Crítica | Homem-Aranha: Longe de Casa (Com Spoilers)

Homem-Aranha: Longe de Casa, foi uma experiência diferente e talvez única para mim, mas, para que o leitor possa entender a razão – e ela está costurada com o que o filme é, pelo que não são balbucios aleatórios de um crítico ancião -, creio que preciso começar a presente crítica com spoilers, que já é mais alongada por natureza (deixa de preguiça!), com uma contextualização necessária sobre o que eu acho do Homem-Aranha em geral e da versão do Universo Cinematográfico Marvel em particular. Mas, claro, quem não tiver interesse é só pular o capítulo a seguir e já mergulhar direto na crítica.

Não é Meu Amigão da Vizinhança

Desde que me começo como gente, lá pelo final da década de 70 (antes disso eu era pequeno demais e, agora, sou velho demais para eu me lembrar pequenos demais…), eu leio quadrinhos de super-heróis. Parei nos anos 90 apenas, voltando nos anos 2000. Mas, na década plus que lia, eu lia com vontade todos os formatinhos da Ebal, RGE e da Editora Abril, além de ter sido lá que comecei minha coleção de originais americanos. Lia absolutamente tudo de todos os mixes publicados, forçando-me em relação a vários heróis, como Superman e Quarteto Fantástico e sofrendo muito com a Legião dos Super-Heróis quase tanto quanto eu sofro para comer alcachofra quando absolutamente necessário, com alguém apontando uma arma para minha cabeça.

Mas eu divago. O ponto é que, apesar de não chegar no nível do herói e grupos mencionados acima, o Homem-Aranha nunca foi meu favorito, como é de muita gente, por razões que eu reconheço serem perfeitamente válidas. Eu gostava bastante, mas não era minha prioridade, ainda que as primeiras histórias dele que eu me lembre ter lido tenham sido as que culminaram com a morte de Gwen Stacy e engataram na Saga do Clone original, narrativas traumatizantes (positivamente!) que eu me lembro com carinho até hoje.

Portanto, apesar de ser decididamente um fã da Marvel – mais do que sou da DC Comics, nunca escondi – posso dizer com uma certa distância e conhecimento de causa que o Homem-Aranha conforme concebido para fazer parte do UCM funciona bem e mantém a essência do personagem. Temos um garoto inocente, atrapalhado, de bom coração tentando lidar com poderes que caíram de para-quedas no colo dele. Essas características são até mais salientes em Homem-Aranha: De Volta ao Lar do que em qualquer outro filme do personagem, sejam os protagonizados por Tobey Maguire, sejam os de Andrew Garfield. Isso não quer dizer que De Volta ao Lar e, agora, Longe de Casa, sejam melhores do que a Trilogia de Sam Raimi, mesmo considerando que Homem-Aranha 3 é fraco. O trabalho original da Sony/Columbia Pictures ainda continua imbatível (ah, só para constar, eu detesto os filmes com Garfield, apesar de gostar do ator).

Mas seria um crime se, depois do acordo que permitiu a inclusão do aracnídeo ao panteão dos heróis do UCM, ganhássemos mais um filme padrão do Homem-Aranha. Era preciso algo diferente, era preciso algo urgente, era preciso algo que empurrasse o Aranha goela abaixo de um universo em andamento já em velocidade de cruzeiro. A substituição da figura paterna do Tio Ben por Tony Stark, que muitos viram como heresia, tem perfeita lógica dentro da estrutura estabelecida e não, o Homem-Aranha não é – NÃO É – coadjuvante em seus próprios filmes. Ele idolatra Tony como os adolescentes de hoje idolatram um monte de porcaria que veem ou escutam (sim, eu sei que vocês idolatram!!!) e isso ressona bem na tecitura DESSE Homem-Aranha. A Marvel Studios trocou o simples “mais do mesmo” por algo um pouquinho diferente, permitindo um Aranha tecnológico (não gosto e odeio especialmente a armadura Aranha de Ferro desde a época dos quadrinhos, mas aceito) e que enfrenta ameaças bem menos urbanas que o Amigão da Vizinhança mais clássico, de tempos há muito passados. E, claro, Tom Holland realmente funciona tanto como o super-herói quanto como Peter Parker (ainda prefiro o Maguire, mas potencialmente porque os filmes que ele estrelou são melhores).

