Crítica | Heróis em Crise #5: Sangue no Caminho

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  • Há SPOILERS! Confira as críticas para as outras edições da série aqui.

Certo, essa edição foi mediana, o que significa que foi muitíssimo melhor do que a edição passada, $%@# This. O problema é que, devido a falta de qualidade daquela revista, ser “melhor do que ela” não significa muita coisa. Mas aqui estamos. E pelo menos no que diz respeito ao andamento do mistério, da investigação para os assassinatos cometidos no Santuário, nós agora temos — #aleluia — uma clara linha em andamento. E vejam, quando eu digo “clara linha em andamento” eu não estou falando de dois ou três quadros que mostram o Flash segurando um tubo de ensaio, o Batman olhando num microscópio ou três linhas falando coisas como “estamos investigando” ou “essa investigação não vai dar em nada“. Aqui, parece que Tom King resolveu parar de enrolar (mas não muito) e voltar ao que a trama fora desde o início: uma história de investigação ligada ao Transtorno de Estresse Pós-traumático de alguns heróis e agregados não-heroicos.

O problema no meio disso tudo é que estamos na quinta edição (de nove) e pouca coisa real nos foi dada para mostrar esse desenvolvimento. Notem que eu não estou falando exclusivamente do horror que foi a revista de número 4, mas vejam que após o ótimo início da minissérie, os roteiros de King adotaram um caminho que não funciona bem nem em livros do gênero, que é o de trabalhar com migalhas ao longo de todo o caminho, se importando menos em desenvolver as coisas e mais com provocar o leitor com possibilidades. Essas coisas precisam ser feitas em paralelo, para que o leitor perceba a relevância dos indivíduos e da própria história, ao mesmo tempo que se engaja em juntar as peças do quebra-cabeça. É até possível entender o apelo que afetou o autor, já que para uma editora em quadrinhos do porte da DC, com tanta história e personagens pra brincar numa saga de muitas mortes, parece bem mais interessante jogar com possibilidades e fazer um desfile disso ao longo das revistas. Dois problemas, todavia, se mostram: o autor nem conseguiu desfilar com relevância tanta gente como deveria e nem conseguiu divertir o leitor com a brincadeira. O velho caso do produto que sai pior que a encomenda.

Mas vamos lá. Posta a minha amargura de lado, posso dizer que fiquei quase satisfeito com esse novo capítulo, por motivos que começam com uma velha parceria (ah, a Liga Cômica…) e terminam, como já apontei, com passos sólidos na investigação sobre os crimes, vindo de lados até inesperados até (problematizarei isso mais adiante, não se preocupem), a saber, Booster & Beetle + Harley & Batgirl. Daí, podemos tirar algum incômodo de concepção, que é o fato de essas duplas estarem fazendo um serviço que a Trindade não conseguiu fazer (!!!). Ou que um forense o naipe de Barry Allen não conseguiu fazer (!!!). Tudo bem, é algo interessante ver o protagonismo inesperado vindo de ideias estúpidas (definição do próprio Booster, não minha), o que até poderia ser interessante em situações menos impactantes como essa. Contudo, diante do massacre de heróis aqui em jogo, eu esperava uma investigação total e assertiva da Trindade, até porque, eles idealizaram o Santuário e o espaço caiu nas mãos de quem não deveria, logo, seria dramaticamente mais interessante se os medalhões fossem utilizados como carro-chefe na busca pela justiça. Não é o que temos aqui.

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A arte é fantástica. Mas convenhamos: foi só um artefato (elegante e melhor que a vergonha da edição passada) para ocupar páginas…

Pode-se argumentar: “mas improbabilidades assim também acontecem na vida! Não é nada irreal“. Sim e sim! Entretanto, levantar esse tipo de argumento numa revista onde Arlequina bateu na Trindade e conseguiu fugir dela não parece ter lá muito valor, não é mesmo? De todo modo, o paradoxo vem quando a gente conclui que é melhor esse tipo de enredo do que apenas migalhas desconexas à guisa de “longo plantio de pistas”. E o bom dessa edição é ver a dupla de amigos (o eterno bromance) trabalhando para provar a inocência de um deles. Também são interessantes, no decorrer da narrativa, a breve participação de Skeets e algumas piadinhas da Arlequina, que, até que fim, coloca no lugar certo a “relação” dela com o Palhaço, relatando o abuso ao confessor do Santuário. Será que isso terá algum impacto além da série ou é coisa de momento? Outras perguntas também vêm à mente: a rosa que Arlequina deixou no rio, em homenagem a Hera, é a mesma que a gente vê aqui? Esse Wally “cinco dias mais velho” já estabelece que todas as mortes aqui são fake ou estamos falando apenas do Wally mesmo? E se todas as mortes forem fake, vocês não acham que a série terá um verdadeiro problema para justificar a sua própria existência?

Pelo menos ainda podemos aproveitar, sem reservas, a bela arte de Clay Mann com as cores de Tomeu Morey, basicamente as únicas constantes de qualidade de Heróis em Crise. E para terminar, me digam se vocês acharam Batman e Superman meio descaracterizados aqui. O discurso do Azulão teve o apelo caloroso e luminoso que ele, como personagem, representa, mas me pareceu enlatado, meio trucando, meio… falso. Tem uma porção de verdades, tem uma virtual beleza (típica das coisas que o Superman fala quando está na vibe filosófica ou algo perto disso), mas me pareceu um discurso de político pedindo desculpas ao povo diante de uma tragédia. Sinceramente, não gostei muito. Já o Batman, me pareceu mais emburrado do que deveria, com praticamente nenhuma serventia para a edição, o que já diz muito sobre como vai o andamento das coisas aqui. Como disse antes, Blood in the Way é uma revista melhor que a anterior. Mas isso não quer dizer ‘material de qualidade’. Alguém ainda aposta numa virada de jogo e prevê um bom final para a saga?

Heroes in Crisis #5: Blood in the Way (EUA, 30 de janeiro de 2019)
Roteiro: Tom King
Arte: Clay Mann
Cores: Tomeu Morey
Letras: Clayton Cowles
Capa: Trevor Hairsine, Rain Beredo
Editoria: Jamie S. Rich, Brittany Holzherr
27 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.