Crítica | Homem Animal: Formas Misteriosas

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SPOILERS!

É compreensível que Jamie Delano tenha empregado muitos esforços para tornar esta sua penúltima parte à frente do Homem Animal uma saga, para todos os efeitos, unicamente familiar. Sim, unicamente familiar. Todas as edições que compõem Formas Misteriosas se passam ou na fazenda de Mary Frazier ou em arredores, com exceção à longa jornada que Buddy faz, perseguindo os Caminhantes Silenciosos, dos quais falarei mais adiante. Para alguns leitores, a conclusão será a mais simples possível: trata-se de uma história chata, arrastada, que não sai do lugar. Mas a não ser que estejamos falando de um leitor que vem procurar emoções à la Preacher em uma revista do porte de Homem Animal, deverá haver o mínimo de entendimento do por quê o autor encolheu o espaço da ação. E o por quê isso faz todo sentido para a narrativa criada desde Carne e Sangue.

A história começa com Sopro Divino, fazendo uma reflexão sobre a velhice e a juventude, momento onde também surge, por aproximação teórica, a discussão sobre vida e morte, tendo a forte senhora Mary Frazier como alguém experiente que vê a juventude, em diversos estágios, deliciando-se com as descobertas ou desperdiçando tempo e oportunidades, como é de praxe. Em paralelo, vemos um acontecimento na escola de Cliff e Maxine. Isso contribuirá para o afastamento de ambos da escola e da comunidade local, isolando-se com a família na fazenda, como animais em uma espécie de arca, sendo Buddy um avatar do Vermelho-Noé aqui. Tanto nesta aventura quanto na seguinte, Jardim Perfumado, temos a excelente arte de William Simpson, primeiro com finalização de Dan Steffan e depois com Simpson finalizando o próprio lápis.

Como eu não gosto muito da arte de Steve Pugh para toda a extensão da revista (o artista é basicamente o responsável pelos desenhos nessa era do Delano), com exceção às histórias que possuem um forte apelo de terror, como acontecera com Carne e Sangue, foi uma bênção ver desenhos diferentes, especialmente em Jardim Perfumado, com a delicadeza do traço de William Simpson ilustrando uma edição de encontros, de sexo, novamente de discussão da vida e apresentação de um conceito que será a marca de toda a saga daí para frente, com destaque para a explicação e primeiro real contato de Buddy com os Caminhantes Silenciosos em Comunhão. Se o enredo já trouxera referências cristãs no começo, com essa edição, foi a vez de juntar elementos xamânicos à realidade. Temos direito até a um belo ritual e retomada do discurso de Presas e Garras, agora olhando para a destruição causada pelo homem através de um ponto de vista íntimo, daqueles que fazem, na medida certa, a sua pegada ecológica. Mesmo assim, esses seres são afetados fatalmente por aqueles que a tudo destroem.

Animal Man (1988-1995) plano critico maxine guaxinim

Maxine e o guaxinim (quase) morto.

Parte de todo esse enredo tem uma interrupção e, ao mesmo tempo, um novo início com a única do Anual #1, publicado em 1993 e intitulado Desajustados; uma história que integrou um evento corrente da DC Comics na época, a Cruzada das Crianças. É neste momento que se estabelece a “loucura” de Maxine, após se encontrar com Jack Rabbit em mais uma das muitas referências literárias utilizadas no arco. Ao longo de todo esse tempo notamos que o texto de Delano procura mostrar variações de perturbações que atingem a todo mundo que mora na fazenda, de Myra e Selene, o agregado casal de lésbicas amigas de Ellen desde o arco anterior até a chegada de Evelyn e Dan, nas edições finais.

Buddy está em processo interno e também externo de evolução de si e de seus poderes; Cliff está em fase de transformação do corpo, da libido e da mente; Maxine, a Asa Pequena, se transforma em um verdadeiro animal e Ellen se desconecta, de alguma forma, de suas “funções maternas”, ponto apresentado nas edições que dão nome ao arco, seguindo-se à tragédia azul e branca de Frio, Muito Frio… e à edição que encerra o bloco, Uma Estranha e Impulsiva Liberdade. O autor consegue mostrar tormentos internos dentro de diferentes fases da vida e sob diversas origens (portanto, esta grande família entre pessoas de sangue e agregados, com idades e backgrounds diferentes vivem seus problemas de maneiras distintas e nós acompanhamos isso) para então fazer com que um tipo quase divino de “seleção cósmica” evolua a todos, faça renascer interna e externamente a quem precisa e faça explodir desejos e gritos internos que estavam presos já há muito tempo (a narração do sexo entre Buddy e Evelyn utilizando apensa metáforas com diferentes animais em seu habitat é genial!).

Existem aspectos da aventura que infelizmente não são bem aproveitados, por exemplo, como uma extensão ou melhor entrelaçamento dos Caminhantes Silenciosos na vida de Buddy — já que eles tiveram tanta importância no início nas edições #64 e 65. Os “olhos de gato” e o fato de Buddy se transformar fisicamente é muito legal, mas são apenas “efeitos colaterais” do encontro, não uma ação real e direta dos Caminhantes. Outro ponto complicado é a morte de Maxine, que seria muito bem explicada no arco seguinte, mas aqui não se situa bem. Eu não desgostei do acontecido, mas pela forma como acontece e pelo resultado final, a morte pareceu apenas uma matéria de choque. Cada momento carregou sua importância e foi, a seu modo, bem escrito e bem ilustrado, todavia, pelo curto período de tempo que durou, a morte não teve exatamente a força que deveria ter.

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Para você que sempre teve curiosidade de saber como ele era, aí está: Deus.

O ponto central de Formas Misteriosas é a movimentação da nossa perspectiva para o divino (ou as muitas formas de divindades), para a evolução e para a transformação dos corpos, seja no físico, seja na mente. Toda a proposta é excelente e carregada de conteúdo filosófico, doses de existencialismo e até indicações de pedagogia e arte. O conceito é bem pensado, mas para aglutinar toda essa gama de referências o autor precisou deixar algumas boas possibilidades pelo caminho, diminuindo aqui e ali a nossa empolgação, que agora caminha a passos largos para o encerramento de mais um importante capítulo, o penúltimo de toda esta jornada. Depois da fase de James Delano existe apenas mais uma, escrita por Jerry Prosser, que ficou na revista até o seu cancelamento na edição #89, em novembro de 1995, quando o primeiro título solo do Homem Animal, depois de sete anos, chegou ao fim.

Homem Animal: Formas Misteriosas (Animal Man Vol.1 #64 a 70 + Anual #1) — EUA, outubro de 1993 a abril de 1994
Vertigo Comics
No Brasil:
Panini, 2016
Roteiro: Jamie Delano
Arte: William Simpson, Steve Pugh, Russell Braun
Arte-final: Dan Steffan, William Simpson, Steve Pugh, Tom Sutton, Rafael Kayanan
Cores: Tatjana Wood
Letras: Richard Starkings
Capas: Dan Brereton, Randy DuBurke, George Pratt, Brian Bolland
Editoria: Lou Stathis, Julie Rottenberg, Tom Taggart, Tom Peyer
239 páginas (encadernado na Panini)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.