Home TVTemporadas Crítica | Hollywood – 1ª Temporada

Crítica | Hollywood – 1ª Temporada

por Luiz Santiago
406 views (a partir de agosto de 2020)

Quem acompanha a carreira de Ryan Murphy sabe o quanto ele é fascinado pelo estilo de criação através de homenagens artísticas, seja à TV, seja ao cinema. Hollywood, no entanto, é a menina dos olhos do produtor. Do cinema clássico às novas abordagens cinematográficas da Terra dos Sonhos, Murphy sempre procurou incluir referências ou trabalhar diretamente com eventos, produções e personalidades da Meca do cinema. Em 2017 isso foi manifestado tematicamente por em Feud – 1ª Temporada: Bette and Joan, e agora, ao lado de Ian Brennan, manifesta-se exatamente no seio de toda essa indústria, do seu lixo ao mais absoluto luxo.

O conceito proposto pelos criadores e principais roteiristas dessa 1ª Temporada de Hollywood pode confundir alguns espectadores mais afastados dos exercícios de revisionismo histórico no cinema, que apesar de ser uma abordagem clássica (e vem do teatro, na verdade) é mais conhecida na atualidade pelo trabalho de Quentin Tarantino, que também fez a sua versão reescrita de um pedaço da História do Cinema em Era Uma Vez em… Hollywood. Em resumo, mesmo trabalhando com alguns personagens reais, Brennan e Murphy não estão propondo uma série-biografia sobre os percalços, mau começo ou terrível preconceito da carreira de atores reais como Rock Hudson, Anna May Wong, Hattie McDaniel ou Lena Horne e Dorothy Dandridge, atrizes em quem o diretor se inspirou para criar Camille Washington, a personagem de Laura HarrierHollywood se alimenta da História, mas não a retrata: a proposta aqui é outra. É reescrevê-la.

Os primeiros três dos sete capítulos da temporada servem para apresentar os principais personagens, lugares e temáticas do What If…, e já aí temos uma coleção de difíceis histórias de vida, cuja condução do roteiro fará com que se aglutinem em um único núcleo. Jack (David Corenswet) é o ex-soldado desempregado que está com filhos a caminho e não arranja emprego; Raymond (Darren Criss) é o diretor meio-filipino que “passa por branco” mas não quer se escorar nessa facilidade do sistema e se dispõe a fazer um filme inclusivo e representativo; Camille é uma talentosa atriz que, por ser negra, só recebe papéis de empregada e é obrigada a “atuar” de maneira estereotipada; Archie (Jeremy Pope) é o roteirista negro e gay que está no limite de se esconder e quer ser reconhecido por seu talento… Integrando essa base nós temos diversos outros personagens que enfrentam problemas pessoais que afetam a sua vida profissional, como a filha desprezada e desacreditada pelos pais que são figurões da indústria, como o jovem e mal ator que é assediado e abusado sexual e psicologicamente para ganhar um papel… e por aí vai. Em sua própria estrutura dramática, Hollywood é um amálgama de problemas passados e atuais da indústria do cinema e da forma como essa indústria trata, eleva e descarta aqueles responsáveis pelo bojudo faturamento dos chefões dos estúdios.

Mescla engajada de Crepúsculo dos Deuses com O Jogador, O Artista, um pouco de Cidade dos Sonhos e mais uma boa quantidade de filmes sobre Hollywood, a série desde cedo estabelece que não será sutil. No geral, o enredo é uma carta de amor ao cinema e ao poder transformador da arte, ao mesmo tempo que é uma crítica e carta de repúdio às engrenagens dessa mesma máquina de transformação. Os problemas sociais contra os quais inúmeras lutas se elevaram ao longo dos anos (racismo, homofobia, xenofobia, machismo, abuso sexual, abuso de poder, etc.) são colocados aqui afetando aos personagens envolvidos na produção do filme Peg — depois, Meg –, baseado na vida de Peg Entwistle, que cometeu suicídio pulando da letra H do famoso sinal de Hollywood. A fartura de contradições no Sistema de Estúdios e no Sistema de Estrelas não é nova para nenhum de nós e se resume basicamente na hipocrisia violenta que define a maior parte dos autointitulados ‘cidadãos de bem’: cometem seus crimes e atrocidades na encolha enquanto vociferam, levantam cartazes e matam aqueles que consideram “degenerados” na sociedade ao seu redor. Já a outra parte sustenta a falsa máscara mantendo ideologicamente, em suas conversas e ações na bolha onde vivem, a opressão aos renegados que fazem a mesma coisa que eles… só que às claras.

