Home TVEpisódio Crítica | Homeland – 8X09: In Full Flight

Crítica | Homeland – 8X09: In Full Flight

por Ritter Fan
197 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Já começa a ficar constrangedor ver Jenna ser enganada por Carrie. Sim, eu morri de rir com a protagonista engrupindo a agente da CIA mais uma vez (alguém está contando?) para que ela revelasse o esconderijo dos soldados que a estavam caçando, mas confesso que meu lado de crítico chato já começa a ficar cansado do expediente e, mais ainda, de tornar minha suspensão da descrença ainda mais elástica para acomodar uma personagem tão facilmente manipulável como Jenna. Sei que é um detalhe no episódio, mas o fato é que ele ficou muito saliente como um momento importante dentro do roteiro escrito pelos próprios showrunners.

Seja como for, o foco de In Full Flight foi a desesperada procura de Carrie pela caixa preta do Chalk Two, helicóptero onde estavam os presidentes americano e afegão, em Kohat, vilarejo paquistanês que nada mais é do que um enorme bazar onde se vende todo tipo de equipamento bélico imaginável. Com a ajuda do prestativo Yevgeny, Carrie, que faz jogo duplo o tempo todo, revelando apenas o que é estritamente necessário para que ela cumpra sua missão, acaba encontrando o tão cobiçado aparelho em uma sequência que dependeu demais de coincidência para meu gosto. Afinal, considerando a quantidade de lugares possíveis para ela encontrar a sacola de Max, Carrie esbarra nela praticamente na primeira loja em que entra, passeando por filas de prateleiras repletas dos mais variados artigos como se estivesse em um supermercado bem abastecido pré-Coronavírus.

Apesar de essa ação em Kohat ter sido bem conduzida em termos de tensão, com a direção de Dan Attias trafegando bem entre câmera tremida para dar a impressão de documentário e tomadas mais gerais, com cortes paralelos para a perseguição monitorada pela CIA em Cabul, o peso da conveniência narrativa é grande. Deveria ter sido muito mais difícil e perigoso para Carrie encontrar a caixa preta naquele mafuá repleto de figuras ameaçadoras e não algo reputado à pura sorte (ok, não foi exatamente apenas sorte, mas vocês entenderam). Compreendo a necessidade de correr com a narrativa, já que a série está em sua reta final, mas fica evidente que sacrificaram realismo em prol da economia de alguns minutos.

Por outro lado, foi alvissareiro notar que o já mencionado jogo duplo de Carrie teve como resposta a revelação do jogo duplo de Yevgeny que finalmente revela suas garras (apesar de mostrar afeição que reputo genuína pela ex-agente da CIA), aproveitando-se da oportunidade para levar embora a caixa preta com objetivo ainda incerto, mas que certamente tem relação com a proximidade russa com os talibãs e/ou Paquistão e/ou Afeganistão, dependendo do interesse em fazer a vindoura guerra parar, ao revés, concretizá-la. Presumo que muito dos três episódios finais serão dedicados à caçada de Yevgeny e ao conteúdo da caixa, agora que Carrie e nós agora sabemos que tudo não passou de um acidente, algo que pode mudar a política agressiva do presidente marionete americano, ainda que eu tenha poucas esperanças de que essa informação chegará a tempo ou, se chegar, não será descartada como desinformação.

Falando no presidente americano, está aí um personagem que dá vontade de pular na tela para esmurrar. Que sujeito mais sem personalidade! E isso quer dizer, claro, que esse lado da macro-política está funcionando muito bem, com uma ótima atuação de Sam Trammell, especialmente no meio do fogo cruzado entre os personagens de John Zabel e Saul Berenson, com um David Wellington murchinho e completamente desesperançoso em seu canto. Continuo um pouco desapontado com a forma como Zabel entrou na série, como tive a oportunidade de abordar na crítica do episódio anterior, mas sua presença tem valido a pena nem que seja para nos deixar fumegando de raiva.

