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Crítica | Hellraiser, de Clive Barker

por Leonardo Campos
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Uma história fascinante e, concomitantemente, aterrorizante. Assim é Hellraiser, novela publicada por Clive Barker em 1986, ponto de partida para a franquia cinematográfica com Pinhead e os cenobitas, criaturas de uma dimensão diferente da nossa, figuras mergulhadas numa atmosfera de prazer e dor inimagináveis. Formado em Literatura e Filosofia, o escritor em questão, atuante também em outras frentes artísticas, tais como escultura, pintura e responsável por assinar a adaptação de seu próprio texto para o filme homônimo de 1987, trouxe os temas esboçados na coletânea Livros de Sangue para essa que é considerada a sua obra-prima, tão fluente, dinâmica, envolvente e enigmática quanto o conto Candyman, também traduzido para o universo cinematográfico e transformado em franquia. Dividido em 11 capítulos e lançado aqui no Brasil pelo selo editorial sempre assertivo da Darkside Books, a edição analisada é formidável por diversos motivos, dentre eles, a tradução competente de Alexandre Callari, a formatação que colabora com a leitura, além das ilustrações remissivas ao imaginário em torno dos cenobitas.

Com um texto enxuto e caracterizado por descrições visuais importantes para adentrarmos no clima proposto pela história, Hellraiser é uma saga apavorante distribuída nas 160 páginas da edição em questão, também empolgante por seu acabamento, numa capa que faz referências ao cubo aprisionador dos cenobitas, material que aproxima o leitor do universo já estabelecido desde os anos 1980 na cultura cinematográfica e seus correlatos. Assinada pela Retina 78, a capa da novela é um chamariz para o que os nossos olhos contemplarão internamente no espetacular projeto editorial, suporte para o desenvolvimento de uma trama igualmente impactante sobre Frank, um hedonista que procura prazeres além de tudo que já foi experimentado em sua vida considerada errante, egoísta e cheia de momentos de esperteza. Numa viagem, ele se depara com a caixa de Lemarchand, objeto que esconde mistérios nunca antes imaginados.

Certo dia, ele consegue manipular o cubo e liberta forças maléficas ancestrais, criaturas abomináveis que ofertam os tais prazeres com um preço, digamos, infernal. Assim, nesta busca incessante por algo a mais, acaba aprisionado noutra dimensão, enquanto fazia um ritual na antiga casa herdade de seus pais. Em contato com a Ordem de Gash, retratados como cenobitas neste imaginário, ele se torna um encarcerado até o dia que seu irmão Rory, numa situação acidental ao se mudar para essa mesma casa com a esposa Julia, sofre um corte e deixa um rastro de sangue no quarto úmido e estranho onde Frank havia realizado o seu ritual. É a ponte para manter o ambicioso personagem dividido entre a dimensão de horror e o mundo considerado real. Como no passado, ele manteve um caso com Julia, a insatisfeita cunhada, ele a atrai, pede por sacrifícios humanos, tendo em vista recuperar a sua antiga forma. Kirsty, no entanto, no papel de obstáculo para os tais conflitos, adentra na história e também acaba envolvida nesta batalha de humanos contra as terríveis forças sobrenaturais conhecidas por glorificar a dor e o prazer nas mesmas proporções, tornando a saga de todos os envolvidos um pesadelo sangrento.

Publicada inicialmente na série antológica Night Visions, a novela ganhou outras edições posteriormente e nos chega na contemporaneidade com todo frescor, haja vista a condição na qual nos encontramos inseridos, isto é, um mundo de pessoas em buscas incessantes por experiências extremas, guiadas pelos desejos que quase nunca encontram saciedade. Essa é uma das temáticas principais de Hellraiser, alegorizada nos lamentos propostos pelos cenobitas aos personagens acossados por suas ânsias mais intensas. A narrativa é uma história de horror exemplar, escrita com esmero e muito detalhista em suas passagens, sem deixar o leitor no marasmo em momento algum de cada um dos 11 capítulos. Escrita por um autor já interessado em levar o material para o cinema posteriormente, a trajetória de Frank, Julia, Kristy e Rory estabeleceu o que antigamente chamávamos de ficção especulativa, isto é, a apresentação de mundos diferentes do que concebemos como real, seara de produção literária que habita os meandros da ficção científica, campo conhecido por alegorias representativas para os humanos.

Hellraiser (The Hellbound Heart/Inglaterra, 1986)
Autor: Clive Barker
Tradução: Alexandre Callari
Editora no Brasil: Darkside Books (2015)
Páginas: 160

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