Crítica | Homeland – 8X09: In Full Flight

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Já começa a ficar constrangedor ver Jenna ser enganada por Carrie. Sim, eu morri de rir com a protagonista engrupindo a agente da CIA mais uma vez (alguém está contando?) para que ela revelasse o esconderijo dos soldados que a estavam caçando, mas confesso que meu lado de crítico chato já começa a ficar cansado do expediente e, mais ainda, de tornar minha suspensão da descrença ainda mais elástica para acomodar uma personagem tão facilmente manipulável como Jenna. Sei que é um detalhe no episódio, mas o fato é que ele ficou muito saliente como um momento importante dentro do roteiro escrito pelos próprios showrunners.

Seja como for, o foco de In Full Flight foi a desesperada procura de Carrie pela caixa preta do Chalk Two, helicóptero onde estavam os presidentes americano e afegão, em Kohat, vilarejo paquistanês que nada mais é do que um enorme bazar onde se vende todo tipo de equipamento bélico imaginável. Com a ajuda do prestativo Yevgeny, Carrie, que faz jogo duplo o tempo todo, revelando apenas o que é estritamente necessário para que ela cumpra sua missão, acaba encontrando o tão cobiçado aparelho em uma sequência que dependeu demais de coincidência para meu gosto. Afinal, considerando a quantidade de lugares possíveis para ela encontrar a sacola de Max, Carrie esbarra nela praticamente na primeira loja em que entra, passeando por filas de prateleiras repletas dos mais variados artigos como se estivesse em um supermercado bem abastecido pré-Coronavírus.

Apesar de essa ação em Kohat ter sido bem conduzida em termos de tensão, com a direção de Dan Attias trafegando bem entre câmera tremida para dar a impressão de documentário e tomadas mais gerais, com cortes paralelos para a perseguição monitorada pela CIA em Cabul, o peso da conveniência narrativa é grande. Deveria ter sido muito mais difícil e perigoso para Carrie encontrar a caixa preta naquele mafuá repleto de figuras ameaçadoras e não algo reputado à pura sorte (ok, não foi exatamente apenas sorte, mas vocês entenderam). Compreendo a necessidade de correr com a narrativa, já que a série está em sua reta final, mas fica evidente que sacrificaram realismo em prol da economia de alguns minutos.

Por outro lado, foi alvissareiro notar que o já mencionado jogo duplo de Carrie teve como resposta a revelação do jogo duplo de Yevgeny que finalmente revela suas garras (apesar de mostrar afeição que reputo genuína pela ex-agente da CIA), aproveitando-se da oportunidade para levar embora a caixa preta com objetivo ainda incerto, mas que certamente tem relação com a proximidade russa com os talibãs e/ou Paquistão e/ou Afeganistão, dependendo do interesse em fazer a vindoura guerra parar, ao revés, concretizá-la. Presumo que muito dos três episódios finais serão dedicados à caçada de Yevgeny e ao conteúdo da caixa, agora que Carrie e nós agora sabemos que tudo não passou de um acidente, algo que pode mudar a política agressiva do presidente marionete americano, ainda que eu tenha poucas esperanças de que essa informação chegará a tempo ou, se chegar, não será descartada como desinformação.

Falando no presidente americano, está aí um personagem que dá vontade de pular na tela para esmurrar. Que sujeito mais sem personalidade! E isso quer dizer, claro, que esse lado da macro-política está funcionando muito bem, com uma ótima atuação de Sam Trammell, especialmente no meio do fogo cruzado entre os personagens de John Zabel e Saul Berenson, com um David Wellington murchinho e completamente desesperançoso em seu canto. Continuo um pouco desapontado com a forma como Zabel entrou na série, como tive a oportunidade de abordar na crítica do episódio anterior, mas sua presença tem valido a pena nem que seja para nos deixar fumegando de raiva.

Aliás, irritante também é a postura “sou o maioral” de Jalal Haqqani, aproveitando-se da execução do pai para arvorar-se como assassino de presidentes e reunindo um exército de talibãs grande o suficiente para assustar até mesmo a fria e pragmática Tasneem Qureishi. A panela de pressão está prestes a explodir e tudo andou tão rápido que isso acaba só reforçando minha conclusão de que a informação da caixa preta, se um dia vier à luz do dia, não terá força para impedir a detonação.

Apesar de In Full Flight ter sido o episódio mais fraco da temporada até agora em razão de suas conveniências narrativas, isso não quer dizer muita coisa, pois o nível do que vem sendo apresentado é altíssimo. Foi apenas um rápido soluço que, espero, a trinca final de episódios mais do que compensará.

Homeland – 8X09: In Full Flight (EUA, 05 de abril de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Dan Attias
Roteiro: Alex Gansa, Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy
Duração: 47 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.