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Crítica | Homeland – 8X12: Prisoners of War

por Ritter Fan
43 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há spoilers. Leia, aqui, as críticas das demais temporadas.

Depois de 96 episódios em oito temporadas ao longo de nove anos, Homeland chega a seu fim com um encerramento que tem sua mira apontada para a profunda relação de amizade, confiança e dependência entre Carrie Mathison e Saul Berenson, mergulhando no lado sombrio, mas emergindo do outro lado com uma mensagem surpreendentemente positiva, mas não – que fique bem claro – feliz. A série acaba não com explosões ou tiroteios, mas com uma abordagem humana de dois personagens muito bem desenvolvidos ao longo de todo esse tempo e, também, fechando o círculo temático inicial sobre as dúvidas em relação a Nicholas Brody.

O momento mais importante de Prisoners of War – o título é uma homenagem à série de Gideo Raff que serviu de base para Homeland – é, sem dúvida alguma, o embate verbal entre Carrie e Saul que começa com Réquiem, de Mozart, abafando a conversa e marcando seu tom. A missa fúnebre do compositor austríaco não só é uma de suas peças mais conhecidas, como também é sua última, com ele falecendo antes de terminá-la, o que ficou ao encargo de diversas outras pessoas. A morte é o tema, mas a sucessão é o verdadeiro pano de fundo narrativo que justifica a música. Carrie, como uma filha deserdada, é expulsa de casa por seu “pai” Saul, depois que ela exige o impensável.

Toda a operação que segue desse ponto mantém a morte à espreita, com uma tensão palpável no ar, mas a morte que vem não é a de Saul ou mesmo a de Carrie, mas sim da espiã Anna Pomerantseva, a intérprete russa vivida por Tatyana Mukha e que foi introduzida apenas no episódio anterior. Ela é como o sacrifício necessário para criar peso dramático, ainda que seja difícil o espectador ter conseguido criar uma conexão muito grande com ela em tão pouco tempo. Mas a morte de Anna é a chaga necessária para destruir de vez a conexão de pai e filha entre os protagonistas e aí sim criar um drama perfeitamente relacionável e aplaudível, com Claire Danes e Mandy Patinkin simplesmente merecendo aplausos por suas participações finais na série. Aquele “vai se f@d&r” que Saul, paralisado em sua cama, diz para Carrie ainda lutando para executar um plano que não inclua a morte de seu mentor, é doloroso, penetrante e destruidor, assim como a dor palpável de Saul quando ele é praticamente obrigado a ouvir o suicídio de Anna em uma situação impossível.

O episódio – assim como a série – tem como um de seus temas principais os sacrifícios necessários nas mais diversas situações, especialmente por seu país. Vimos as mortes de personagens inesquecíveis como a recente de Max Piotrowski, a dolorosa de Nicholas Brody, a lenta e terrível de Peter Quinn e a vingativa de Fara Sherazi e, aqui, essa mensagem é reiterada diversas vezes, especialmente no momento em que Saul, pesando a balança, afirma de maneira muito parecida a que o próprio John Zabel faria, que o o conflito com o Paquistão, por ser regional, é mais “aceitável” do que ele perder uma valiosa espiã no seio de uma nação que vem constantemente minando a democracia. Pesado, difícil de aceitar de primeira ou mesmo de segunda, mas a verdade é fria assim mesmo. Não é que Saul preze pessoalmente Anna acima de tudo, mas sim que sua posição é mais importante do que as dezenas – ou centenas – de milhares de vidas (como Carrie diz, desesperada) que um conflito com o Paquistão geraria.

Se Jenna largou a CIA em The English Teacher por não suportar o que ela vira até então, a lógica mortal de Saul provavelmente a fulminaria imediatamente. Carrie, lá no fundo, entende e até concorda com o raciocínio, mas seu objetivo maior – e aí vem o lado emocional forte da série – é salvar seu amigo, mentor e pai. Seu plano complexo e arriscadíssimo que envolve deixar Saul à mercê de dois soldados do G.R.U., uma viagem à Cisjordânia para enganar a irmã de Saul (Jacqueline Antaramian voltando para uma ponta) e finalmente conseguir forçar a “sucessão” que revela o nome da espiã é um daqueles momentos inspirados que a série sempre costumou trazer, mas que exige um bom grau de suspensão da descrença para tudo ficar perfeitamente encaixado. São tantas peças soltas, uma delas a interferência de David Wellington que Carrie simplesmente sequer tinha como contar, que racionalizar muito pode estragar a experiência, pelo que minha forte sugestão é capturar e absorver sua essência: Carrie muito claramente preferiria morrer a matar Saul ou deixar que ele morresse.

E esse sacrifício inclui não mais ver sua filha. Ela sabe que nunca mais poderá voltar para seu país, ela sabe que ela é a literal “sucessão” de Anna Pomerantseva agora, já que ela, assim como Mozart, morreu sem completar seu trabalho. Carrie, mais uma vez, entregou-se completamente à sua causa, inclusive usando uma autobiografia – que obviamente é cheia de meias verdades, quando muito – para reiniciar o programa de profunda infiltração que é a mensagem positiva, mas não feliz, do episódio. Sua conexão com Yevgeny Gromov até pode carregar algum quê de romance, mas uma série com uma personagem feminina tão incrível quanto Carrie não poderia se entregar a um final mequetrefe na linha de “e viveram felizes para sempre” e os showrunners sabiam disso. Se sete meses na Rússia pareceu muito, que tal agora o resto da vida dela, conectando-se com os EUA unicamente pela lembrança saudosa de Saul e do eventual show de jazz (com direito à participação de Kamasi Washington!).

Sim, novamente temos que aceitar algo difícil de aceitar. O espertíssimo Yevgeny Gromov, mesmo verdadeiramente (???) gostando de Carrie, jamais a deixaria chegar próximo a informações privilegiadas ou mesmo construir sua própria rede de contatos. Mas, na ficção e nas elipses de dois anos, vale tudo e Carrie também é inteligentíssima, sendo possível – não provável – o cenário criado. Foi uma escolha dos showrunners em trilhar esse caminho mais “bonitinho” e eu, pessoalmente, não o esperava, assim com não esperava que a crise no Oriente Médio fosse debelada com a liberação da informação da caixa preta, mas não é algo que fuja da lógica de Homeland. Além disso, em termos temáticos, é o fechamento circular perfeito e intimista que bebe da Trilogia Brody e de todos os anos de relacionamento entre Carrie e Saul.

Prisoners of War é um encerramento mais do que digno para a saga de Carrie Mathison, uma das mais fascinantes personagens da televisão moderna. Claire Danes e Mandy Patinkin farão falta e Homeland deixará um clarão difícil de ser preenchido. Mas esse é o preço da excelência.

Homeland – 8X12: Prisoners of War (EUA, 26 de abril de 2020)
Showrunner:
 Howard Gordon, Alex Gansa (baseada em série criada por Gideon Raff)
Direção: Lesli Linka Glatter
Roteiro: Alex Gansa, Howard Gordon
Elenco: Claire Danes, Mandy Patinkin, Maury Sterling, Linus Roache, Costa Ronin, Numan Acar, Nimrat Kaur, Sam Trammell, Hugh Dancy, Mohammad Bakri, David Hunt, Cliff Chamberlain, Andrea Deck, Sitara Attaie, Elham Ehsas, Hugh Dancy, Tatyana Mukha, Jacqueline Antaramian
Duração: 66 min.

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