Crítica | Homeland – 8X11: The English Teacher

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Para que o espectador de Homeland aprecie esse final, Howard Gordon e Alex Gansa pedem algo arriscado que nem todo mundo estará disposto a aceitar: a existência de um agente duplo de Saul Berenson no Kremlin desde antes da queda do Muro de Berlim que passou a ser o centro da narrativa aparentemente da noite para o dia, nos estertores da longeva série baseada na israelense Prisioneiros de Guerra. E é sem dúvida algo substancial e ousado de se pedir, mas que, devo confessar, a cada vez que penso, funciona melhor para mim.

É importante primeiro lembrar que a grande – e brilhante – jogada dessa temporada final é criar um movimento circular que encerra a série da maneira que ela começou, ou seja, colocando alguém importante como alvo de profunda desconfiança. A Trilogia Brody trabalhou esse tema sensacionalmente e, agora, é uma perfeita homenagem que a própria Carrie Matheson, depois de passar meses em prisão russa, tome o lugar de Nicholas Brody, por assim dizer. No entanto, para fazer esse tipo de trama funcionar ao longo de apenas uma temporada, era necessário trazer uma cortina de fumaça que funcionasse como a aparente história principal, de maneira que o verdadeiro foco da temporada parecesse, apenas, uma narrativa paralela.

Nesse cenário, não haveria nada mais relevante do que abordar o eterno tema macro da complicada situação geopolítica no Oriente Médio que não só foi capaz de trazer elementos inacabados da quarta temporada da série, como tornar tudo muito mais difícil com a morte dos presidentes americano e afegão e com a entrada de um novo e facilmente manipulável presidente dos EUA que cai na conversa da escalada de beligerância. Há substância na forma como a história progride, com os roteiros não economizando na maneira como esse assunto é, na verdade, um grande e complexo tabuleiro de xadrez em que cada movimento que sequer pareça minimamente errado pode desencadear uma guerra.

A manipulação de Carrie por Yevgeny Gromov entra justamente aí, como uma oportunidade sendo usada pelo agente russo para descobrir a identidade de um agente duplo que o alto escalão do Kremlin tem certeza que existe. Parece ser algo que caiu de paraquedas, não é mesmo? Pois foi o que achei também, mas, como tive oportunidade de abordar na crítica anterior, o chamado endgame russo simplesmente não poderia ser revelado antes, o mesmo valendo para a existência – ou não – de um agente profundamente infiltrado por Saul. Esse é o jogo de espiões por excelência e era necessário algo realmente grande e vital para fazer com que Carrie traísse seu mentor e a única pessoa que ainda confia nela no mundo.

E é por isso que, mesmo mantendo uma pontinha de estranhamento sobre a confirmação da existência da tal agente dupla – a tradutora do Kremlin -, com direito até a flashbacks para 1986 para revelar como tudo aconteceu como se fosse um retcon (e é, vamos combinar), acabei gostando muito do que The English Teacher colocou na mesa. É perfeitamente crível que Saul Berenson tenha um agente assim (e isso se não tiver outros mundo afora) e é perfeitamente crível que nós, espectadores, nada soubéssemos sobre ela desde o início da série. Afinal, temos sempre que lembrar que Homeland não é sobre Saul, mas sim sobre Carrie e, se já cansamos de aceitar convenientes contatos de Carrie em todo lugar que nunca antes tínhamos ouvido falar, porque não de Saul? Repito: era necessário algo realmente profundo para fazer Carrie trabalhar para os russos e a temporada entrega justamente isso.

Claro que a reviravolta final é a cereja nesse bolo, uma cereja perfeitamente lógica que torna a conexão de Carrie com o russo ainda mais profunda e aterradora. Gromov já sabia de tudo o que Carrie conseguiu descobrir em uma questão de 48 horas – não poderia ser diferente, já que eles tiveram décadas para trilhar esse mesmo caminho – e seu objetivo verdadeiro não era necessariamente localizar a agente dupla, mas sim neutralizá-la e, para isso, a morte de Saul, que legaria seus contatos à Carrie que, então, simplesmente pararia de utilizá-la (caso não a entregasse), é o véu final sendo levantado. Diria que o encadeamento interno estabelecido no roteiro de Patrick Harbinson e Chip Johannessen é, mais uma vez, perfeito.

Para colocar isso na telinha, a direção de Michael Cuesta construiu um episódio tenso que faz uso de montagem paralela para permitir que os pontos-de-vista de Carrie e Saul se encontrem. Ela sabe que ele realmente tem um agente infiltrado no Kremlin e, mais do que isso, ele sabe que Carrie está atrás dele, pois Saul muito provavelmente deduziu tudo a partir da mensagem deixada por sua agente. A forma old school como Cuesta carrega a narrativa, pegando emprestado muitos elementos de filmes de espionagem dos anos 70 e 80, com tensão crescente e revelações atrás de revelações, acaba resultando em um dos grandes episódios da temporada que, porém, só realmente funcionará se o espectador aceitar o que Gansa e Gordon pedem.

Se Carrie vai levar a cabo o plano como Gromov pediu, não saberia dizer. Acho improvável e gostaria de ver uma virada de mesa, mesmo que isso significasse – e seria corajoso dos showrunners – a morte da protagonista, algo que reforçaria ainda mais o paralelo com Brody. A única coisa certa para o derradeiro episódio, porém, é que todas as cartas estão na mesa e que, portanto, tudo pode acontecer.

Homeland – 8X11: The English Teacher (EUA, 19 de abril de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Michael Cuesta
Roteiro: Patrick Harbinson, Chip Johannessen
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy, Tatyana Mukha
Duração: 52 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.