Crítica | His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X06: The Daemon Cages

  • Há SPOILERS! Confira a crítica para os outros episódios da série aqui.

The Daemon Cages possui um apelo que conhecemos muito bem de outras produções. A mocinha da trama é colocada em uma situação de grande perigo e, em dado momento da história, cria condições para vencer (temporariamente) o inimigo e termina sendo ajudada por amigos que chegam mais ou menos de última hora para incrementar a batalha. Não como um Deus Ex Machina, mas como parte de uma ação que já vinha sendo desenvolvida, como de fato ocorre aqui, com a presença dos gípcios que estavam em busca das crianças desaparecidas.

Aqui temos resolvido o primeiro grande arco de Fronteiras do Universo, ao menos no que diz respeito à busca por essas crianças e as motivações para o sequestro de todas elas. Com Lyra no meio do grupo, ficou mais fácil para o roteiro explorar as justificativas e o modus operandi desse braço “científico” do Magisterium, que está em uma jornada dogmática para “salvar a vida das gerações futuras” cortando a relação entre crianças e seus daemons, algo que só é possível fazer quando o animal ainda não possui a sua forma definitiva. E no meio desse experimento, falas sobre o famoso “pó” aparecem de novo.

As condições em que encontramos as crianças aqui é simplesmente deplorável e traz à tona discussões sobre bioética, fazendo-nos lembrar inúmeros momentos históricos em que pessoas ligadas à ciência acharam que tudo era válido para que um experimento fosse conduzido até o final. Estamos falando de um experimento criminoso, desumano e com bases religiosas, onde as crianças são podadas de uma relação natural (indivíduo-daemon) para que os pecados vindos com a puberdade e os pensamentos mais complexos da vida adulta não acontecessem. Esse ponto do enredo me pegou bastante, porque é o tipo de abordagem repreensiva que toma exemplo de algo que acontece no mundo real, onde certos comportamentos ou desejos de crianças e adolescentes são “barrados” através de espancamento, doutrinação religiosa à la lavagem cerebral ou frases/acusações de ordem moral, tudo em nome de uma entidade que zela por todos e, claro, só quer o bem, só quer o amor.

A conversa entre Lyra e sua mãe aqui foi o meu momento favorito do episódio, porque escancara diversos e profundos problemas em um único cenário. A relação parental complexa entre as duas, a hipocrisia da adulta versos a indignação da criança e a emoção de toda a cena, com Dafne Keen tendo a sua melhor interpretação na série até o momento e Ruth Wilson simplesmente arrebentando são dignas de aplausos. A forma simples com que Euros Lyn dirige a sequência, com plano e contra-plano, além da força imediata que esse tipo de enredo tem elevam rapidamente o momento. Outro notável aqui foi, óbvio, a luta final, que contou com Serafina Pekkala para se livrar dos inimigos e isso talvez seja o início de uma crise diante do papel das bruxas na trama, pois a Sra. Coulter, aparentemente viu o que aconteceu.

O núcleo Will Parry se tornou deslocado aqui, pois do outro lado havia coisas muito importantes acontecendo e o roteiro não cria nada verdadeiramente interessante para valer esse segundo momento, embora prepare algo para o futuro. E o cliffhanger, apesar de fazer parte de uma cena de tensão (após uma de muita beleza e ternura), traz algo interessante para pensar: quem ou como Lyra será salva da queda? Se o encerramento da série seguir essa trilha mais direcionada ao público em geral, sem toneladas de enigmas, meias-palavras que só os iniciados entendem e relações intricadas demais para qualquer um que não leu os livros, teremos um final de temporada realmente fantástico.

His Dark Materials (Fronteiras do Universo) – 1X06: The Daemon Cages — Reino Unido, 8 de dezembro de 2019
Direção: Euros Lyn
Roteiro: Jack Thorne (baseado na obra de Philip Pullman)
Elenco: Dafne Keen, Morfydd Clark, Lewin Lloyd, Eva Jazani, Lia Williams, Kate Rutter, Mary Fernandez, Amit Shah, Martha Bright, Raffiella Chapman, Amir Wilson, Andrew Scott, Nina Sosanya, Jamie Wilkes, Robert Emms, Ruth Wilson, Lin-Manuel Miranda, Lucian Msamati, Anne-Marie Duff, Joe Tandberg, Ruta Gedmintas, James Cosmo, Kit Connor, Eloise Little, Cristela Alonzo
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.