmo – para Hellboy, mas essa característica de prelúdio vem apenas em alguns detalhes aqui e ali e um final em forma de cliffhanger que deixa os leitores coçando a cabeça e curiosos pelo que virá.

Seja como for, porém, O Clamor das Trevas é sem dúvida uma volta à forma para a série principal do Vermelhão, com Mike Mignola no timão, mas pela primeira vez abrindo mão completamente da arte em favor de outro desenhista, Duncan Fegredo, que trabalhou tanto neste quanto no próximo arcos. Na história, vemos as consequências de algo que começou lá atrás em O Despertar do Demônio, em que é mencionado que Hellboy já havia enfrentado e arrancado um dos olhos de Baba Yaga, famosa bruxa do folclore eslavo. Mignola pegou essa pincelada – literalmente uma linha de diálogo – breve sobre o embate e desenvolveu-o na forma de um one-shot escrito especialmente para o compilado O Caixão Acorrentando, lidando com esse momento na carreira do ex-agente do B.P.D.P. Agora, Baba Yaga volta e ganha atenção irrestrita, já que toda a trama gira em torno de sua vingança contra Hellboy, algo também temperado por seu conhecimento de que, se mantido vivo, o Garoto do Inferno um dia trará o fim do mundo, algo que ela, assim como a monstruosa bruxa-sereia de Paragens Exóticas, queria evitar.

Mas, mais interessante do que o grande conflito em si, que é indireto apenas, é o que está ao redor dele. Hellboy continua sua peregrinação de anos pelo mundo desde que largou o bureau ao final de O Verme Vencedor e, aqui, aprendemos que o lapso temporal de dois anos mencionado em Paragens Exóticas já está em seis anos, o que cronologicamente explica a lerdeza do próprio Mignola em voltar à sua criação. Nesse meio tempo, pouco fica explicado sobre os detalhes do que ele fez, viu e enfrentou, mas o ponto é que a realidade e a ficção, ou, mais precisamente, as diferenças entre o mundo real e o mundo sobrenatural já não existem muito claramente para Hellboy. Sim, ele sempre falou com assombrações, sempre viu o que olhos normais não eram capazes de enxergar, mas Mignola mergulha mais profundamente nisso, flertando com a ideia de enlouquecimento de seu personagem, já que ele passa a viver na casa de pessoas que conheceu, mas que, hoje, estão mortas e são fantasmas. Novamente, não é uma novidade no universo criado por Mignola, mas essa abordagem nunca foi tão assertiva como aqui e esse elemento torna Hellboy ainda mais fascinante, como uma alma torturada, um efetivo fantasma que puxa correntes e que se lamenta pelos recônditos mais sombrios da Terra.

A deslumbrante arte de Duncan Fegredo.

Essa “quebra” da parede que separa nosso mundo do mundo das lendas e dos mitos (uma outra dimensão?) é o que leva Hellboy ao conflito com Baba Yaga que usa um plano intrincado para atrai-lo até o outro lado e Koshchei, o Imortal, um vilão também do folclore eslavo, como seu avatar bélico. E o problema da minissérie é justamente Koshchei e sua interminável luta com Hellboy. É bem verdade que ele serve para estabelecer a ideia de que o próprio Hellboy é imortal (afinal, se lembrarmos bem, ele morreu empalado no volume 6), mas isso não justifica empregar praticamente metade das seis edições para o que acaba virando uma rinha de galos que não podem morrer usando como arena terras devastadas do lado fantasma do mundo. A ideia até lá é boa, já que uma história de vingança tem sempre um sabor especial, mas, depois do segundo combate, a coisa desanda e cansa o leitor.

Na verdade, estou sendo injusto. A arte de Fegredo é fenomenal e ela impede que olhos sejam revirados para cada vez que Koshchei se levanta do que obviamente foi sua morte, para novamente engalfinhar-se com Hellboy. O artista, apesar de seguir o espírito gótico que Mignola imprimiu em sua criação desde sua gênese, tem um estilo próprio e sensacionalmente detalhista, tornando a exploração das páginas algo delicioso de se fazer. Sua capacidade de preencher espacialmente as páginas e os quadros é de se tirar o chapéu e a cada nova pancadaria, ele é capaz de subir o sarrafo qualitativo e explosivo sem deixar a peteca cair, resultando em momentos épicos para Hellboy. E, de quebra, há espaço para Dave Stewart, o colorista tradicional da série, brinca com cores quentes na medida em que Baba Yaga transfere mais e mais poderes para seu vassalo. Se a repetição de Mignola tem uma vantagem é dar espaço amplo para Fegredo e Stewart brincarem como se não houvesse amanhã.

O Clamor das Trevas, portanto, é um interlúdio/prelúdio de respeito, apesar de seus problemas narrativos oriundos da repetição. Diria até, sem muito medo de errar, que a parceria de Mignola com Fegredo é a mais perfeita para o hellboyverso e esse arco é prova disso. E não é nem a prova mais contundente. Mas isso fica para a próxima crítica!

Hellboy – Vol. 8: O Clamor das Trevas (Hellboy – Vol. 8: Darkness Calls, EUA – 2008)
Contendo: Hellboy: Darkness Calls #1 a 6
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Duncan Fegredo
Cores: Dave Stewart
Letras: Clem Robbins
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: abril a novembro de 2007, maio de 2008 (encadernado)
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: agosto de 2008
Páginas: 194 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.