O roteiro infelizmente cai em uma coleção de exageros que prejudicam o arco de diversos personagens e tornam a história forçada, o que acaba sendo um problema quando a intenção é criticar algo e levantar algumas bandeiras igualitárias. Peguemos Rock Hudson, por exemplo. A estupidez absurda com que o personagem é retratado irrita com o passar dos episódios, principalmente porque as ações e o comportamento do jovem ator não condizem com o seu arco dramático, ou seja, ele cresce em coragem — a ponto de assumir o namoro com um homem negro em pleno final dos anos 1940 — mas essa mesma coragem que ele conquista não é representada em sua percepção de mundo, em seu entendimento das coisas mais simples ao redor e até mesmo em sua postura. A cena final que ele tem com Henry Wilson (o podre personagem de Jim Parsons, que reflete em nossos tempos como uma espécie de Harvey Weinstein ou Kevin Spacey) é a pior de todas nesse sentido, porque perde a oportunidade de entregar ao jovem a superação de sua abusiva relação.

O mesmo caminho de exagero aparece nas inúmeras reafirmações de sexualidade de Jack, como se fosse necessário deixar bem claro que ele não era bi, nem gay, mas um hetero convicto, o que em determinado momento beira à comicidade. E em contraste com outros personagens heteros da temporada, como o diretor Raymond Ainsley e Ernie (Dylan McDermott, que está fantástico no papel, sendo, juntamente com Patti LuPone, a minha atuação favorita da temporada) o dono do posto de gasolina que é fachada para uma agência de prostituição, Jack é o único que precisa ser colocado à prova periodicamente, como se a ideia de abuso e insistência a despeito da sexualidade da pessoa já não tivesse sido compreendida pelo espectador. Se isso acontece com pessoas comuns, ainda hoje, imagine para um homem bonito cujo sonho era se tornar uma estrela de cinema… Em adição, algumas conveniências no meio da jornada, como a internação do chefe do Estúdio Ace, que coloca Avis Amberg no comando ou o mal abordado plano para a aquisição do 25 mil dólares, geram desconfortos pontuais, que mesmo não sendo tão graves, deixam um rastro negativo na obra, tomando um tempo que poderia ser dedicado ao próprio processo de filmagens e principalmente, de relação dessas personalidades com a imprensa.

Hollywood é um interessante exercício de revisionismo histórico. A ambientação recebeu uma aplaudível curadoria e os setores de figurinos e desenho de produção foram os que se mantiveram uma alta qualidade, do primeiro ao último episódio. Me pareceu um pouco estranho ver uma série de Ryan Murphy com uma trilha sonora um pouco mais discreta, embora deva-se elogiar as escolhas das canções, especialmente as de encerramento dos capítulos. O último episódio, cujo principal evento é a cerimônia do Oscar, concentra um grande número de alfinetadas bem dadas na politicagem em torno da premiação, mas ao mesmo tempo tem a capacidade de emocionar, porque logra juntar o nosso amor pelo cinema com a jornada de luta para a produção de Meg, nessa realidade, um marco histórico para o cinema.

Da máfia aos escuros bares para a comunidade LGBT da Terra dos Sonhos; do preconceito da sociedade ao silêncio do Estado diante dos crimes cometidos contra minorias; dos genuínos esforços pessoais aos arranjos amigáveis ou sexuais que dão holofotes a quem não merece, a série chama a atenção para as muitas faces dos bastidores de uma indústria cultural. Dessa vez, contudo, os excluídos têm a oportunidade de mostrar aquilo que são capazes de fazer e abrem as portas para uma nova Era de representação, produção e impacto social no cinema. Algo que em nossa realidade só começaria a acontecer de forma metódica e crescente cerca de 20 anos depois, juntamente com o alvoroço sociopolítico e cultural de final dos anos 1960. Quem sabe não seja este o cenário da próxima temporada… se houver uma próxima.

Hollywood – 1ª Temporada (EUA, 2020)
Criadores: Ian Brennan, Ryan Murphy
Direção: Ryan Murphy, Daniel Minahan, Michael Uppendahl, Janet Mock, Jessica Yu
Roteiro: Ian Brennan, Ryan Murphy, Janet Mock
Elenco: David Corenswet, Darren Criss, Laura Harrier, Joe Mantello, Dylan McDermott, Jake Picking, Jeremy Pope, Holland Taylor, Samara Weaving, Jim Parsons, Patti LuPone, Maude Apatow, Mira Sorvino, Michelle Krusiec, Colette McDermott, Roz Witt, Rob Reiner, Brian Chenoweth, Nicola Bertram, Kerry Knuppe, Jake Regal, Queen Latifah, Paget Brewster, Daniel London, Katie McGuinness, Chad Doreck, Monica Lee Gradischek, William Frederick Knight, Herbert Russell, Elizabeth Schmidt
Duração: 7 episódios de c. 50min. cada