Aliás, irritante também é a postura “sou o maioral” de Jalal Haqqani, aproveitando-se da execução do pai para arvorar-se como assassino de presidentes e reunindo um exército de talibãs grande o suficiente para assustar até mesmo a fria e pragmática Tasneem Qureishi. A panela de pressão está prestes a explodir e tudo andou tão rápido que isso acaba só reforçando minha conclusão de que a informação da caixa preta, se um dia vier à luz do dia, não terá força para impedir a detonação.

Apesar de In Full Flight ter sido o episódio mais fraco da temporada até agora em razão de suas conveniências narrativas, isso não quer dizer muita coisa, pois o nível do que vem sendo apresentado é altíssimo. Foi apenas um rápido soluço que, espero, a trinca final de episódios mais do que compensará.

Homeland – 8X09: In Full Flight (EUA, 05 de abril de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Dan Attias
Roteiro: Alex Gansa, Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 47 min.

Você Também pode curtir

12 comentários

Jordison Francisco 31 de outubro de 2020 - 14:44

Ver Carrie tropeçar em uma pequena praça e negociar encontros com seus ativos à meia-noite é sempre mais fiel à sua personalidade. Ela está em seu elemento no campo, acontece que ela não é naturalmente um agente de campo. E os erros que ela cometeu – sem restrições para cumprir a meta – estão prestes a voltar para vida.

O capítulo está jogando charadas à esquerda e à direita se eles querem que pensemos que ela poderia ter tido uma conexão com o torturador que tirou a medicação dela, ou um espião do GRU que tentou danificar a estabilidade de sua pátria por dentro.
Oh, ele é funcionário da Rússia de Putin, tudo bem, e ele é o antagonista da temporada. Ele está tentando manipular Carrie com mentiras e vai usar sua vulnerabilidade para tentar chegar ao objetivo da sua missão de alguma forma.

A série e Yevgeny estão posicionando-o, por enquanto, como um aliado, agora Carrie e nós seríamos tolos em acreditar nisso. Embora eu acredite sinceramente que ele impediu seu suicídio (seu flashback embaralhado confirma tanto), é apenas porque ela era um ativo entregando informações acionáveis. Se ela não se lembra de ter contado a ele sobre sua maior vergonha de quase afogar Franny, então ela também poderia ter dito a ele o mesmo distraído que ainda foi misteriosamente assassinado há alguns meses.

O momento ocorre porque Carrie finalmente encontrou a pequena caixa preta (embora seja realmente vermelha) com a verdade sobre ela. Percebendo que esta é uma arma do tamanho de uma bomba atômica no mundo da inteligência, ela imediatamente se aproveita de um relacionamento que ele só insinuou. Ele responde com entusiasmo em espécie.
Nem por um momento eu acho que Carrie ou Yevgeny realmente acreditam que eles poderiam estabelecer sua própria “rede privada” entre a América e a Rússia. Foi a última e desesperada jogada de Carrie diante da derrota inevitável. Enquanto que a reação de Yevgeny sugere que há algum sentimento entre o ex-captor e o prisioneiro.
Portanto, Yevgeny fez Síndrome de Estocolmo com Carrie, assim como Abu Nazir fez lavagem cerebral com Brody.

Ver Carrie tentar transformar essa admissão em uma força com Yevgeny em seus braços ecoou quando as coisas desmoronaram durante sua operação contra Nicholas Brody na 2ª temporada. Ela vê a areia evaporando sob seus pés e que o tsunami é iminente, e ela ainda tenta perseguir a onda. Enquanto com Brody ela tinha Saul, Max, e a CIA na outra sala, agora ela está sozinha e Yevgeny, deixa Carrie no hotel não foi a troca de nada – E aquele beijo foi só para tirar uma casquinha de uma linda agente americana.

Primeiro ele a droga, depois rouba o gravador de voo, e finalmente ele a deixa em um quarto de hotel para o cliffhanger. Está claro que também se aplica ao ”relacionamento” de Yevgeny com a Carrie na única direção que poderia: controle, manipulação e traição.
Totalmente diferente da mútua conexão verdadeira de Brody por Carrie

Responder
Jordison Francisco 26 de outubro de 2020 - 21:40

Os funcionários que sofrem com a síndrome do impostor sofrem de esgotamento emocional, o que leva a um conflito entre o trabalho e a vida familiar e a insatisfação com este último. Embora a ideia de que um problema no trabalho possa afetá-lo em casa possa parecer surpreendente, os pesquisadores esperam que os resultados finalmente adicionem “legitimidade para discutir o fenômeno impostor como uma importante questão de desenvolvimento de talentos”.

