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Crítica | História de Helena e a Guerra de Tróia, de Antônio Klévisson Viana

Com a irreverência do estilo poético nordestino, mitologia grega em versos de cordel.

por Leonardo Campos
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A cultura nordestina é riquíssima em formas de expressão, e o cordel é uma das mais representativas. Através de versos simples e profundos, a literatura de cordel captura a essência da vida e dos costumes do povo, traduzindo histórias universais para a realidade local. Dentre essas histórias, a mitologia grega se destaca, sobretudo, na figura de Helena e os eventos que culminaram na famosa Guerra de Tróia. Helena de Tróia, conhecida como a mulher mais bela do mundo, é o ponto central da narrativa que leva ao conflito bélico em questão. Sua beleza não apenas atrai o amor de muitos heróis, mas também se torna a razão de um dos maiores conflitos da mitologia. Klévisson, ao retratar essa personagem, não se limita a uma simples descrição física, numa poesia breve que aprofunda em suas nuances emocionais e morais.

Helena é apresentada como uma figura trágica, dividida entre seu amor e os desastres que isso provoca. Na linguagem do cordel, seu dilema é tecido com lirismo e tensão, dando vida a uma mulher que é simultaneamente ícone de beleza e símbolo de sofrimento. A Guerra de Tróia é um evento emblemático da mitologia grega, que se desdobra em um conflito épico entre os aqueus e os troianos, sendo Helena a centelha que acende essa fogueira. Viana retrata essa guerra não apenas como um embate militar, mas como uma tragédia humana em que os sentimentos estão à flor da pele, e as consequências das ações de um indivíduo repercutem na vida de muitos. A transformação da guerra em poesia de cordel revela um entendimento profundo dos ciclos de amor e ódio, que se repetem na história da humanidade. Através de versos marcantes, o poeta nordestino tece um mosaico de emoções que vai muito além dos campos de batalha.

Antônio Klévisson Viana utiliza uma linguagem rica e acessível, comum às tradições do cordel. Com rimas, métricas bem definidas e uma musicalidade própria, sua obra faz o leitor se sentir imerso na cultura popular. As comparações e metáforas que ele emprega são características do cordel e proporcionam uma identificação imediata do povo nordestino com a história. Assim, Helena, Menelau, Páris e os demais personagens ganharam vida, não apenas nas páginas do livro, mas também no imaginário popular. A capa do cordel, com suas ilustrações e cores vibrantes, é uma chamada direta à apreciação da narrativa, captando a atenção e a curiosidade do público. Didático, direto e objetivo, ideal para a atual geração Tik Tok.

Os temas presentes na História de Helena e a Guerra de Tróia vão muito além da mitologia; eles refletem questões universais, como amor, traição, honra e vingança. A adaptação de Viana oferece uma leitura que não é apenas voltada para a mitologia clássica, mas traz reflexões sobre o comportamento humano, algo que é particularmente relevante para o público nordestino. Com seu jeito simples e direto, o cordel traz a voz do povo, permitindo que cada leitor se veja representado nas histórias que, de alguma forma, ecoam a sua própria realidade.

A obra de Viana se insere em um contexto mais amplo da valorização da literatura de cordel como um meio de preservação da cultura oral e popular. Ao abordar Helena e a Guerra de Tróia, ele não apenas revive um mito grego, mas também reforça a importância da literatura na educação e no fortalecimento da identidade cultural nordestina. O cordel, com seu apelo emocional e acessibilidade, traz à tona discussões relevantes, evidenciando a riqueza literária dos autores nordestinos e a sua capacidade de fazer diálogo entre o antigo e o contemporâneo.

A História de Helena e a Guerra de Tróia, na interpretação de Antônio Klévisson Viana é uma tradução entre suportes semióticos que faz os mitos gregos ressoarem no coração do nordeste brasileiro. Através da poesia de cordel, as dramáticas histórias de amor, guerra, traição e destino encontram lugar nas tradições locais, criando um elo entre o passado e o presente. Viana, ao usar a linguagem do cordel, não só torna acessível tópicos da mitologia, como reitera a força e a relevância das narrativas ancestrais no cotidiano do povo. Assim, sua obra se torna um importante legado, promovendo a cultura, a literatura e, acima de tudo, a memória coletiva de um povo que se orgulha de suas raízes.

História de Helena e a Guerra de Tróia (Brasil, 2006)
Autor: Antônio Klévisson Viana
Editora: Tupynanquim Editora
Páginas: 16

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