Crítica | Homeland – 8X04: Chalk One Up

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Tenho a mais absoluta certeza de que muita gente desdenhará de Chalk One Up por ele ser completamente previsível. Afinal, era mais do que óbvio que, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa muita errada aconteceria com o processo de paz capitaneado por Saul Berenson e que a viagem do presidente Warner para o Afeganistão para anunciar a paz não em Cabul, não no QG da CIA, mas sim no posto avançado americano no meio do nada com coisa nenhuma era a oportunidade perfeita para que essa “alguma coisa” acontecesse. Não havia a mais remota possibilidade de o helicóptero de Warner não ser abatido, especialmente depois que Max, compadecendo-se pelos jovens soldados do batalhão que o adotou como amuleto da sorte, decide não embarcar na aeronave.

Mesmo que eu compreenda o desdém, aproveitarei a oportunidade que esse episódio me dá para reiterar algo que repito há anos aqui no site: previsibilidade, na grande maioria das vezes, não é algo negativo, como muitos tendem a concluir, mas sim positivo, pois significa que a lógica interna daquele filme ou série vem sendo obedecida. Acho absolutamente sem sentido obras que fazem das tripas coração para nos apresentar a reviravoltas tiradas magicamente da cartola e que estão tão divorciadas da trama que parece que foram criadas antes e a partir delas a história foi escrita e não o contrário. Um resultado previsível mostra que o roteiro – ou os roteiros, no caso de uma série – trouxe elementos suficientes para tornar aquele resultado o único ou pelo menos um dos únicos possíveis. E é exatamente esse o caso de Chalk One Up.

Pensem aqui comigo: alguém realmente acreditava que o processo de paz no Oriente Médio aconteceria em um estalar de dedos, isso se realmente fosse acontecer na série? Se você realmente achava isso, então é porque talvez ainda acredite em Papai Noel e no Coelhinho da Páscoa (desculpe se mandei spoilers agora…). Homeland nunca jogou da maneira mais segura e nunca subestimou o espectador e não havia razão para começar agora tratando justamente essa questão altamente complexa sob todos os pontos de vista como algo trivial. Seria o equivalente a descobrirem uma pílula mágica para curar a bipolaridade de Carrie Matheson de forma que tudo acabasse bem na série. Portanto, algo grande precisava acontecer e, quando a própria Carrie sugere a vinda do presidente dos EUA para Cabul, sua morte/sequestro/desaparecimento era o que simplesmente tinha que acontecer.

Portanto, imprevisibilidade não deveria ser algo almejado, mas sim temido. O que é realmente importante detectar é se todos os caminhos realmente “levam a Roma” e se a execução da “manobra” foi eficiente e tenho para mim que Chalk One Up acertou nos dois quesitos. A convergência narrativa é mais do que clara pelos pontos que mencionei acima, pelo que resta abordar a forma como tudo acontece e que é a verdadeira cereja nesse bolo que foi o roteiro  de Patrick Harbinson e Chip Johannessen, uma das duplas de roteiristas mais tradicionais e prolíficas da série. E a simplicidade foi a chave de tudo, com o capítulo inteiro girando em torno do discurso do presidente Warner perante o surpreso pelotão no meio do deserto, com direito a transmissão para o mundo todo. Com apenas esse artifício, os roteiristas foram capazes de criar um momento terno de agradecimento genuíno a Carrie por todo o seu sacrifício na Rússia, colocar os jogadores inimigos e amigos do Oriente Médio em uma mesma sala e, de quebra, tornar o conflito político entre Warner e seu vice-presidente ainda mais saliente.

Além disso, simultaneamente aos eventos envolvendo Warner, que estão na esfera macro, o roteiro também preocupou-se em paralelizar essa ação com a esfera micro, mais especificamente a quase-sequestro de Samira por seu cunhado, para levá-la de volta a seu vilarejo e forçá-la a casar com ele. A tensão das sequências – Warner fazendo seu discurso, tudo dando certo, enquanto Samira era cada vez mais soterrada pela insistência e violência da “tradição muçulmana” – criou um conjunto narrativo belíssimo, mantendo a ação propriamente dita em um nível bem discreto, com apenas um helicóptero sendo alvejado em câmera e Carrie apenas apontando uma arma para os sequestradores. De certa forma, é um recado a nós: a paz não só não vem, como os costumes religiosos arraigados não serão largados facilmente. Mudar até pode ser possível, mas o preço é terrível e pode ser que não se queira pagar o preço.

Particularmente não gostei do artifício do “desaparecimento” inicial do helicóptero do presidente, pois pareceu apenas um truque narrativo barato, mas sou forçado a concluir que a direção de Seith Mann triunfa no paralelismo das duas sequências principais e na forma lenta como ele as conduz, esticando ao máximo o tempo para, de um lado, nos dar uma nesga de esperança de que nada acontecerá a Warner e, de outro, para nos fazer concluir que Samira não tem salvação. Claro que o resultado é justamente o oposto – novamente previsível, mas com execução magistral – e é evidente que, agora, o jogo mudou completamente. Mas temos que lembrar que acabamos de acabar apenas o terço inicial da temporada final e há muito terreno ainda para ser coberto, com o pelotão de Max provavelmente sendo eleito para resgatar Warner (se ele vivo estiver, mas acho que está) e provavelmente tendo que enfrentar Jalal e seus seguidores enquanto Carrie e Saul quebram a cabeça para tentar entender o que exatamente aconteceu e como Yevgeny Gromov entra nessa equação, porque sim, não tenho dúvidas de que ele está envolvido no que aconteceu.

Se Chalk One Up é previsível? Com certeza! E que venham mais magníficas previsibilidades como essa!

Homeland – 8X04: Chalk One Up (EUA, 1º de março de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Seith Mann
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Beau Bridges, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.