Crítica | Homeland – 8X03: False Friends

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Sob qualquer ponto de vista, False Friends era um episódio difícil de se executar. O sequestro de Saul por Haqqani ao final do episódio anterior foi uma inevitável – e lógica – repetição temática dentro da série, mas que simplesmente não poderia receber o tratamento anterior, nem mesmo algo que se protraísse demais no tempo. Por outro lado, correr para solucionar a questão poderia ser um tiro no pé.

Então, para segurar o pepino, os showrunners arregaçaram as mangas e trataram de escrever esse roteiro, fazendo o melhor possível para circunavegar o óbvio problema apontado acima. O resultado não foi perfeito, mas tenho para mim que não havia solução perfeita para a sinuca de bico em que eles mesmo se colocaram e, no final das contas, o que chegou às telinhas foi o que podia ser feito, o que, em Homeland, não é nem de longe sinal de algo medíocre ou trivial.

A equação para solucionar esse problema teve como objetivo dar corpo ao drama não de Saul, mas sim de Haqqani, colocando seu único filho como traidor ou, mais precisamente, como marionete nas mãos maquiavélicas de Tasneem Qureshi. Com isso, a resolução aparentemente rápida para a prisão de Saul é “trocada” pela forma como Haqqani é forçado a lidar com toda a situação, humanizando ainda mais o personagem que faz de tudo para não executar Jalal (Elham Ehsas), mesmo que isso signifique mantê-lo como seu inimigo e, pior ainda, enfraquecer-se perante seus comandados.

Além disso, Alex Gansa e Howard Gordon aproveitam a oportunidade para transferir a ação brevemente para o outro lado do oceano e mostrar o presidente Ralph Warner (Beau Bridges) pela primeira vez na temporada e introduzir, por intermédio do aconselhamento de David Wellington (Linus Roache também de volta ao seu papel), um problema interno que Warner está prestes a enfrentar: a fome política do vice-presidente Benjamin Hayes (Sam Trammell). São cenas curtas carregadas de texto expositivo para acelerar a compreensão imediata (o que é bom ao mesmo tempo que é ruim, se é que vocês me entendem), mas que emprestam um outro panorama à temporada, reiterando que a luta pela paz não é nem de longe apenas algo puro (ainda que eu ache que, para os fins da série, Saul e Haqqani verdadeiramente acreditem nessa possibilidade), mas sim apenas outro instrumento político. Basta ver o conselho que Carrie dá a Warner em videoconferência para notar o quanto é importante “vender” a paz como vitória para fins de continuidade política do presidente.

Falando em Carrie, outro elemento que o episódio volta a discutir mais diretamente é sua lealdade aos EUA depois dos sete meses que passou em um sanatório na Rússia. Sua relação com o ardiloso Yevgeny Gromov é intensificada, assim como sua vigilância pela própria e desconfiadíssima CIA em uma sequência de observação e espionagem que faz uma belíssima homenagem à obra-prima A Conversação, de Francis Ford Coppola. E o melhor é que, ainda que mais peças tenham sido adicionadas ao quebra-cabeças, ainda não está claro o que realmente aconteceu e o que o espião russo quer.

Portanto, no final das contas, False Friends (o título é mais do que perfeito, não?) consegue acertar bastante considerando que o episódio não tinha muito para onde ir. A introdução das tensões políticas internas tanto nos EUA quanto no Talibã ampliam a complexidade da temporada, o mesmo valendo para seu tema central, que é a sanidade de Carrie Matheson. O que realmente já cansou é a mais do que ridícula situação em que Max se encontra no fronte de guerra, servindo de amuleto da sorte para os soldados ao seu redor. Confesso que se esfregarem a mão nele mais uma vez, ficarei feliz se Max metralhar meia dúzia daqueles caras…

Se Homeland continuar adicionando complexidade política nesse passo apertado, fico com receio que apenas 12 episódios não deem conta do recado. Por outro lado, não tenho muitas razões para duvidar da capacidade de Gansa e de Gordon de entregarem um final digno para uma das melhores séries da última década.

Homeland – 8X03: False Friends (EUA, 23 de fevereiro de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Keith Gordon
Roteiro: Alex Gansa, Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 52 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.