Esse Homem-Aranha é, portanto, o Homem-Aranha que a grande teia narrativa do UCM precisava.

O Estalo de Thanos

Contextualizado o que sinto por esse Homem-Aranha, considerando que já não tenho De Volta ao Lar em boa conta (com exceção do Abutre de Michael Keaton, pois o vilão ficou muito bom), imaginando que o Aranha continuaria mega-ultra-tecnológico (já disse que não gosto disso) e com a premissa do título e das imagens promocionais (não, eu não vi trailer nenhum – cansei de trailer), que faria Peter Parker viajar pelo mundo, retirando-o de Nova York, seu habitat natural, já entrei carrancudo na sessão de cinema, esperando desgostar e pensando, dentre outras coisas, como é que raios o heróis conseguiria se balançar com a teia em Veneza, cidade cujo prédio mais alto deve ter algo como quatro andares. E, em cima disso tudo, como é que seria a abordagem do estalo de Thanos, um artifício narrativo complicado em Guerra Infinita que ficou mais complicado ainda em Ultimato, com a ressuscitação dos que viraram pó cinco anos no futuro (para eles).

Fiquei feliz, portanto, que é justamente por aí que a fita começa, com uma vídeo-homenagem de escola com direito a Whitney Houston que tem como função explicar tudo para nós, espectadores burraldos que não sabemos de nada como o Jon Snow. É que a minha felicidade foi momentânea, quando o que era para ser organicamente inserido na história, virou uma aula de “estalo” interminável e chatíssima que foi criada para quem, enlouquecidamente, entrou para ver Longe de Casa completamente alheio ao que a Marvel Studios vem fazendo há 11 anos. Marvel, anota aí: chega disso, não dá mais para pegar o público na mão e esmiuçar cenas dos capítulos anteriores. Começa logo direto e que as pessoas tomem tenência, oras!

Não, sério, é que não dá para ser assim desse jeito tão amador. O roteiro de Chris McKenna e Erik Sommers tem zero de sutileza e não permite que Jon Watts faça uso eficiente da parte “visual” da palavra audiovisual. E isso não acontece só aqui, que fique claro, já que o que mais Longe de Casa faz é parar tudo para nos explicar o que está acontecendo, como se o filme tivesse a mesma complexidade que uma equação da Teoria da Relatividade.

Mas o pior é que toda a tragédia que vimos lá no começo de Ultimato, com o mundo se recompondo do sumiço, é varrido completamente para debaixo do tapete depois que o vídeo acaba. É, indisfarçavelmente, uma forma de reconhecer o estalo (os estalos, melhor dizendo) ao mesmo tempo afirmando que nada mudou, tanto que tudo está completamente de volta ao normal em todos os lugares do mundo. Se era para ser assim, preferiria que Longe de Casa ignorasse o sumiço e a volta de metade da população da Terra logo de uma vez. Seria bem mais honesto.

O filme auto-consertante

Mas eu sei que eu talvez esteja implicando demais com o estalo. Vamos deixá-lo de lado e abordar o que é realmente peculiar no filme e o que diretamente justifica minhas palavras lá no começo sobre a tal experiência diferente que tive: Longe de Casa é um filme ruim que vai se consertando na medida em que progride. Não, não é um filme que melhora na medida em que os minutos vão passado. Ele realmente se corrige, ou, talvez melhor dizendo, ele é apresentado como um produto quebrado logo no início de maneira que o roteiro possa então arrumá-lo da melhor maneira possível.

Ou seja, o filme faz o que Mystério faz. Quentin Beck, o extravagante personagem vivido por Jake Gyllenhaal (aliás, o ator daria um excelente Homem-Aranha mais velho, hein?) literalmente vende dificuldade para vender facilidade, criando monstros semi-ilusórios que são “derrotados” por sua persona super-heroística com uma bola de cristal na cabeça. E o roteiro é igual. Ele nos vende um filme quebrado, tosco mesmo, para, a partir do plot twist, começar a colocar as peças no lugar novamente.

Vemos Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Maria Hill (Cobie Smoulders) em uma missão no México em que conhecem Mystério que chega para salvar o dia e, providencialmente (só que não), Peter Parker e sua turma estão em uma excursão da escola pela Europa justamente nos lugares em que os Elementais aparecerão. Tudo acontece muito rapidamente, aí incluídos o ataque do monstro de água em Veneza, sua derrota por Mystério, a revelação de que ele vem de outra realidade em que a Terra foi destruída pelo elemental do fogo e assim por diante.

É quase como se estivéssemos vendo uma história em quadrinhos mal-feita, daquelas escritas para cumprir tabela e preencher espaço na revista, com direito até mesmo a quase-romance que se torna romance hesitante que precisa ser marretado na história a cada segundo, mas que mantém MJ (Zendaya) como a coadjuvante do coadjuvante (este é o Ned, vivido por Jacob Batalon, que ganha ligeiramente mais espaço). Nada e ninguém tem passado ou é construído dentro da narrativa de forma crível e tudo é simplesmente jogado ali na tela, com Watts fazendo o que pode para nos enganar, para esperar o grande momento de dar uma de M. Night Shyamalan e alterar o status quo completamente.

Mas Shyamalan, em sua época de ouro, era muito mais sutil e eficiente. Aqui, Watts precisa recorrer ao artifício de entregar algo tão incômodo – como o proverbial bode na sala – que, quando Quentin Beck finalmente olha para a câmera (olha só o texto expositivo de novo!) e conta detalhe por detalhe sobre o como e o porquê de tudo, forçando a barra da suspensão da descrença com aqueles über-drones-fazem-tudo, ficamos meio que aliviados por saber que toda aquela bobajada anterior era só isso mesmo, uma bobajada. Ufa!

O problema é que isso sacrifica desenvolvimento narrativo, quebra a complexidade de Quentin com explicações maníacas e sem alma e descaracteriza Nick Fury e Maria Hill (eu sei que eles são Skrulls, calma!) e nos leva ao clímax todo bagunçado e explosivo em Londres que funciona ao ser a versão de bastidores do ilusionismo do vilão (ou vilões), por ter bons momentos ao levar o Aranha completamente para dentro das ilusões (como acontece antes em Berlim) e, principalmente, por nos levar ao outro plot twist, aquele lá dos créditos (já chego lá). No entanto, visto em si mesmo, o clímax londrino é burocrático e cansativo não só por ser preguiçoso em termos de ação, como por empregar cortes apressados e desnorteadores na linha do trabalho enlouquecedor dos filmes de Michael Bay.

Stark Onipresente Mesmo Ausente

Em meio a isso tudo, que eu vejo basicamente como mais um grande teste para mostrar o valor do Aranha sem ninguém por perto (mas ainda assim cheio de tecnologia) e para levá-lo ao ponto dos quadrinhos originais: o super-herói amigão da vizinhança que é a ameaça público nº 1 de Nova York de acordo com J. Jonah Jameson. Mas voltarei a isso em breve.

O objetivo do filme, em linhas amplas, foi cortar o cordão umbilical que ligava Parker e Stark. Com o personagem que mais sugava dinheiro do orçamento da Marvel Studios morto (até que seja ressuscitado), ele foi substituído pelo fiel Happy Hogan (Jon Favreau) e pela bilionária E.D.I.T.H. (sensacionalmente, a sigla de Even Dead I’m The Hero ou “Mesmo Morto Sou o Herói” – voz de Dawn Michelle King) que permite que Peter comande o mundo inteiro com ordens e um óculos. Ou seja, o cordão umbilical não foi cortado coisíssima nenhuma.

Chega a ser cansativo ver o Homem de Ferro com mais constância até que em De Volta ao Lar. Afinal, há imagens do Ferroso em absolutamente todo lugar do filme e Happy e E.D.I.T.H. inseparavelmente amarrados na narrativa. Até eu achei exagerado e fora de tom, mesmo aceitando que esse Aranha é o pupilo de Stark.

Multiverso ou Não?

O multiverso existe no Universo Cinematográfico Marvel. Está em Agents of S.H.I.E.L.D. e está em Homem-Formiga e, claro, Vingadores: Ultimato. Há a ameça de ele estar presente também em Longe de Casa, mas fica só mesmo ali na ameaça, como parte da história superlativa do mentiroso e enganador Quentin Beck. Com o bem-sucedido Homem-Aranha no Aranhaverso recente em nossa cabeça, o conceito poderia ser interessante, mas isso ficará para uma outra oportunidade.

Ou não.

Afinal, J.K. Simmons, o J. Jonah Jameson da Trilogia de Sam Raimi é o JJJ agora no UCM também. É muito mais provável que isso seja apenas uma referência nostálgica e divertida (além de ser sempre bom ver o ótimo Simmons) do que uma piscadela para o multiverso, mas eu voto no improvável e fico com a teoria de que essa é uma discreta porta de entrada para um Homem-Aranha no Aranhaverso live-action que poderia, quem sabe, fazer o que muita gente quer e reunir os três Aranhas cinematográficos em um filme só (mas eu ainda quero mais, com Nicholas Hammond como o Aranha setentista que lança cordas e Shinji Tôdô como Supaidāman e seu mecha). Sonhar é de graça.

Os Consertos Finais

Mas o filme auto-consertante (ou seria auto-limpante, como os fornos?) continua. Não é só o plot twist que faz com que Mystério seja o vilão que já esperávamos que ele seria que coloca as peças no lugar. Esse trabalho continua com a revelação de que o plano B de Beck, se tudo desse errado, era mudar a percepção do Aranha para o público, algo que um de seus minions consegue facilmente manipulando imagens (Beck avisou o Aranha que as pessoas acreditam em qualquer coisa!) e alimentando-as para JJJ. Está dada a largada para o Homem-Aranha pé no chão, urbano dos quadrinhos originais, como se o próximo Aranha – Sem Lar talvez? – fosse o primeiro filme do Homem-Aranha clássico.

Só que ainda faltava algo. Deu-me urticária o Nick Fury bobalhão do filme desde que ele apareceu pela primeira vez junto com Peter e Quentin. Era impossível aceitar que aquele ali era ele mesmo. E, dito e feito, a última cena pós-créditos (essa realmente lá no final) revela que ele e Maria Hill são, na verdade Skrulls, mas não Skrulls infiltrados como seria possível imaginar, até porque um deles e Talos, o mesmo que vimos em Capitã Marvel, vivido por Ben Mendelsohn que volta em uma micro-ponta tão micro que nem creditada foi. E, em cima disso tudo, ganhamos uma pista da direção geral do UCM: literalmente o espaço, com Nick Fury em uma enorme espaçonave cheia de Skrulls em alguma missão que não consigo nem começar a imaginar qual é. Fase 4, lá vamos nós!

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Homem-Aranha: Longe de Casa é um filme difícil de julgar pela estranheza que causa e pelo ritmos claudicante que as reviravoltas obrigam a fita a ter. Em retrospecto, é sem dúvida divertido ver a obra começar como um filme B mal-pensado  e ir tomando forma na medida que mini-retcons são inseridos e que nos fazem ver que há uma lógica por trás de tudo.

No entanto, essa lógica é canhestra e executada ali no limite do burocrático, exagerando no texto expositivo e tentando costurar um romance que não conecta de verdade em momento algum. Talvez a versão clássica do Aranha funcione melhor, no final das contas. Mesmo assim, a sensação de ter visto um filme estruturalmente diferente e talvez por isso mesmo tanto estranho como memorável (do seu jeito), permanece.

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home) – EUA, 2019
Direção: Jon Watts
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Jake Gyllenhaal, Zendaya, Samuel L. Jackson, Cobie Smulders, Jacob Batalon, Angourie Rice, Marisa Tomei, Jon Favreau, Tony Revolori, Remy Hii, Dawn Michelle King, J.K. Simmons
Duração: 129 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.