Crítica | Histórias Maravilhosas – 1X19: Mirror, Mirror

Mirror, Mirror marcou a primeira incursão de Martin Scorsese na direção de episódios de séries de TV, algo até hoje muito raro em sua carreira, considerando que o 19º capítulo de Histórias Maravilhosas foi ao ar em 1986 e ele só voltaria ao mesmo tipo de trabalho de ficção em 2010, no primeiro episódio de Boardwalk Empire. E a simplicidade do que o diretor faz aqui é ao mesmo tempo divertido e desapontador, mas não necessariamente por culpa dele.

A diversão vem da escalação de Sam Waterson para o papel de Jordan Manmouth, um escritor egoísta de livros de terror que, de acordo com ele, nunca se assusta com nada, mas que passa a ver um fantasma em todos os reflexos. A diversão vem também pelo fato de o fantasma ser vivido pelo então quase que completamente desconhecido Tim Robbins debaixo de maquiagem pesada. O desapontamento vem de um roteiro de Joseph Minion que não faz sentido nenhum, mesmo com muita boa vontade e mesmo considerando que, logo no ano anterior, ele havia escrito o ótimo Depois de Horas. E olha que seu texto é baseado em uma história de ninguém menos do que o próprio Steven Spielberg, criador e produtor da série.

O resultado dessa equação é um Scorsese que se despiu da sofisticação e da assinatura própria que construíra até aquele momento para voltar às suas raízes de aprendiz de Roger Corman que acabaria produzindo o fraco Sexy e Marginal, seu segundo longa de ficção. Em outras palavras, que dirige o breve episódio é Corman por intermédio de Scorsese, por assim dizer, com o diretor que no mesmo ano lançaria A Cor do Dinheiro transformando orçamento quase inexistente em algo que até consegue ter seu valor nem que seja como curiosidade ou como uma lembrança nostálgica de uma série de vida curta, mas marcante.

Com quase que apenas um cenário para trabalhar – a casa muito branca e de linhas sinuosas do escritor -, Scorsese esmera-se em extrair do local muito claro todo o horror possível, mesmo que, para isso, tenha que recorrer a truques baratos como cortes rápidos, trilha repentinamente aumentada e jump scares. Se o fantasma no espelho até chega a assustar talvez nas duas primeiras vezes em que aparece, depois o espectador fica à caça da próxima superfície espelhada em que ele aparecerá, transformando o suposto horror em um jogo que mesmo assim mantém o entretenimento em relativa alta.

Muito desse entretenimento vem de Waterson em uma papel que nem de longe desafia o ótimo ator, mas que ele encara de peito aberto muito no espírito de filmes B, com todas as caras e bocas possíveis que Scorsese não tem pudor em explorar com close-ups. A presença de Helen Shaver como a ex-esposa do escritor traz um pouco de elegância à desordem, mas não equilibra o histrionismo proposital do protagonista.

Algumas soluções práticas da equipe de produção simplesmente não funcionam, especialmente o ridículo “salto ornamental” que encerra o episódio, ainda que a maquiagem emplastrada em Tim Robbins até que não é das piores considerando todo o restante. Mas falta finesse à produção, falta um charme que seja encontrado nos detalhes, algo que tão ricamente povoou a clássica Além da Imaginação que, curiosamente, ganhou um revival simultâneo ao lançamento de Histórias Maravilhosas. Parece mais algo que foi filmado ao longo de uma tarde sem repetir takes, o que novamente chama atenção para a competência de Scorsese em fazer uma limonada aguada com o limão quase estragado que recebeu.

Mirror, Mirror é tão simples que chega a ser bobo, ainda que haja coração nesse pseudo-horror de qualidade duvidosa. A presença de Sam Waterson traz simpatia para o episódio e Tim Robbins curiosidade pelo astro que ele um dia se tornaria. E Scorsese, bem… Scorsese pode dizer que ajudou o amigo Steven Spielberg quando ele precisava.

Histórias Maravilhosas – 1X19: Mirror, Mirror (Amazing Stories, EUA – 09 de março de 1986)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Joseph Minion (baseado em história de Steven Spielberg)
Elenco: Sam Waterson, Helen Shaver, Dick Cavett, Tim Robbins, Dana Gladstone, Valerie Grear, Michael C. Gwynne, Peter Iacangelo, Jonathan Luria, Harry Northup, Glenn Scarpelli, Jack Thibeau
Duração: 24 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.