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Crítica | Hércules + A Defesa sem Precedentes do Forte Deutschkreuz

por Michel Gutwilen
109 views (a partir de agosto de 2020)

No presente compilado, temos pequenas críticas para dois curtas-metragens do início da carreira do diretor Werner Herzog. Você já assistiu a esses curtas? Não deixe de ler as análises e também comentar a sua opinião no final do texto!
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Hércules

Herakles

No primeiro curta de Werner Herzog, Hércules, já parece ser possível identificar alguns traços de suas principais características que ele viria a desenvolver enquanto documentarista. O cineasta alemão olha seu objeto de estudo a partir de uma ambiguidade, havendo tanto uma certa fascinação genuína diante daquilo que ele observa (muitas vezes uma excentricidade), ao mesmo tempo que também nunca deixa de empregar um olhar crítico e irônico (alguns poderiam dizer até malicioso), como é o caso de O Homem Urso (a questão está aprofundada na crítica sobre ele). Em Hércules, a dialética se dá a partir da montagem, que ressignifica o significado das imagens sozinhas. Primeiro, o que se vê é uma sequência de homens fisiculturistas em sua rotina de treino. Aqui, a decupagem de Herzog obviamente privilegia planos que ressaltem a beleza e harmonia corporal desses corpos musculosos, como uma espécie de “filme-culto” a eles. Alternando entre diferentes atletas, ao fim da exibição de cada um deles, a imagem congela e surge uma legenda perguntando se ele seria capaz de realizar um dos doze trabalhos de Hércules. Em um primeiro momento, o diretor nos leva a crer que sua resposta é sim.

Posteriormente, a montagem passa a contrastar tais imagens com cenas de acidentes automobilísticos e caças de guerra soltando bombas. Obviamente, elas não fazem parte do universo daqueles homens malhando, mas funcionam como um verdadeiro exercício de montagem intelectual eisensteiniano, com sua existência servindo para dialogar metaforicamente com o que foi visto anteriormente. Além de serem outros óbvios signos de masculinidade com o fisiculturismo, elas estão ali para ironizar sua importância. Afinal, a conclusão que chego é o seguinte questionamento: de que vale todo o árduo trabalho para atingir o dito corpo perfeito, se no fim das contas é como se, diferente de Hércules, os verdadeiros desafios do homem não envolvessem mais o seu corpo, mas sim aparatos tecnológicos? O homem entra em um carro ou num avião e se direciona para a sua morte, com seu corpo estando dentro daqueles veículos. Ora, assim, nesse contexto, malhar significaria apenas um culto vazio de vaidade ao corpo e também um enorme desperdício de tempo. Deste modo, a pergunta feita anteriormente parece se ressignificar. Ao fim do documentário, Herzog não acredita mais que aqueles homens possam realizar os trabalhos hercúleos, pois jamais usaram aqueles corpos como meio para serem bons guerreiros, apenas um fim em si mesmo. Na boa ironia herzogiana, entende-se que o homem moderno malha apenas para não caber em seu caixão quando morrer por alguma futilidade.

Hércules (Herakles, 1962) — Alemanha
Direção: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Elenco: Reinhard Lichtenberg, Franco Columbu
Duração: 9 minutos

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A Defesa sem Precedentes do Forte Deutschkreuz

Die Beispiellose Verteidigung der Festung Deutschkreuz

Para aqueles que já estão familiarizados com a magnum opus de Claire Denis, Beau Travail (1999), o longa da diretora pode ser um bom ponto referencial para pensar em A Defesa Sem Precedentes do Forte Deutschkreuz, curta que Werner Herzog fez 32 anos antes. Neste sentido, os paralelos se dão menos pelo olhar de Denis diante do corpo masculino, mas sim pelo fato de que os dois filmes possuem como ponto de partida a rotina militar vista em um contexto no qual não há guerra, mas ainda assim se continua praticando uma repetição de um comportamento defensivo de uma estrutura abandonada, sempre a espera de uma ameaça (inexistente) que possa surgir. A Guerra acabou, mas e agora? O que os homens sabem fazer além dos treinamentos que condicionam eles a enxergar sempre um inimigo e viver uma vida em alerta? O que fazer com as arquiteturas construídas com fins militares, como é o caso do forte que leva o título do curta, e que se tornaram obsoletas? O que fazer com o desemprego do pós-guerra? Assim, o filme se desenvolve como uma sátira: quatro homens jovens, aparentemente de vagabundagem, invadem o Forte Deutschkreuz, vestem roupas militares que lá foram deixadas e passam a brincar de soldadinhos, replicando uma rotina militar de defesa do forte. 

A sátira aqui tira a força de seu humor principalmente porque a repetição desproposital da rotina militar, em um contexto onde não há inimigo, apenas a gestualidade mecânica como um fim em si mesma, ajuda a botar luz, a partir de uma situação hiperbólica, no quão ridículo pode ser toda essa rotina, o que é reforçado pela narração irônica de Herzog. A questão chave aqui é que Herzog, na verdade, está falando menos sobre o pós-guerra e uma fantasmagoria do passado que se manifesta nos espaços vazios do presente e mais sobre os próprios tempos de guerra em si. Além disso, em consonância com o curta anterior do diretor, Hércules, volta-se a repetir uma postura anti-militarista, assim como um olhar irônico para uma rotina aparentemente fútil do homem, como se Herzog estivesse sempre querendo afirmar uma tese de que a guerra parece ser um destino fatalista do homem. Não importa o que ele faça, seja um fisiculturista ou um vagabundo andando pelo campo, o homem parece ter um instinto em abandonar a civilidade para se botar em uma situação de perigo e guerra, como se esse fosse seu estado natural — o que virá a ser  melhor explorado depois em seu primeiro longa-metragem, Sinais de Guerra

A Defesa sem Precedentes do Forte Deutschkreuz (Die beispiellose Verteidigung der Festung Deutschkreuz, 1967) — Alemanha
Direção: Werner Herzog
Roteiro: Werner Herzog
Elenco: Peter H. Bumm, Georg Eska, Karl-Heinz Steffe,l Wolfgang von Ungern-Sternberg
Duração: 15 minutos

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