Crítica | Hitchcock/Truffaut

Hitchcock/Truffaut é uma publicação obrigatória para todos os interessados em cinema. Um texto de dimensões bíblicas, haja vista seu caráter revisionista e teórico em relação ao conjunto da obra de Alfred Hitchcock. Movido por entrevistadas organizadas por François Truffaut no posto de crítico de cinema, o livro é editado ainda nos dias atuais e tornou-se referência bibliográfica basilar para compreensão de questões estéticas, além de sua importância na compreensão do cinema como uma espécie de culto. Antes de adentrar na análise do documentário de Kent Jones, produção de 79 minutos escrita em parceria com Serge Toubiana, crítico de cinema de prestígio, atual diretor da Cinemateca Francesa. Truffaut, aqui, torna-se coadjuvante. O ponto nevrálgico é Hitchcock.

O documentário nos reforça que o livro é bastante atual e necessário mesmo após meio século de seu lançamento. O avanço tecnológico frenético não impediu que as teorias da obra perdessem sua pertinência. O cinema ainda é uma arte que depende da relação do autor com a máquina, então, Hitchcock/Truffaut é útil e não parece ter estrutura para se esgotar por longo tempo. Amplo recorte de um meticuloso processo criativo, a obra trata da devoção de Truffaut em relação ao cineasta inglês radicado nos Estados Unidos, realizador observado com distanciamento pelos críticos da Nouvelle Vague, desconfiados de suas estratégias e ainda sem a devida noção de sua genialidade.

A lista de entrevistados é grande. Traz também nomes prestigiados pela crítica e público. Dentre os participantes, destacam-se David Fincher, Éric Rohmer, James Gray, Kyoshi Kurosawa, Martin Scorsese, Paul Schrader, Olivier Assayas, Richard Linklater, Wes Anderson, todos em uníssono tom de homenagem, afinal, a publicação, leitura e culto ao livro ecoou ao longo de suas carreiras. O tempo resguardou as obras de Hitchcock, a maioria, ainda atual e superior aos avanços estéticos de outras realizações contemporâneas que emulam o seu legado. O foco, como é de se esperar, recai em Psicose, Os Pássaros e Um Corpo Que Cai, mas as beiradas conseguem fazer como o livro editado por Truffaut: radiografam os períodos anteriores aos grandes sucessos, tendo em vista compreender a emergência do que se convencionou chamar de “método hitchcockiano”.

Para narrar a sua versão do livro, o realizador, numa parceria com Scorsese, contou com a montagem eficiente e cuidadosa de Rachel Reichman, editora que deu conta dos diversos depoimentos captados por Daniel Cowen, Nick Betgen e Liza Rinzler em Nova Iorque; Genta Tamaki em Tóquio; Mihai Malaimare Jr. em Los Angeles; e Eric Gautier em Paris. Escolher o que e como veicular é uma tarefa árdua, mas os realizadores fazem com maestria. Ver tais imagens cheias de informação para ser transformada em conhecimento é algo fabuloso, principalmente com a condução sonora de Jeremiah Bornfield, entrecortada com a narração elegante de Bob Balaban, outra escolha que funciona bem em termos didáticos, sem deixar o filme autoexplicativo demais. Ainda sobre a edição, o setor consegue dar ao filme uma fluidez animadora.

Lançado em 2015 no Festival de Cannes, a produção é interessante não apenas como material introdutório ao cinema de Alfred Hitchcock. Os elementos didáticos estão presentes, haja vista a necessidade de explicar o que se pretende tratar, mas as escolhas de Jones vão além da exposição, o que torna o seu documentário uma produção unitária, coesa, com depoimentos esteticamente conectados entre si, sem parecer um feature integrante de algum DVD comemorativo. As imagens de arquivo estão presentes, os filmes são comentados e analisados com a própria cena em tela, o que permite melhor compreensão do que é explicitado, num festival metalinguístico tão grandioso quanto uma boa aula de introdução ao cinema.

É um espetáculo de representação do método de um mestre das imagens. Hitchcock, o cineasta dos grandes planos, esteta preocupado com cada detalhe visual e sonoro de suas histórias ganhou, pela lente de Kent Jones, um documentário valioso. Os créditos, digamos, são em grande parte de François Truffaut, outro mestre do cinema, agitador cultural que permitiu ao cinema evoluir enquanto linguagem, além de dar ao campo da crítica a irrigação necessária para seu florescimento, mesmo em momentos de ameaça da liberdade de expressão por meio de reflexões intelectuais escritas. Para quem segue a linha do escritor John Updike em seu termo “o avesso da tapeçaria”, a alta dose de metalinguagem pode não agradar. Aos que estão contemplados neste segmento, procura outra arte para cultuar.

Hitchcock/Truffaut (idem/Estados Unidos/França, 2015)
Direção: Kent Jones
Roteiro: Serge Toubiana
Elenco: David Fincher, Éric Rohmer, James Gray, Kyoshi Kurosawa, Martin Scorsese, Paul Schrader, Olivier Assayas, Richard Linklater, Wes Anderson, Donald Spoto
Duração: 79 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.