Crítica | Hellboy – Vol. 9: Caçada Selvagem

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Depois de oito volumes vagarosamente revelando detalhes sobre quem exatamente Hellboy é, Mike Mignola aposta todas as suas fichas em Caçada Selvagem, minissérie em oito edições dedicada a descortinar de vez os mistérios sobre seu maior personagem. E o autor não se faz de rogado, usando como base mitológica para seu talvez mais ambicioso trabalho até esse ponto nada menos do que as lendas arturianas, costurando-as de maneira inteligente à estrutura narrativa do Garoto do Inferno, em um resultado que só peca mesmo no final.

Mas deixemos o final para seu devido lugar e comecemos pelo início, mais precisamente com o cliffhanger de O Clamor das Trevas que revela com muita clareza que o amargo Gruagach estava se preparando para vingar-se de Hellboy, já que ele acha que seu estado atual, vivendo dentro de um corpo porcino diminuto, é culpa do Vermelhão, como visto lá atrás no conto O Cadáver, do compilado O Caixão Acorrentado. Seu plano é ressuscitar a mais terrível das bruxas, tão terrível que seus próprios pares a mataram em tempos imemoriais, desmembrando-a e guardando os pedaços dentro de um baú. Caçada Selvagem mantém sua identidade razoavelmente escondida no início, mas sem demora já a coloca em forma novamente, efetivamente iniciando um plano de vingança combinado com um de dominação mundial.

Hellboy, por sua vez, continua daquele seu jeito melancólico, sem conseguir mais separar de verdade o mundo fantástico do mundo real (se é que há essa separação dentro de seu universo) e visitando, décadas depois, Alice, a menina que salvou ainda bebê justamente de Gruagach, que ele vira já crescida, mas bem menos velha do que deveria ser, no enterro mágico do Rei Dagda. Essa conexão dele com Alice o leva inevitavelmente a um caminho de auto-descoberta – ou, mais precisamente, um caminho manipulado de forma que ele descubra detalhes sobre seu passado – que o coloca tendo que enfrentar demônios que protegem o castelo onde ninguém menos do que Morgana Le Fay está aprisionada.

(1) Hellboy e o Rei Arthur e (2) o sofrido Gruagach lamentando-se para a Rainha das Bruxas.

A partir desse ponto, Mignola realmente mergulha nas lendas arturianas, colocando Hellboy no centro da mitologia, mas sem se esquecer de Gruagach, que ganha também uma interessante e trágica história de origem anterior à sua transformação em mini-javali. No entanto, o leitor deve ter paciência, pois as histórias mantêm-se apenas paralelas, jamais realmente entrelaçando-se. De um lado, Gruagach e a Rainha das Bruxas e, do outro, Hellboy, Alice e Morgana Le Fay, com sequências de ação mais esparsas do que o normal já que o objetivo é colocar todo mundo na mesma página em termos de histórias de origem e preparar o terreno para o que está por vir.

E é esse o problema de Caçada Selvagem. Mignola não oferece sequer um semblante de resolução. Diferente de todos os volumes anteriores de Hellboy, que podem ser lidos como histórias fechadas, a minissérie aqui presente é, no frigir dos ovos, um enorme e muito bem feito prelúdio para o que viria. Sim, a história de origem de Hellboy é interessantíssima e a arte de Duncan Fegredo, que volta a fazer parceria com Mignola depois de O Clamor das Trevas, chega a seu ápice aqui, mas a natureza de história completa inexiste e isso desaponta um pouco, especialmente considerando que sua efetiva continuação – para quem acompanhava Hellboy na época – ainda demoraria significativamente.

No entanto, se o leitor já começar esperando por isso, tenho certeza que a sensação de fim abrupto ou de falta de fim será mitigada, talvez até deixando de existir. Claro que permanece a quebra de padrão do que Mignola vinha oferecendo desde Sementes da Destruição, mas isso não é lá um grande problema. O que realmente interessa é que o roteirista concebe uma história a altura de sua ambição, trabalha muito bem a inserção de Hellboy nas sempre fascinantes lendas arturianas e estabelece uma premissa ambiciosa para o futuro do personagem.

No final das contas, o preço para termos Caçada Selvagem é razoavelmente pequeno. Claro que potencialmente estaríamos diante de uma narrativa perfeita se Mignola oferecesse algum tipo de fechamento. Mas não se pode ter tudo, não é mesmo?

Hellboy – Vol. 9: Caçada Selvagem (Hellboy – Vol. 9: The Wild Hunt, EUA – 2008/9)
Contendo: Hellboy: The Wild Hunt #1 a 8
Roteiro: Mike Mignola
Arte: Duncan Fegredo
Cores: Dave Stewart
Letras: Clem Robbins
Editoria: Scott Allie
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: dezembro de 2008 a novembro de 2009; março de 2010 (encadernado)
Editora no Brasil: Mythos Editora
Data de publicação no Brasil: janeiro de 2012
Páginas: 194 (encadernado brochura americano)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.