Crítica | Holocausto Canibal (1980)

Proibido em mais de 50 países, Holocausto Canibal se tornou um clássico do terror. Por mais que seja recheado de erros cinematográficos, sobretudo na tentativa falha de surpreender no desfecho, a obra prende o espectador do início ao fim por não demonstrar vontade em censurar a brutalidade de uma tribo canibal. O longa acompanha um grupo de jovens que partem para a Floresta Amazônica em busca de uma tribo canibal para serem protagonistas de um documentário.

A obra contém inúmeras cenas que para a história principal, são completamente inúteis, a exemplo do assassinato lento e sem motivo de uma tartaruga (detalhe que o animal era real, nada cinematográfico). No entanto, se analisarmos a ideia inicial, esse fator pode ser perdoável. Parece que os roteiristas não quiseram chocar com um roteiro bem estruturado, principalmente porque é uma narrativa rasa e sem grandes aprofundamentos, porém utilizam dos elementos visuais para tornar a história complexa. Deste modo, o espectador fica preso à forma em que a história é ilustrada: repleta de sangue, estupro e assassinato e, claro, sem omitir nada. Com essa visão, seria muito mais benéfico para os roteiristas pensarem em sequências que foquem em momentos visualmente chocantes, mesmo que deixe de lado a consistência ou a coerência de um roteiro bem escrito. É claro que um ótimo projeto é o produto de um eficiente roteiro, porém estamos diante de uma produção diferente. Aqui, o principal não é a história e sim o que nossos olhos veem. Dessa forma, o problema exposto é amenizado.

Infelizmente, há um momento que essa desculpa não funciona. O desfecho dos jovens é completamente roteirizado e, se comparado ao restante do longa, se torna forçado. Ora, se a todo momento o documentário quis parecer o mais “vida real” possível, qual o sentido de introduzir um final plot twist? Não seria melhor  manter o que a ideia inicial quis trazer e encerrar de forma repentina, ou seja, sem conter artifícios que tornem a narrativa interessante por parte do roteiro?

Outro fator preocupante está na direção. Claro que Ruggero Deodato tem seu mérito na construção de um documentário “snuff” (é impossível não pensar que os assassinatos presentes no filme de fato foram reais, principalmente pelo ano de lançamento do mesmo), porém peca em movimentos de câmera que bagunçam o que está acontecendo. Isso não significa que Deodato tenta omitir o que está ocorrendo, mas sim que grande parte do filme é, visualmente, de difícil entendimento. Claro que por ser do gênero Found Footage (filmado com uma única câmera, normalmente na mão dos próprios personagens) esse efeito é impossível de não se apresentar. Entretanto, o excesso dele é um erro, pois passa a perturbar a intenção central do filme – que, aqui, é o exagero de acontecimentos brutais. Entretanto, o ano em que Holocausto Canibal foi lançado, as limitações do ambiente em torno (falta de um estúdio, por exemplo) e a presença de personagens não roteirizados, como os índios, servem como ‘desculpa’ para o problema exposto.

Por outro lado, não tem como negar que Holocausto Canibal é um marco do gênero, até porque inspirou outros clássicos, como A Bruxa de Blair. Os efeitos visuais são tão bem construídos que realmente parecem assassinatos reais, algo um tanto quanto difícil para a época. Sobretudo, o longa mostra que o cinema pode ter um lado que não se preocupa com a sanidade do espectador, e aproveita da realidade nua e crua como gancho principal para uma obra cativante. Apesar dos erros no roteiro e na exibição das imagens, o longa consegue deixar sua mensagem principal: a brutalidade do ser humano é uma ótima pauta.

Holocausto Canibal (Cannibal Holocaust) – Itália, 1980
Direção: Ruggero Deodato
Roteiro: Gianfranco Clerici, Giorgio Stegani
Elenco: Robert Kerman, Francesca Ciardi, Perry Pirkanen, Luca Barbareschi, Salvatore Basile, Ricardo Fuentes, Carl Gabriel Yorke, Paolo Paolini, Lionello Pio Di Savoia, Claudia Rocchi
Duração: 95 minutos.

FERNANDO ANNUNZIATA . . . Por meio de um sonho, fui convocado pessoalmente pela Marilyn Monroe a participar do mundo das críticas cinematográficas. Sem saber o que esse mundo me reservava, cavalguei com a Lady Godiva em busca do Lendário Livro de Verdades. Atravessamos Gotham, Hogwarts e Twin Peaks atrás do nosso objetivo. Com a revelação dentro de um baú feito de mármore a dois metros dos nossos olhos, nos deparamos com o melhor final possível: o Livro era um espelho. Agora sou o dono de todas as verdades e faço parte de um culto de bruxos chamado Plano Crítico. A única resposta que não tenho é se prefiro minha antiga vida, quando eu era um mortal estudante de Comunicação Social de 18 anos, ou a vida atual, na qual eu descobri a verdade sobre Bohemian Rhapsody.