Crítica | Hemingway & Martha

O que esperar de um cineasta que deseja encontrar Deus cada vez que realiza um filme? Creio que um épico de proporções gigantescas. Esse era o desejo de Philip Kaufman ao assumir o projeto de Hemingway & Martha, cinebiografia do casal, narrada sob o ponto de vista feminino da correspondente de guerra que teve uma trajetória de vida tão extraordinária quanto aos devaneios literários do autor de O Velho e o Mar. Cineasta experiente na arte de mesclar imagens de arquivo com relatos ficcionais encenados em locações cenográficas, Kaufman também se tornou referência na abordagem dos relacionamentos amorosos em tempos de acontecimentos sociais extremos (A Insustentável Leveza do Ser) e dos embates entre mentes literárias dotadas de talento (Henry e June – Delírios Eróticos).

Tendo como direcionamento o roteiro escrito por Barbara Turner e Jerry Stahl, Hemingway e Martha resgata a história do casal, repleta de momentos de amor e tensão. Eles se conhecem em um bar. Ela adentra o recinto com sua elegância e o escritor domina o espaço com sua irreverência. O desejo tomar logo o ar. Sabemos que ambos cederão aos seus anseios. Surge então uma viagem para a Espanha. Gellhorn vai como correspondente e Hemingway como parte da equipe de uma produção de filmes favoráveis aos republicanos. Em meio aos conflitos contemplados, isto é, famílias dizimadas, pessoas feridas e homens agindo graças ao poder que detém, o casal se apaixona e vive um tórrido romance.

Ao retornar para os Estados Unidos, Hemingway despede-se de maneira fria e calculista da sua esposa e segue a sua aventura com Martha. Vivem intensamente as festas, reuniões e aventuras. Ele sempre tentando se colocar como centro intelectual e Gellhorn na demonstração similar de astúcia e inteligência. O casamento logo se estabelece e a relação dura algum tempo, derrubada pelas incansáveis posturas hostis e machistas de Hemingway. Isso seria um festival para narrativas clichês, mas apesar do clima de minissérie que favorece tal abordagem, a produção ganha um tratamento mais complexo, principalmente por conta da forma como a protagonista narra a sua história.

Ao longo de seus 155 minutos, acompanhamos o começo, o meio e o desfecho de uma relação memorável para ambos, tanto no quesito paixão inicial quanto no final repleto de mágoas e posturas inadequadas. O Hemingway construído por Clive Owen é antipático, tóxico, grosseiro e forçadamente irreverente. Dizem que o escritor era um homem muito firme e cheio de convicções, dono de uma postura arrogante. Se o filme representa isso de maneira fidedigna, deve ter sido complicado a convivência com o escritor de Por Quem os Sinos Dobram e O Velho e o Mar.

A Martha construída por Nicole Kidman é ousada. Dona de si, dedica-se aos padrões por alguns momentos, haja vista o interesse amoroso pelo escritor que encontra na relação não apenas uma companheira, mas alguém que se torna seu rival. A postura firme de Gellhorn incomodava Hemingway. A forma como ela se porta, interpretada com alguém do talento de Kidman torna a personagem ainda mais forte. O atrito maior surge quando ambos digladiam para corresponder na ocasião do dia D, a maior invasão por mar da história, um dos marcos da Segunda Grande Guerra Mundial. Dali em diante a relação adentra em sua curva dramática.

Para contar essa longa história, a equipe que acompanha Kaufman acerta no que tange aos elementos estéticos que compõe o telefilme, produção que conforme apontado anteriormente, traz características do formato minissérie. O trabalho visual e sonoro consegue reconstruir os anos 1940 com precisão, haja vista a direção de fotografia assinada por Rogier Stoffers, eficiente na contemplação dos cenários e figurinos de Geoffrey Kirkland e Ruth Myers, respectivamente, setores que receberam como acompanhamento, a condução musical de Javier Navarete,

No desfecho, observamos uma Martha melancólica, mas ciente de sua existência significativa. Talvez por conta da opção pelo jornalismo, Martha Gellhorn não tenha a mesma presença no panteão dos ilustres reconhecidos por suas contribuições no campo da escrita. Isso não impede, entretanto, de reconhecermos a importância do trabalho realizado no campo dos registros históricos realizados pela correspondente que próximo aos seus 89 anos de idade, optou pelo suicídio diante de uma doença que a deixou praticamente cega. Lançado em 2012, Hemingway e Martha é um filme que funciona bem para televisão, principalmente por ser produção da HBO, canal cuidadoso em suas realizações audiovisuais. Outros escritores e outras histórias de amor deveriam ser contempladas também. Fica a dica aos produtores.

Hemingway & Martha (Hemingway & Gellhorn – Estados Unidos, 2012)
Direção: Philip Kaufman
Roteiro: Barbara Turner, Jerry Stahl
Elenco: Nicole Kidman, David Strathairn, Tony Shalhoub, Molly Parker, Parker Posey, Peter Coyote, Lars Ulrich, Remy Auberjonois, Alfred Rubin Thompson
Duração: 155 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.