Crítica | Herdeiras de Duna, de Frank Herbert

  • Leia, aqui, as críticas dos livros anteriores. Há spoilers somente das obras anteriores.

De todos os livros da saga Duna escritos por Frank Herbert, Herdeiras de Duna é o mais difícil de analisar. E não porque ele seja particularmente diferente ou complexo como, por exemplo, Imperador Deus de Duna, mas sim, simplesmente, por ele infelizmente ter sido o último que o autor escreveria em razão de seu falecimento em 1986 e por ser, por azar, o que mais deixa aberto o seu final.

É bem verdade que seu filho Brian, em parceria com Kevin J. Anderson, terminaria a saga com Hunters of Dune e Sandworms of Dune, em tese baseados em anotações deixadas por Frank, mas nunca saberemos de verdade como tudo acabaria. Seja como for, Herdeiras de Duna continua diretamente a história de Hereges de Duna, com apenas um modesto salto temporal de poucos anos, talvez o menor entre livros, mas o suficiente para deixar todo o universo próximo ao colapso, com o avanço inclemente das forças das Honradas Madres, o que deixa as Bene Gesserit, sob a liderança da Madre Superiora Darwi Odrade, acuadas e na defensiva quase desesperada.

Nesse cenário pós-destruição de Rakis (ex-Arrakis ou, mais famosamente, Duna), a irmandade vem perdendo planetas e seu próprio planeta sede, de localização escondida à sete chaves, é o último refúgio para Reverendas Madres e para um projeto de recriação dos vermes de areia e, portanto, da especiaria natural, considerando que a artificial em breve acabará em razão da destruição de Tleilax e a perda da tecnologia de seus tanques de reprodução e clonagem. O projeto, liderado por uma Sheeana agora adulta e já Reverenda, apresenta alguns resultados, mas ainda discretos e pouco representativos.

Além disso, ao longo dos anos desde o livro anterior, o ghola de Duncan Idaho, agora adulto, vive com a ex-Honrada Madre Murbella na não-nave que impede sua detecção e que, na prática, tornou-se sua prisão que divide também com mestre Scytale, o último tleilaxu que, para sobreviver protegido pelas Bene Gesserit, entregou os segredos dos tanques de clonagem, permitindo que elas recriassem Miles Teg, o gênio militar filho de Odrade que falecera na destruição de Rakis salvando sua mãe, Sheeana e um verme de areia. É um círculo complexo de relações que Frank Herbert sabe explorar de forma inteligente, mas incompleta, oferecendo sub-tramas interessantes que revelam dissenso entre as mais importantes irmãs Bene Gesserit sobre como lidar com as questões mais urgentes.

A grande vantagem de uma passagem temporal mais modesta é que o leitor já está razoavelmente acostumado com os principais personagens, ainda que visualizar Miles Teg como um pré-adolescente não seja uma tarefa fácil considerando o quadro que o autor pintou para ele no romance anterior, como um veterano altamente treinado que, ainda por cima, consegue desenvolver poderes especiais graças à sua linhagem Atreides. Por outro lado, Herdeiras de Duna é uma narrativa que sem dúvida carece de ação, não chegando ao nível de contemplação do quarto capítulo, logicamente, mas, mesmo assim, preocupando-se muito mais com a rearrumação do tabuleiro do que com um avanço vertiginoso da história.

Quando disse que Herbert não explora de maneira completa os núcleos, quis apontar para sua relutância em efetivamente desenvolver essa nova versão de Teg, apressando seu amadurecimento, assim como deixando Idaho atrás de uma espécie de neblina que embaça suas verdadeiras intenções e pensamentos. Mesmo que, no segundo caso, essa escolha resulte em uma reviravolta que é um dos elementos que ficam em aberto no livro, creio que ela seja um pagamento tímido de dividendos para um personagem tão fascinante e essa estratégia acaba, também, levando junto Sheeana que, aqui, não tem quase espaço para realmente desabrochar como uma personagem completa.

Por outro lado, Odrade e seu plano de queima lenta para bater de frente com as Honradas Matres funcionam bem, ainda que, no melhor estilo Frank Herbert de ser, o clímax de ação é rápido e sem muitos detalhes, algo que, porém, não deverá surpreender os leitores da saga justamente por ser um padrão do autor. A “batalha final” lembra muito a da obra anterior, sendo resolvida sem enrolação e sem que tome muito espaço da obra, de certa forma desequilibrando-a.

Interessantemente, Herbert introduz judeus nesse universo, um grupo que permanece na mais completa clandestinidade, cultivando sua religião milenar quase sem modificações, mas cuja existência é conhecida pelas Bene Gesserit. Uma Reverenda Madre “selvagem” judia – Rebecca – é apresentada e tem papel de grande importância para o desenvolvimento da história ainda que ela própria não ganhe corpo o suficiente para ser considerada uma personagem completa, com um arco narrativo próprio, mais ou menos na linha do que acontece com Sheeana. Seja como for, essa é a única vez que o autor resgata uma religião da Terra no presente e transplanta-a para seu universo em futuro mais do que longínquo sem alterá-la substancialmente, o que pode indicar caminhos que ele gostaria de tomar na conclusão da saga.

Herdeiras de Duna é o único livro da série escrita por Herbert que parece acabar no meio, realmente clamando por uma continuação que, ironicamente, nunca veio por sua própria caneta. Mesmo que consigamos esquecer isso, ainda assim a obra tem problemas, como a introdução de uma dupla de personagens nos estertores do volume que, claro, permanecem um mistério completo e que considero como uma rasteira narrativa feia, completamente desnecessária e fora de lugar, como se Herbert tivesse tido essa ideia a posteriori, depois de entregar o primeiro manuscrito ao seu editor. Isso acrescenta ao sentimento de fim sem fim que deixa a obra mais incompleta do que qualquer outra que ele escreveu nesse universo.

Esse “encerramento” da saga do planeta Duna é errático e pouco fluido, ainda que tenha momentos realmente muito interessantes e capazes de expandir a mitologia. É uma pena que Frank Herbert tenha escolhido, pela primeira vez, fazer algo pouco estanque, com artifícios narrativos que nos levam a um cliffhanger que, infelizmente, permanece sem solução adequada.

Herdeiras de Duna (Chapterhouse: Dune, EUA – 1985)
Autor: Frank Herbert
Editora original: Putnam Publishing
Datas de publicação: 1985
Editora no Brasil: Editora Nova Fronteira
Data de publicação no Brasil: 1991
Tradução: Marta Rodolfo Schmidt
Páginas: 441

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.