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Crítica | Homecoming: Um Filme Por Beyoncé

por Handerson Ornelas
148 views (a partir de agosto de 2020)

“Quero ser uma representante da minha raça. Da raça humana.”

Maya Angelou

Já faz alguns anos que vejo algumas pessoas, geralmente com um certo tom prepotente e metido a diferentão, tentar diminuir o trabalho de Beyoncé Knowles-Carter pelo simples fato dela não tocar instrumentos ou escrever suas próprias músicas. Homecoming, o recém chegado documentário sobre o lendário show da cantora no Coachella 2018, é prova que a artista é, sem dúvida alguma, uma das maiores de sua geração. O grande holofote do filme é seu show do Coachella, um feito artístico que não é apenas o maior da cantora, mas também um dos maiores dessa década. Ligando as várias partes do espetáculo está uma lindíssima parte documental muito bem editada composta por bastidores, ensaios e entrevistas que ditam não apenas as ambições e intenções de Beyoncé, mas também momentos de intimidade familiar poucas vezes divulgados ao público.

Sobre o espetáculo do Coachella, tudo o que há para se dizer foi dito na época da realização e transmissão ao vivo do show, mas precisa ser reafirmado novamente: uma verdadeira e impecável celebração sobre diversas faces artísticas (desde a música até o teatro e a dança), uma exaltação do orgulho negro e do empoderamento feminino. Não há discursos ou verborragia aqui, toda a mensagem que Beyoncé tenta passar está na música e nas extraodinárias performances, tudo por meio de sutilezas, mesmo que essas estejam contidas na escala absurda do espetáculo realizado. Se trata de uma mensagem universal, tal qual a de outros artistas contemporâneos, como Kendrick Lamar, uma vez que consegue ir além da representatividade feminina e negra, abordando e celebrando a liberdade e aceitação interna de cada um, bem como a busca por tornar realizável o impossível.

Como a própria artista diz no documentário, sua principal prioridade, antes das gigantescas e impressionantes performances, era a música propriamente dita. E essa preocupação é clara, toda a execução musical é perfeitamente executada por uma orquestra que constrói e aprimora todos os arranjos das canções da cantora e define uma experiência auditiva magnífica. É lindo observar mulheres baixistas, guitarristas e bateristas conduzindo as músicas com a mesma personalidade arrebatadora de Beyoncé, ao lado da mesma no palco. A banda, a orquestra e a fanfarra trabalham em tamanha sincronia que é impossível não termos certeza que estamos diante do atemporal. Por fim, Beyoncé simplesmente entrega o esperado daquela que pode ser a maior performer atualmente viva na indústria musical. Acerta todas as notas com sua voz, coordena e prende todo o público nas mais variadas performances, esbanjando sensualidade, empoderamento feminino e um carisma inigualável.

Toda a parte documental é dirigida sob uma perspectiva nostálgica, tanto no roteiro quanto nas lentes. Temos um dos poucos relatos públicos da gravidez dos gêmeos da cantora, detalhando problemas que teve durante a gestação. Vemos seu hercúleo trabalho buscando voltar a forma, mantendo uma severa dieta enquanto precisava dividir atenção entre os filhos recém nascidos e o massivo trabalho. Vemos, além de depoimentos de vários integrantes da equipe durante a os bastidores, toda a elaboração do projeto Homecoming feito pela artista, as inúmeras horas de ensaios, reuniões e coordenação do que tinha em mente. Beyoncé deixa claro que tomou e fez parte de todo tipo de decisão quanto ao espetáculo – sua visão, ambição e esforço mostrados aqui impressionam. Enriquecendo o documentário, ainda há falas de intelectuais negros que focalizam toda a ideia que a artista deseja passar através da obra.

Homecoming é o triunfo de Beyoncé, primeira mulher negra a ser headliner do Coachella. Nesse triunfo, ela eterniza e expande sua vitória para algo muito maior, uma verdadeira celebração da representatividade: mais de 200 artistas negros compartilham o palco com a cantora. Durante o show, a artista deixa claro diversas vezes que aquele espetáculo não é meramente seu, mas de todos ali naquele palco e, sobretudo, da cultura negra. É uma verdadeira e impecável celebração musical de escala poucas vezes vista, executado em um nível artístico tão gigantesco que é comparável apenas a feitos de Michael Jackson e Madonna. Para os chatos da vez, sinto informar, mas compondo ou não, Beyoncé com sua visão ambiciosa se prova uma das grandes mentes criativas de sua geração.

Homecoming: Um Filme Por Beyoncé (Homecoming: A Film By Beyoncé) – EUA, 2019
Direção:
 Beyoncé Knowles-Carter
Com: Beyoncé Knowles-Carter, Jay-Z, Solange, Kelly Rowland, Michelle Williams
Duração: 137 min.

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