Você Também pode curtir

42 comentários

Cleibsom Carlos 14 de agosto de 2020 - 22:15

HOLLYWOOD começa como uma ode a vida homossexual digna de um Pasolini ou Andy Warhol e acaba de forma melancólica como as maiores xaropadas da Disney…É ridículo incluir lacração em um filme que se passa nos anos 1940 e as pessoas que fazem isso devem saber o mal que causam! A hipocrisia de se empurrar goela abaixo movimentos identitários no contexto da série é algo muito prejudicial, porque tenta reescrever, até de forma irresponsável, os preconceitos do passado e o sofrimento que eles causaram. Quanto mais realista os filmes forem e mostrarem sem retoques estes preconceitos, cito o racismo, o machismo, a misoginia e a homofobia que existiam na Terra dos Sonhos, que infelizmente ainda existem, e quanto menos forem mascaradas as atitudes injustificáveis de antigamente, que não deixavam espaços para finais felizes, mais a mudança irá se impor sobre o sistema, pois não há mais condições do ser humano agir como agia com relação a estes assuntos. Séries como essa são nocivas e não ajudam em nada, com sua demagogia açucarada e hipócrita, nas causas identitárias que pensam encabeçar…Tecnicamente não há o que se criticar em HOLLYWOOD, e alguns desempenhos individuais do elenco chegam de fato a emocionar, mas de boas intenções o inferno está cheio e os produtores desta sacarose estão enganando descaradamente as pessoas ao produzirem uma bomba destas!

Responder
Luiz Santiago 14 de agosto de 2020 - 22:57

A série é aberta, assumida e constantemente reafirmada como FICÇÃO HISTÓRICA.

Responder
Cleibsom Carlos 15 de agosto de 2020 - 00:37

De aberta a série não tem nada e sua mensagem cor de rosa é muito clara: tenta retratar Hollywood como “progressista”, algo que a Terra dos Sonhos nunca foi ou é, muito pelo contrário. Lacradora e demagógica, desvirtua totalmente a Hollywood da época, mas essa liberdade histórica, que todo roteirista tem, possui um preço muito alto, pois é ingenuidade pensar que estamos falando apenas de “entretenimento”. HOLLYWOOD, apesar de feita pela NETFLIX, se assemelha a uma sessão masturbatória feita pela própria Terra dos Sonhos para tentar escamotear seus pecados misóginos, racistas, homofóbicos, machistas e preconceituosos do passado e do presente.

Responder
Luiz Santiago 15 de agosto de 2020 - 00:55

A série tem absolutamente tudo de aberta quanto ao seu propósito, e a mensagem de ficção histórica é clara para qualquer pessoa. Ou você presta atenção no que assiste ou…

Responder
planocritico 15 de agosto de 2020 - 00:55

Sua interpretação da série é equivocada na raiz. A série mostra Hollywood como ela foi e é JUSTAMENTE ao criar um quadro ficcional hipotético de história alternativa em que eventos levaram à mudança (ou ao menos o começo da mudança) nessa indústria nesse cenário específico. Ao mostrar a mudança, a série torna ainda mais evidente o machismo, misoginia, homofobia e tudo mais de ruim que ela tem e tudo o que NÃO foi feito para mudar a situação ao longo dos anos em nossa realidade. É o contraste que torna o abismo maior ainda e aí é que está a crítica forte da série.

– Ritter.

Responder
Cleibsom Carlos 15 de agosto de 2020 - 01:01

Temos interpretações diferentes da série e não sei qual das duas está “correta”…O que sei é que onde o Plano Crítico viu “crítica forte’ eu vi apenas cinismo.

João Dogwalker 9 de julho de 2020 - 14:15

O realismo do começo se diluiu no final que poderia terminar com alguém, o roteirista talvez, acordando de um sonho impossível, num quartinho sujo, sozinho, Rock Hudson estrela de cinema, o ator voltando para o posto de gasolina e a atriz negra trabalhando de fato como empregada doméstica ou professora….

PS: Como projeto é interessante se for tratado com a mesma estrutura de uma AHS da vida, com cada temporada, com uma história diferente…

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 9 de julho de 2020 - 14:18

lol

Responder
Rui 4 de julho de 2020 - 21:29

A série parece até que foi dirigida por duas equipes diferentes! O início promete e nos últimos episódios temos uma virada um tanto ingênua que parece que foi produzida pela Disney!
Soa muito ingênuo o final !!

