Crítica | Helvética

A tipografia é uma seara produtiva que abarca reflexões no campo da Arquitetura, da Literatura, da Publicidade e do Jornalismo, além do Design Gráfico. Em 2007, por meio de recursos próprios e algumas parcerias que lembram o estilo de produção independente, Gary Hustwit lançou Helvética, tendo em vista levantar um debate sobre a aclamada fonte que na época, completava cinquenta anos de existência no campo da visualidade. Indo muito além da história desta fonte, o documentário discute com didatismo e estilo a nossa relação com o design gráfico e a forma como esta área nos afeta cotidianamente.

Prova disso é um depoimento pontual de Rick Poynor, renomado autor na área, conhecido por publicações obrigatórias para quem deseja imersão no assunto. Em sua fala ele diz que “a tipografia diz coisas o tempo todo para a gente, expressam sentimentos, uma atmosfera, dão um certo colorido às palavras”. Tal afirmação é o ponto nevrálgico do documentário que ao longo de seus 82 minutos, reflete sobre a proliferação das produções em helvética, fonte que ressoa características das vanguardas modernistas e suas enfáticas composições geométricas, parte integrante de um campo de produção do design repleto de nuances e detalhes.

Criada por Max Hiedinger e Edward Hoffman em 1957, é uma fonte que se tornou exemplo do que poderíamos chamar de “tipografia universal”. As helvéticas estão associadas ao movimento modernista na área em questão. Conforme dados históricos, a fonte surgiu como reação mercadológica ao tipo Akzidenz Grotesk, aclamada na época de lançamento da Helvetica, inicialmente conhecida por De Neue Haas Grotesk, nome fornecido por uma filial alemã nos anos 1960, o que forneceu a nomenclatura que a tornou popular. Ao fugir do estilo humanista comum ao século XIX, com fontes que se aproximavam da caligrafia, o grupo helvética é menos orgânico e sem formas delimitadas.

Dominante no cenário gráfico do pós-guerra, a helvética se espalhou como um rizoma por letreiros, sinais de avisos, placas, artes de empresas renomadas. O que o documentário, propõe, no entanto, é observarmos como a tipografia impacta em nossa percepção das coisas ao passo que atravessamos nossa jornada no cotidiano, permitindo que leigos e especialistas se envolvam com a discussão proposta, conduzida musicalmente pela trilha de Kristin Dunn, coesa e leve, elemento que adorna os enquadramentos das entrevistas e captações de cenas urbanas da direção de fotografia de Luke Geissbuhler, setor eficiente em seu processo de catalogação de imagens selecionadas para reforçar ambos os pontos de vista do documentário, contrários e favoráveis ao uso de helvética na cena gráfica ao longo do meio século de existência da fonte.

Ao flertar com as reflexões do documentário, podemos nos aproximar de algumas considerações sobre o seu tipo no livro Produção Gráfica, de Lorenzo Baer, autor que aponta as helvéticas como o grupo de fontes classificadas na seara das etruscas, isto é, conjunto de “letras” com hastes de espessuras uniformes e desprovidas de serifas atenuadas, tendo como base as proporções do alfabeto romano. Pensadas no bojo das fontes modernas, possuem eixo vertical traz forte contraste entre trações grossos e finos. Amada por uns e odiada por outros, a fonte é marca presente em poderosas corporações, tais como 3M, American Airlines, Toyota, Tupperware, Jeep, BBC News, Boeing, Panasonic, etc.

De um lado há os que defendem a padronização diante da fonte, tipo que fornece neutralidade, força e simplicidade, sem distrações para mensagens que pretendem se fazer efetivas. Outros, por sua vez, reclamam do processo de globalização que tornou a helvética uma camisa de força, fonte que enfrenta um processo de saturação, bem como carregada por uma simplicidade e clareza hediondas, o que não permite ao designer gráfico agir com mais expressividade. Ao dosar bem os depoimentos e permitir um equilíbrio entre as opiniões, a edição de Shelby Siegel demonstra respeito com os pontos de vista dos entrevistados, não tomando partido em momento algum, sem ser exclusivamente condenatório ou exaltador da fonte tipográfica em questão.

Helvética (Helvetica, Estados Unidos – 2007)
Direção: Gary Hustwit
Roteiro: Gary Hustwit
Elenco: Gary Hustwit, Rick Poynor, Alfred Hoffmann, Otmar Hoefer, Massimo Vignelli, Wim Crouwel, Matthew Carter, Bruno Steier
Duração: 89 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.