E espero que esse comentário sobre saúde mental adicione legitimidade à conversa sobre a síndrome do impostor de forma mais geral.

Para muitas pessoas que sofrem de síndrome de impostor e a consequente exaustão, conflitos emocionais e autodúvida de fim de carreira, Carrie Mathison é uma evidência de que as pessoas podem não apenas subir para as fileiras mais altas de sua nação, e que elas podem proteger seu país, defender o público e criar uma criança como a Franny enquanto lutam contra uma grande doença depressiva e os efeitos colaterais dos medicamentos prescritos que alteram a mente.

Os escritores e produtores têm sido meticulosos em sua representação. Até mesmo os medicamentos prescritos (clozapina, lítio, nortiptyline, clonazepam) são realisticamente apropriados, bem como os efeitos colaterais. Isso é usado por Carrie para administrar a sua depressão bipolar.

Acontece que a personagem também sofre SÍNDROME DE IMPOSTOR – saiba mais nesse link https://www.huffpostbrasil.com/2014/04/07/7-sinais-de-que-voce-e-uma-das-vitimas-da-sindrome-do-impostor_n_5106396.html

Responder
Joly81 16 de abril de 2020 - 08:26

Muita gente abandonou essa série depois da morte de Brody. É estranho, porque ela se renovou de uma forma tão incrível ao longo das temporadas e muita gente largou.

Responder
planocritico 16 de abril de 2020 - 13:09

Até entendo largar a série no final da “Trilogia Brody”, mas quem fez isso realmente perdeu uma renovação e uma reinvenção incrível!

Abs,
Ritter.

Responder
Lucas Rodrigues 12 de abril de 2020 - 15:54

Finalmente, depois de uma longa maratona de 8 temporadas, fiquei em dia com a série e vou conseguir acompanhar os últimos três episódios semanalmente heh. Apesar das conveniências que vc citou, gostei bastante do ep, e essa tá sendo uma das minhas temporadas preferidas.

Responder
planocritico 12 de abril de 2020 - 16:10

Essa temporada tem sido fenomenal!

E que legal você ter ficado em dia! Espero vê-lo aqui para os três episódios finais!

Abs,
Ritter.

Responder
Guilherme Henrique 8 de abril de 2020 - 10:15

Tô achando que o pulo do gato da temporada vai ser o presidente arregarando na hora da ir pra guerra. A cara de que posso te feito merda que ele faz queno Saul diz que poderia ser tudo armação e o John falando por ele se ele achava que o presidente não tinha considerado isso. Depois na sala de crise ele já duvidando do John pq o Paquistão tá movimentado tropas ao invés de recuar.

Responder
planocritico 8 de abril de 2020 - 10:32

Sim, mas ele é tão facilmente manipulável que eu temo que ele seguirá o que o John disser para ele seguir. Mas veremos!

Abs,
Ritter.

Responder
guilhermedc 8 de abril de 2020 - 09:33

Essa temporada realmente está em altíssimo nível e merecia mais atenção do público.

Sobre o episódio, realmente está cansando a constante manipulação da Jenna pela Carrie.. está na hora do troco.

Parabéns pela review, ótima qualidade, como sempre..

Responder
planocritico 8 de abril de 2020 - 10:26

Tomara que Jenna dê o troco!

E obrigado!

Abs,
Ritter.

Responder
Camilo Zahar 8 de abril de 2020 - 00:53

Obrigado por comentar os capítulos. Quase ninguém que conheço assiste a série neste momento. Não tenho com quem compartilhar.
Parabéns pelos seus posts, bons e precisos.

Responder
planocritico 8 de abril de 2020 - 02:07

Obrigado! Essa série merecia mais atenção!

Abs,
Ritter.

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais