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Crítica | Hollywood – 1ª Temporada

por Luiz Santiago
34 views (a partir de agosto de 2020)

Quem acompanha a carreira de Ryan Murphy sabe o quanto ele é fascinado pelo estilo de criação através de homenagens artísticas, seja à TV, seja ao cinema. Hollywood, no entanto, é a menina dos olhos do produtor. Do cinema clássico às novas abordagens cinematográficas da Terra dos Sonhos, Murphy sempre procurou incluir referências ou trabalhar diretamente com eventos, produções e personalidades da Meca do cinema. Em 2017 isso foi manifestado tematicamente por em Feud – 1ª Temporada: Bette and Joan, e agora, ao lado de Ian Brennan, manifesta-se exatamente no seio de toda essa indústria, do seu lixo ao mais absoluto luxo.

O conceito proposto pelos criadores e principais roteiristas dessa 1ª Temporada de Hollywood pode confundir alguns espectadores mais afastados dos exercícios de revisionismo histórico no cinema, que apesar de ser uma abordagem clássica (e vem do teatro, na verdade) é mais conhecida na atualidade pelo trabalho de Quentin Tarantino, que também fez a sua versão reescrita de um pedaço da História do Cinema em Era Uma Vez em… Hollywood. Em resumo, mesmo trabalhando com alguns personagens reais, Brennan e Murphy não estão propondo uma série-biografia sobre os percalços, mau começo ou terrível preconceito da carreira de atores reais como Rock Hudson, Anna May Wong, Hattie McDaniel ou Lena Horne e Dorothy Dandridge, atrizes em quem o diretor se inspirou para criar Camille Washington, a personagem de Laura HarrierHollywood se alimenta da História, mas não a retrata: a proposta aqui é outra. É reescrevê-la.

Os primeiros três dos sete capítulos da temporada servem para apresentar os principais personagens, lugares e temáticas do What If…, e já aí temos uma coleção de difíceis histórias de vida, cuja condução do roteiro fará com que se aglutinem em um único núcleo. Jack (David Corenswet) é o ex-soldado desempregado que está com filhos a caminho e não arranja emprego; Raymond (Darren Criss) é o diretor meio-filipino que “passa por branco” mas não quer se escorar nessa facilidade do sistema e se dispõe a fazer um filme inclusivo e representativo; Camille é uma talentosa atriz que, por ser negra, só recebe papéis de empregada e é obrigada a “atuar” de maneira estereotipada; Archie (Jeremy Pope) é o roteirista negro e gay que está no limite de se esconder e quer ser reconhecido por seu talento… Integrando essa base nós temos diversos outros personagens que enfrentam problemas pessoais que afetam a sua vida profissional, como a filha desprezada e desacreditada pelos pais que são figurões da indústria, como o jovem e mal ator que é assediado e abusado sexual e psicologicamente para ganhar um papel… e por aí vai. Em sua própria estrutura dramática, Hollywood é um amálgama de problemas passados e atuais da indústria do cinema e da forma como essa indústria trata, eleva e descarta aqueles responsáveis pelo bojudo faturamento dos chefões dos estúdios.

Mescla engajada de Crepúsculo dos Deuses com O Jogador, O Artista, um pouco de Cidade dos Sonhos e mais uma boa quantidade de filmes sobre Hollywood, a série desde cedo estabelece que não será sutil. No geral, o enredo é uma carta de amor ao cinema e ao poder transformador da arte, ao mesmo tempo que é uma crítica e carta de repúdio às engrenagens dessa mesma máquina de transformação. Os problemas sociais contra os quais inúmeras lutas se elevaram ao longo dos anos (racismo, homofobia, xenofobia, machismo, abuso sexual, abuso de poder, etc.) são colocados aqui afetando aos personagens envolvidos na produção do filme Peg — depois, Meg –, baseado na vida de Peg Entwistle, que cometeu suicídio pulando da letra H do famoso sinal de Hollywood. A fartura de contradições no Sistema de Estúdios e no Sistema de Estrelas não é nova para nenhum de nós e se resume basicamente na hipocrisia violenta que define a maior parte dos autointitulados ‘cidadãos de bem’: cometem seus crimes e atrocidades na encolha enquanto vociferam, levantam cartazes e matam aqueles que consideram “degenerados” na sociedade ao seu redor. Já a outra parte sustenta a falsa máscara mantendo ideologicamente, em suas conversas e ações na bolha onde vivem, a opressão aos renegados que fazem a mesma coisa que eles… só que às claras.

O roteiro infelizmente cai em uma coleção de exageros que prejudicam o arco de diversos personagens e tornam a história forçada, o que acaba sendo um problema quando a intenção é criticar algo e levantar algumas bandeiras igualitárias. Peguemos Rock Hudson, por exemplo. A estupidez absurda com que o personagem é retratado irrita com o passar dos episódios, principalmente porque as ações e o comportamento do jovem ator não condizem com o seu arco dramático, ou seja, ele cresce em coragem — a ponto de assumir o namoro com um homem negro em pleno final dos anos 1940 — mas essa mesma coragem que ele conquista não é representada em sua percepção de mundo, em seu entendimento das coisas mais simples ao redor e até mesmo em sua postura. A cena final que ele tem com Henry Wilson (o podre personagem de Jim Parsons, que reflete em nossos tempos como uma espécie de Harvey Weinstein ou Kevin Spacey) é a pior de todas nesse sentido, porque perde a oportunidade de entregar ao jovem a superação de sua abusiva relação.

O mesmo caminho de exagero aparece nas inúmeras reafirmações de sexualidade de Jack, como se fosse necessário deixar bem claro que ele não era bi, nem gay, mas um hetero convicto, o que em determinado momento beira à comicidade. E em contraste com outros personagens heteros da temporada, como o diretor Raymond Ainsley e Ernie (Dylan McDermott, que está fantástico no papel, sendo, juntamente com Patti LuPone, a minha atuação favorita da temporada) o dono do posto de gasolina que é fachada para uma agência de prostituição, Jack é o único que precisa ser colocado à prova periodicamente, como se a ideia de abuso e insistência a despeito da sexualidade da pessoa já não tivesse sido compreendida pelo espectador. Se isso acontece com pessoas comuns, ainda hoje, imagine para um homem bonito cujo sonho era se tornar uma estrela de cinema… Em adição, algumas conveniências no meio da jornada, como a internação do chefe do Estúdio Ace, que coloca Avis Amberg no comando ou o mal abordado plano para a aquisição do 25 mil dólares, geram desconfortos pontuais, que mesmo não sendo tão graves, deixam um rastro negativo na obra, tomando um tempo que poderia ser dedicado ao próprio processo de filmagens e principalmente, de relação dessas personalidades com a imprensa.

Hollywood é um interessante exercício de revisionismo histórico. A ambientação recebeu uma aplaudível curadoria e os setores de figurinos e desenho de produção foram os que se mantiveram uma alta qualidade, do primeiro ao último episódio. Me pareceu um pouco estranho ver uma série de Ryan Murphy com uma trilha sonora um pouco mais discreta, embora deva-se elogiar as escolhas das canções, especialmente as de encerramento dos capítulos. O último episódio, cujo principal evento é a cerimônia do Oscar, concentra um grande número de alfinetadas bem dadas na politicagem em torno da premiação, mas ao mesmo tempo tem a capacidade de emocionar, porque logra juntar o nosso amor pelo cinema com a jornada de luta para a produção de Meg, nessa realidade, um marco histórico para o cinema.

Da máfia aos escuros bares para a comunidade LGBT da Terra dos Sonhos; do preconceito da sociedade ao silêncio do Estado diante dos crimes cometidos contra minorias; dos genuínos esforços pessoais aos arranjos amigáveis ou sexuais que dão holofotes a quem não merece, a série chama a atenção para as muitas faces dos bastidores de uma indústria cultural. Dessa vez, contudo, os excluídos têm a oportunidade de mostrar aquilo que são capazes de fazer e abrem as portas para uma nova Era de representação, produção e impacto social no cinema. Algo que em nossa realidade só começaria a acontecer de forma metódica e crescente cerca de 20 anos depois, juntamente com o alvoroço sociopolítico e cultural de final dos anos 1960. Quem sabe não seja este o cenário da próxima temporada… se houver uma próxima.

Hollywood – 1ª Temporada (EUA, 2020)
Criadores: Ian Brennan, Ryan Murphy
Direção: Ryan Murphy, Daniel Minahan, Michael Uppendahl, Janet Mock, Jessica Yu
Roteiro: Ian Brennan, Ryan Murphy, Janet Mock
Elenco: David Corenswet, Darren Criss, Laura Harrier, Joe Mantello, Dylan McDermott, Jake Picking, Jeremy Pope, Holland Taylor, Samara Weaving, Jim Parsons, Patti LuPone, Maude Apatow, Mira Sorvino, Michelle Krusiec, Colette McDermott, Roz Witt, Rob Reiner, Brian Chenoweth, Nicola Bertram, Kerry Knuppe, Jake Regal, Queen Latifah, Paget Brewster, Daniel London, Katie McGuinness, Chad Doreck, Monica Lee Gradischek, William Frederick Knight, Herbert Russell, Elizabeth Schmidt
Duração: 7 episódios de c. 50min. cada

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