Home LiteraturaAcadêmico/Jornalístico Crítica | Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

Crítica | Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

por Marcelo Sobrinho
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Se você ainda não leu Holocausto Brasileiro, livro-reportagem mais importante e reconhecido de Daniela Arbex, tenha certeza de que será uma das leituras mais duras de toda a sua vida, ainda que você já tenha lido um vasto número de obras verdadeiramente desoladoras e deprimentes. O livro da jornalista e escritora mineira tornou-se um grande best seller e laureou sua autora com o prestigiado prêmio Jabuti no ano de 2014. O grande valor, atemporal e inestimável, de Holocausto Brasileiro consiste em desvelar uma história esquecida de horror e perversidade que aconteceu aos olhos de toda a sociedade brasileira, ainda que a maior parte dela tenha optado por fechar os olhos para o que aconteceu no hospital psiquiátrico Colônia, em Barbacena, por mais de meio século. Uma barbárie digna de um campo de concentração, como afirmou o psiquiatra italiano e figura proeminente na reforma anti-manicomial na segunda metade do último século – Franco Basaglia. Partiu dessa afirmação a ideia de Daniela Arbex de intitular seu livro do modo como o fez. E não há exageros.

A autora, dotada de ética jornalística irrepreensível e de enorme generosidade para com a vítimas dessa tragédia nacional, compreende que não era possível narrar uma história tão brutal e que caíra tão indignamente no ostracismo sem alicerçá-la em dois pontos principais. Daniela acertou em cheio no tom de seu livro-reportagem – não inseriu nenhum dado ou história que não pudesse comprovar com documentação robusta e, ao mesmo tempo, optou humildemente por ser apenas um veículo para que as próprias pessoas implicadas diretamente ou indiretamente nas narrativas pudessem contar os eventos. Isso difere muito Holocausto Brasileiro de obras predecessoras sobre os horrores do Colônia, a exemplo do documentário Em Nome da Razão, de Helvécio Ratton. Arbex debruça-se muito mais profundamente não apenas no registro estatístico da barbárie, mas também em como ela impactou a vida dos mortos e dos sobreviventes.

Nesse ponto, vale a pena analisar que o número total de mortos pelas condições desumanas da fábrica de extermínio que se tornara o hospital ganha relevância bem menor na obra da escritora mineira do que nas anteriores. Isso ocorre pois o que realmente se sente no livro-reportagem de Daniela Arbex não é a dizimação de 60 mil vidas, mas sim a brutalização da humanidade mais medular que cada uma dessas vidas continha. O golpe mais doído e possante que Holocausto Brasileiro dá em seu leitor é imergi-lo em histórias muito singulares, que reclamam empatia e, por ilação, solidariedade. É mergulhando nas trevas que o livro de Daniela restitui a humanidade arrancada das vítimas e também dos leitores, enquanto representantes da mesma sociedade que tanto se desumanizou ao tapar os olhos para o que ocorria.

Sobram histórias comoventes e terríveis, das quais o leitor tirará grande proveito enquanto ser humano. Histórias de pessoas encarceradas e martirizadas até por timidez. De mulheres lançadas ao suplício por maridos poderosos que desejavam ficar com suas amantes. De dissidentes políticos brutalizados sem qualquer piedade. De filhas jogadas ao sofrimento e à morte porque perderam a virgindade antes do casamento. Todas essas pessoas, que sequer eram doentes psiquiátricos, formavam o conjunto de excluídos majoritário no Colônia. Condenados ao frio, à fome, à desnutrição, às doenças por más condições sanitárias e até à morte, que acontecia abertamente e aos olhos de todos os outros prisioneiros. Ao leitor cabe o desafio de continuar a leitura mesmo após tantos relatos de corpos sendo cozidos à luz do dia e no meio do pátio, de adultos e crianças sendo torturados e mortos em sessões abjetas de eletrochoque e de separações definitivas entre mães e filhos capazes de arrancar lágrimas de uma estátua. Mas concluir a leitura de Holocausto Brasileiro é um imperativo e o próprio leitor se sente comprometido emocional e civicamente com essa duríssima tarefa.

Daniela Arbex traz no bojo de sua melhor obra uma reflexão arrasadora não sobre o adoecimento das pessoas vitimadas pela mácula irreparável que foi o hospital Colônia, em Barbacena, mas sim sobre o adoecimento espiritual, ético e cívico de toda a sociedade brasileira. Holocausto Brasileiro adianta em alguns anos uma questão que nos perturba hoje, em plena pandemia da COVID-19. Como naturalizamos tão facilmente dezenas ou centenas de milhares de mortos bem debaixo de nossos narizes? A obra de Arbex é certeira em dar a resposta – porque só somos capazes de sentir a tragédia quando ela ceifa afetos, sonhos, amores e dignidades e não somente números exibidos na tela de um celular ou de uma televisão. Nesse sentido, o livro-reportagem da jornalista mineira é tão poderoso que não é possível não se implicar. Aqueles que enfrentarem a leitura sairão dela menos empedernidos e mais resistentes à anestesia que viabiliza todas as barbáries.

Holocausto Brasileiro (Brasil, 2013)
Autora: Daniela Arbex.
Editora: Geração Editorial.
Número de páginas: 256.

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