Responder
Rui 4 de julho de 2020 - 21:24

Achei a minissérie uma ingenuidade profunda ! Um conto de fadas !!
Os primeiros episódios anunciam algo , mas os últimos parecem que foram feitos pelos estúdios Disney!!

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 5 de julho de 2020 - 02:09

Exatamente essa a proposta da série. É quase um conto de fadas mesmo.

Responder
Sóstenes - Toty 17 de junho de 2020 - 19:57

“No geral o enredo é uma carta de amor ao cinema e ao poder transformador da arte, ao mesmo tempo que é uma crítica e carta de repúdio às engrenagens dessa mesma máquina de transformação.”
Não podia descrever melhor, resumiu tudo.
Me emocionei ao mesmo tempo que me inconformei por ainda viver em uma sociedade tão cruel.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 17 de junho de 2020 - 20:08

Obras assim têm o poder de esfregar ainda mais essas coisas na nossa cara. Não bastasse a realidade, né, mano.

Responder
Sóstenes - Toty 22 de junho de 2020 - 00:14

Pelo menos, aqui temos finais felizes.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 22 de junho de 2020 - 00:21

Pois é.

Responder
planocritico 20 de maio de 2020 - 11:25

@luizsantiago:disqus , taí uma rara série (ou minissérie, sei lá) que eu achei que ficou curta. Merecia mais episódios para desenvolver melhor determinados aspectos da trama e evitar correrias e conveniências, incluindo aí um pouco mais da produção de Meg, a distribuição do filme nos EUA (com eventuais protestos e tal) e ampliar as conexões pessoais entre os personagens.

O único ponto que eu discordo de seu texto é quando você usa como exemplo de conveniência a internação do dono do Estúdio Ace. Foi uma doença repentina e é esse o “ponto de virada” histórico, digamos assim, pois sem isso Meg não aconteceria. Não vejo como isso poderia ser feito de maneira menos conveniente, pois é como, por exemplo, a reeleição de Nixon em Watchmen ou a vitória de Lindbergh em The Plot Against America, um elemento “de bastidor” que muda tudo.

Mas seus pontos sobre a reafirmação constante da sexualidade de Jack procedem completamente. Nossa, que coisa cansativa. Tipo “eu JÁ ENTENDI que ele é hétero!!!! troca o disco!!!!”. E também adorei o Ernie. Que personagem bacana!!! E CAAAAAAARA, que sacanagem que fizeram com o Rock Hudson. Só para não perder o trocadilho, o cara ficou mais burro que uma pedra, caramba…

E eu amei o personagem do Sheldon. Que desgraçado FDP que dá vontade de pular na tela para socar!!!!!!!

Abs,
Ritter.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 20 de maio de 2020 - 16:42

Seria bom demais se expandissem essa parte da produção e distribuição. Tinha muita coisa boa para tirar daí e no caso da produção, dialogaria bem demais com a temática da série (ou minissérie heheheheheh).

Olha, essa burrice do Rock Hudson foi absurdamente sacanagem. Tinha horas que eu dava risada de nervoso e incredulidade, tipo “é sério que deram essa fala pro ator dizer???”.

Sheldon de vilão aqui… Mano que ódio desse cara! É daqueles personagens que você ficar contando as muitas formas de fazê-lo sofrer imensamente hahahahahhahahhah

Responder
Luan Pinheiro 3 de maio de 2020 - 09:03

Tenho uma relação de amor e ódio com Ryan Murphy, as séries dele sempre tem ideias boas e com uma dose certa de originalidade, mas com o tempo, a série vai caindo de qualidade até se tornar quase inassistível, não sei se isso é consequência dele querer lançar umas duas séries por ano e não conseguir dar conta de tudo, mas sempre que eu vejo uma nova obra dele, eu penso que ele poderia usar esse empenho em quantidade de séries para pensar mais na qualidade das séries que ele já está produzindo, é triste.
Mesmo assim, foi uma ótima crítica ,despertou a minha curiosidade para assistir essa série, mesmo estando com o pé atrás

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de maio de 2020 - 09:27

Esta é uma boa série. Tem problemas, mas jamais diria que fica “inassistível”. Isso não. Se este for o seu maior medo, mergulhe com tudo!

Mas eu concordo com essa abordagem para as séries dele. American Horror Story é a prova cabal disso, com TODAS as temporadas com ideias absolutamente fantásticas, mas aí conforme os episódios vão passando, você quer arrancar os olhos. É complicado. Mas a gente não larga esse fudido de jeito nenhum… haahhahahahahahhahhahhahahahah

Responder
Léon 3 de maio de 2020 - 17:58

Vocês resumiram bem a minha relação com o tio Murphy. Adoro ele, adoro as ideias dele, adoro o jeito dele conduzir as histórias em que você pensa que o caminho a ser seguido pelo roteiro será um e do nada ele te surpreende. Contudo, sinto ódio dele quando as coisas desandam. Principalmente em algo que geralmente eu chamo de “a maldição dos três últimos episódios”, onde normalmente as séries dele vêm de uma crescente maravilhosa e nos três últimos episódios ele gosta de dar uma reviravolta densa na condução do enredo que, geralmente, faz tudo o que foi construído ir de ladeira abaixo. Não se tornando péssimo, mas algo do mediano para o ruim. Como o Luiz bem falou: AHS é um bom exemplo disso. Ele sempre trás uma temporada com uma temática maravilhosa e condução de enredo fantástico e aí nos três últimos episódios a coisa desanda. Embora eu ame a maioria das temporadas desta série. O meu maior problema é com Freak Show e a PORCARIA DAQUELES ETs NA MARAVILINDA ASYLUM (aqui, vocês não passarão. Voltem para a Área 51 NOW!).

Acho que o problema dele é a mesma coisa que o torna um bom criador de séries: a necessidade de querer nos surpreender. Quando ele vê que o roteiro das séries está se tornando previsível demais (o que não é algo ruim) aí ele vem e coloca algo para mudar completamente o rumo da história para uma direção que não esperávamos. E geralmente isso não cai bem porque fica parecendo que houve falta de planejamento. Que ele jogou a história para um estagiário muito empolgado – mas sem muito taco e experiência – completar com as ideias que tinha no jardim de infância e aí… Também pode ser isso que o @luanpinheiroo:disqus disse: a necessidade do Murphy de lançar várias séries por ano e comandar todas elas. Aí não tem como a coisa não desandar.

Mas é claro, nem sempre ele se entrega a esta maldição dos três últimos episódios e nos entrega coisas muito boas (mesmo que ainda controversas e que não agradam a todos… Tô falando de tudo AHS 1984).

Enfim, fiquei com vontade de ver esta série desde que soube da sua existência. O que posso dizer? Tenho um grande fraco por mulheres usando vestidos e batom vermelhos e luvas. Ainda mais quando a história se passa entre as décadas de 30 e 50 e tem uma condução dramática do tio Murphy, que sabe misturar vários gêneros em uma mesma história (embora acabe perdendo a mão na maioria das vezes).

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de maio de 2020 - 18:33

Essa sua teoria da “maldição dos três últimos episódios” é maravilhosa e eu vou roubar! HAUAHUAHAUAHUAHAUHAU

Cara, imagino que você vá gostar bastante dessa série. Ela tem tudo isso que você disse que gosta e mais algumas outras coisas bem legais no meio.

Responder
Léon 3 de maio de 2020 - 18:33

A audácia deste Santiago sempre consegue me surpreender. Ele vem escrever aqui, para todas as testemunhas oculares lerem, que vai me roubar e vai ficar por isso mesmo?

Só digo uma coisa: se você me roubar, eu vou roubar você também! KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de maio de 2020 - 21:22

Eu belíssimo aqui já me preparando para O ROUBO DO SÉCULO e tenho de lidar com ameaças da oposição? Ah, não! Não aceitamos esse contra-roubo aqui não Rogerinho!

https://uploads.disquscdn.com/images/66a3c125a5ce9ebdde62dbf2c80882ecd9406d375e5ebcefced83125e3d13a9b.jpg

Barry, o Lanterna 3 de maio de 2020 - 07:43

Concordo com tudo da crítica! Contudo, a série foi promovida como uma mini-série, não sei se haverá 2ª temporada

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de maio de 2020 - 09:22

Acredito que também não haverá. A história se concluiu bem aqui. A não ser que ele adote o estilo de antologia e a próxima temporada se passe antes OU depois desse período, com outros personagens, abordando outras coisas.

Responder
planocritico 3 de maio de 2020 - 18:39

Hoje em dia eu duvido de tudo que é promovido como minissérie, @barryolanterna:disqus . Vide The Terror, Big Little Lies e The Outsider (que teve a continuação anunciada). Não duvidaria nem se lançassem Chernobyl – 2ª Temporada…

Abs,
Ritter.

Responder
Barry, o Lanterna 4 de maio de 2020 - 08:26

Seria uma ideia bacana até. Se quisessem manter o elenco, o filme que começaram a fazer no fim da temporada poderia servir para a temporada, mas acho que não o deviam fazer. Ao contrário de AHS, deveriam trocar mesmo o elenco todo, acho que ia condizer melhor

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de maio de 2020 - 10:21

Sim, principalmente se o foco for outra década. Seria maravilhoso ver esse tipo de abordagem. Se bem que o Ryan gosta de trabalhar com elenco recorrente, né.

Responder
Tiago Lima 3 de maio de 2020 - 03:03

Por quê choras La La Land?

Que série incrível! Como bem apontado tem seus tropeços. De fato, seria interessante vermos mais do processo de gravação de MEG, além de alguns avanços de caráter de personagens como o próprio Rock Hudson ou da Claire Wood, que visivelmente tinha potencial para entregar mais.

Mas apesar dos tropeços aqui e acolá, o que me encantou foi a complexidade da mensagem. Ao mesmo tempo que a obra é uma homenagem a industria do cinema, ela também o crítica e não se envergonha de escancarar o que a industria tem de mais repugnante, e ainda assim, com o seu desfecho no ultimo episódio ela mostra como essa mesma industria pode ser.

E aqui eu aproveito para refletir: Como será possível essa tão sonhada realidade nas produções cinematográficas? Como nós, como publico, podemos ajudar a alterar esse cenário.

Em uma rápida pesquisa, (pegando apenas o recorte de mulheres na direção) em material publicada pela Folha de São Paulo em 9 de Janeiro de 2018, Uma pesquisada realizada pela Universidade do Sul da Califórnia aponta que entre os anos de 2007 a 2016 dos 1.223 diretores envolvidos nos filmes mais populares, apenas 4% era dirigidos por mulheres. Em relação a continuidade na carreia 84% não são escaladas para dirigir novamente. E em 1.100 filmes analisados apenas 3 foram dirigidos por mulher negras, 2 por mulheres asiáticas e 1 por uma diretora latina.

E esse é o grande poder dessa obra, de nos fazer refletir de como a boa e velha Hollywood deveria ser e o poder transformador da arte, que nos tempos sombrios em que vivemos muitos a temem.

Por mim não haveria uma segunda temporada. A mensagem foi entregue e ela foi clara: Melhore Hollywood!

Link para a matéria da folha: https://f5.folha.uol.com.br/cinema/2018/01/o-que-faz-apenas-4-das-diretoras-de-filmes-de-hollywood-serem-mulheres.shtml

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de maio de 2020 - 09:33

Essa discussão sobre a presença de mulheres em postos de comando no cinema — e aqui também podemos colocar outros grupos ou aspectos pessoais… étnicos, raciais, de sexualidade, etc. — é extremamente relevante e, a meu ver, sem uma clara resposta no momento.

Desde que se percebeu o potencial monetário da indústria, ainda nos anos 1910, as mulheres foram afastadas da direção e outros espaços de produção de filmes e permaneceram raras ao longo das décadas. A gente sempre vai cair no campo de GERAÇÃO DE OPORTUNIDADE para que cada um mostre o que sabe fazer e aí então consiga manter seu lugar na História (ou não…). Mas é justamente nesse ponto que está a maior pedra. Não há oportunidade. Regras, convenções (mudas) e muita rejeição quando se trata “desse tipo” ou “daquele tipo” de profissional afastam artistas que não estejam no padrão que temos hoje. O cenário vem mudando lentamente ao longo dos anos, mas ainda é problemático e não está nem perto de ser algo ideal.

É triste pra caralho. E do nosso lado, eu realmente não sei o que podemos fazer além de cobrar esses estúdios (via redes sociais?) e consumir o produto desses realizadores. Todavia, mercado é mercado. E em mercado, serve bem aquele ditado… “uma andorinha só não faz verão“. E então voltamos ao início do ciclo. O que gera aqui um outro problema: a ideia de que a mudança precisaria vir de dentro. E se a mudança vem de dentro desses gigantes, ela quase nunca é promovida para se tornar algo genuíno, com verdadeira marca de “oportunidade para vencer o melhor“, como os pregadores da meritocracia dizem que seria numa utopia capitalista perfeita. Se ela realmente funcionasse como motor do sistema, a História das artes (e da humanidade como um todo) seria beeeeeeeeeeeem diferente…

Responder
Victor Martins 3 de maio de 2020 - 17:32

Me corrija se eu estiver errado, mas eu sinto que nesse meio do cinema infelizmente vale muito mais ter amigos importantes ou conhecer pessoas influentes, do que ter o talento em si.

Mas eu confesso que eu sempre achei estranho:

A Lynne Ramsay ter só 4 filmes em mais de 20 anos de carreira. Falam que ela é difícil de lidar, mas o David O. Russell só faltou matar o elenco de Trapaça e o cara continua recebendo projetos.

A Kelly Fremon Craig que dirigiu o sucesso The Edge of Seventeen em 2016 e agora tá roteirizando filme animado de Scooby Doo, não é a diretora. (Apesar de que vi notícias de que ela iria adaptar o livro chamado “Are You There, God ? It’s Me Margaret”)

A Tamara Jenkins dirigiu e escreveu um roteiro indicado ao Oscar em 2007, por A Família Savage. E só voltou a direção em 2018, com Private Life

A Patty Jenkins, que recentemente reclamou em uma entrevista que ela se surpreendeu com a relutância dos estúdios em contrata-la, mesmo após ter dirigido um filme que rendeu um Oscar a Charlize Theron. Se ela não tivesse sido contratada para Mulher Maravilha continuaria sendo conhecida apenas como a diretora que o Kevin Feige demitiu daquele lixo de Thor 2

Claro que existem casos e casos, como a roteirista de Juno e Tully, Diablo Cody, que desistiu de dirigir porque segundo ela “não possui a liderança necessária”. Ou a Brie Larson, que dirigiu aquele filme ruim dos Unicórnios da Netflix que parece um playground. Acho que alguma diretora profissional de verdade gostaria de terr tido essa oportunidade de dirigir esse filme

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de maio de 2020 - 18:19

Pra ser muito sincero, esta é uma característica muito presente no mercado de trabalho do mundo todo, com exceção, creio eu, das atividades braçais. Dependendo da área ou da empresa por trás da contratação, esse tipo de dificuldade pode não existir, claro, mas isso infelizmente é raro.

No cinema, isso que você expôs, num ótimo levantamento sobre cineastas da nova geração com dificuldades de emplacar novos projetos, é algo que vem se arrastando há décadas. Diretoras monstruosas como Agnès Varda, Lina Wertmüller, Margarethe von Trotta ou Chantal Akerman (isso só para pegar diretoras notáveis de países democráticos, senão colocaria aqui os inúmeros problemas de gênero e também políticos enfrentados pela Vera Chytilová ou pela Larisa Shepitko) você vai ver o mesmo padrão, inclusive denunciados por elas ao longo de toda a carreira.

A diferença da rejeição a artistas homens, independente do grupo minoritário em que eles se encontram (se você ver o talentosíssimo Billy Porter falando da experiência dele nesse sentido é de cortar o coração), é que a penetração no mercado e principalmente a manutenção no mercado parece ser muito mais difícil para cineastas mulheres. Cara, se até a solidamente apadrinhada Sofia Coppola reclama dessa falta de espaço e oportunidade até hoje, imagina só para quem não tem o background dela!

E nem me faça começar a falar de diretoras brasileiras…

Responder
Tiago Lima 5 de maio de 2020 - 22:06

Nossa, se falarmos de diretoras brasileiras e diretoras brasileiras negras é de chorar. E nem na faculdade elas são lembradas. Lembro de um depoimento de uma colega do curso de graduação de cinema que na aula de cinema brasileiro ela perguntou quem foi a primeira mulher diretora e o professor não sabia responder.

Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 5 de maio de 2020 - 22:22

É triste demais!
Falar nisso, migo, fica aí a dica desse maravilhoso documentário: Be Natural: A História não Contada da Primeira Cineasta do Mundo.

Tiago Lima 5 de maio de 2020 - 23:15

Já coloquei na lista! Que só aumenta. Pelo amor de Truffaut!!! Hahaha.

Léon 3 de maio de 2020 - 18:33

E pensar que houve um tempo na minha não tão longínqua adolescência que eu acreditava e reproduzia a meritocracia por aí. Mas ainda bem, digievoluí, percebendo que o buraco é beeeeem mais fundo que os meritocratas pregam.

“O cenário vem mudando lentamente ao longo dos anos, mas ainda é problemático e não está nem perto de ser algo ideal.” Você falando isso casou bem com algo que ocorreu comigo ontem e juro que só vim perceber ontem mesmo. Reassistindo ao filme especial (e maravilhoso) que encerrou a minha tão querida Sense8 (porque nos tempos em que vivemos hoje tem vezes que eu preciso assistir coisas que ainda me façam acreditar – ou pelo menos me enganar – que o amor vence tudo no final). Logo quando assisti os primeiros episódios da série, percebi o quanto ela era diversificada e falava exatamente sobre diversidade de muitos tipos. Contudo, ontem foi que me dei total conta de que, mesmo sendo bastante inclusiva e diversificada, o elenco principal, querendo ou não, ainda segue certos padrões impostos pela indústria e pela nossa sociedade. Claro, isso não tira o fato de que a série, querendo ou não, traz uma diversidade e fala sobre isto, mas que é ainda um movimento pequeno e controlado. Cirúrgico. Planejado pelos “grandões” da indústria para ser apenas comercialmente inclusivo. É um avanço, mas ainda não é o ideal. Mas como toda a evolução natural demora bilhões de anos… de passinho em passinho, talvez, um dia, chegaremos lá… Assim espero.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de maio de 2020 - 21:18

O positivo de Sense8 é que cada núcleo é tratado com o maior respeito possível, sem “encaixismo representativo”, que é uma das piores merdas que vemos por aí. Para mim, se for para fazer “inclusão” apenas para constar, nem faz, porque será um desserviço. Não é o caso de Sense8. Estou curioso: qual caminho você diz desse tipo de padrões que a série usa? Fiquei curioso por entender mais seu argumento.

Responder
Léon 4 de maio de 2020 - 16:34

Menino, são coisas pequenas, mas que ficam passando na minha cabeça. Às vezes pode ser efeito de pensamentos e devaneios aleatórios de alguém que está procurando pelo em ovo.

Concordo quando você diz que Sense8 respeitou bem cada núcleo e deu o devido espaço para cada um dos 8 personagens principais ao longo de suas duas breves temporadas e seu especial de encerramento. E ainda trouxe um pouco de cada cultura e subcultura representada pelos personagens e suas tribos sociais, trazendo as devidas problemáticas de cada um deles e as trabalhando bem.

O que estou falando é mais sobre os 8 personagens principais, que se olharmos bem, todos eles ainda seguem um padrão de beleza e físico hollywoodiano de ser. Até mesmo o Sussurros (muito bem interpretado pelo Terrence Mann – que agora que fui pesquisar rapidamente me fez lembrar do Hugo Weaving) segue este tipo de padrão estético. (Porque se eu chegar aos 68 anos com metade do corpo que ele tem, vou me ajoelhar todas as noites e agradecer aos deuses da Terra e dos Céus por isto. KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK). Enfim, é mais neste sentido estético que falo. Os pares românticos dos personagens também seguem este padrão hollywoodiano.

Sei que há exigências empresariais, de público, de mercado e de vários outros tipos que não consigo definir aqui e que, querendo ou não, devem ser respeitadas por quem trabalha neste meio artístico se quiser continuar trabalhando e fazendo sucesso. Também compreendo que se olharmos o histórico dos personagens, a maioria deles justifica o padrão estético adotado. Will como um policial que vive se exercitando; Sun que luta nas horas vagas por assim dizer; Lito que é um ator de sucesso de filmes de ação e até mesmo o próprio Sussurros, pois viver correndo pelo mundo inteiro atrás de Clusters de sensates para matar todos deve manter qualquer um em forma. Mas é apenas uma observação que brotou na minha cabeça enquanto revia ao filme desta série maravilhosa. Querendo ou não, por mais inclusivos e livres que sejamos e tentamos ser, ainda nos vemos presos por algumas amarras.

P.S: Só para esclarecer: não quero dizer que por os atores seguirem um determinado padrão de beleza, eles não atuem bem, que são “apenas um rostinho bonitinho”, pois não é verdade. AMO a atuação de todos eles. Do elenco principal, aos seus pares românticos e aos outros secundários que surgiram. Todos fizeram muito bem os seus personagens. Realmente, foi só uma observação que me veio e que acabei compartilhando aqui.

P.S.2: Ainda não aceito e nunca irei aceitar o fim precoce desta série que me arrebatou desde o primeiro episódio até o seu final.

Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de maio de 2020 - 16:47

Entendi seu ponto. Acho que é uma discussão que vai longe, especialmente porque a gente está falando de segmentação dentro de uma segmentação. O mundo à nossa volta é tão bosta, que a gente começa a problematizar uma coisa daí em baixo do tapete tem mais umas 9678 mil coisas que não tínhamos notado, considerado.

E eu também nunca vou aceitar o fim precoce dessa série. Saudades eternas!

Léon 4 de maio de 2020 - 17:46

É desta forma mesmo com o mundo. E quando você pensa que chegou no cerne da questão, aí algo bate na sua mente dizendo: “Não é bem assim, honey. E se tomarmos por este ponto de vista?” e aí a coisa desanda ainda mais porque lá se vem novas, sólidas e verdadeiras problemáticas que não tínhamos levado em conta antes.

Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 4 de maio de 2020 - 17:52

Já dizia o nosso glorioso Rosa: “Viver é muito perigoso”.

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais