Crítica | Homem-Aranha: Longe de Casa (Sem Spoilers)

“Em todo lugar que eu vá, eu vejo o seu rosto. Eu realmente sinto falta dele.”

Em Homem Aranha: De Volta ao Lar, Peter Parker (Tom Holland), pretendendo equiparar-se ao seu mentor, era questionado pelo próprio, Tony Stark, que reavaliava quem era o seu aprendiz: um herói ou um moleque. Já essa continuação, que segue, paralelamente, os eventos de Vingadores: Ultimato, procura perguntar ao garoto se ele sucederá o saudoso Homem de Ferro, que morreu para vencer Thanos. Visto como o encerramento de uma saga, Longe de Casa possui primeiros minutos que se interessam em estabelecer quais perguntas específicas incomodam Parker agora, quais os encargos que ganhou. Nesse sentido, os longas do Homem-Aranha são extremamente parecidos, por sempre retornarem ao questionamento clássico do Amigão da Vizinhança: com grandes poderes surgem grandes responsabilidades. Dado o sacrifício do maior super-herói deste universo Marvel – e que parece não se importar verdadeiramente com todas as outras baixas -, o Aranha precisa compreender o seu lugar no mundo, quer seja como sucessor do Homem de Ferro ou como um mero garoto procurando contar dos seus sentimentos à garota que gosta. Pois, ao mesmo tempo que ameaças monstruosas aparecem, Peter quer somente curtir as suas férias na Europa e aproveitar a oportunidade de passar tempo com MJ (Zendaya). Então quem Parker será?

Assim sendo, essa sequência se enxerga como uma produção sobre aparências, começando pela própria maneira com que o roteiro constrói o arco relacionado ao personagem e o seu interesse amoroso. Jon Watts, que comandou o primeiro filme, retorna na direção e, consigo, também uma opção por tratar o mundo do Homem-Aranha e seus arredores como naturalmente adolescentes. As mesmas temáticas de demais produções parecidas, com questões jovens em seu conteúdo, aparecem – por exemplo, o envolvimento amoroso de um parente, no caso May (Marisa Tomei), com um alguém surpreendente. De novo, o cerne acerca das aparências é notório, constante no modo como o longa inteiro é conduzido – o que inclui as cenas pós-créditos. A premissa, por sua vez, posiciona Parker para, ao invés de simplesmente contar a MJ sobre o seu gosto pela garota, criar um plano mirabolante, com várias etapas para serem percorridas, uma em cada país a ser visitado em sua viagem. Ou seja, temos um estudante que vive em um jogo de ilusões, sem contar para ninguém que é secretamente um super-herói, sem expressar os seus reais sentimentos e, agora, sem saber quem vai ser como super-herói. Com isso, Jon Watts compreende a proposta do seu projeto na grande parte dos espaços narrativos que sugere, criando uma unidade interessante.

Os maiores problemas de Jon Watts moram na coordenação dessa trama com a premissa super-heroica: a aparição de Quentin Beck (Jake Gyllenhaal), posteriormente conhecido como Mystério, e os Elementais. O personagem é um novo super-herói, que veio de uma outra Terra para buscar impedir que os mesmos monstros que destruíram o seu universo acabassem com o nosso. Peter, recrutado por Nick Fury (Samuel L. Jackson), entra em um impasse, que é justamente sacrificar o seu tempo com MJ para auxiliar Mystério a salvar o mundo. No entanto, quando os encontros entre esses personagens por fim acontecem, Longe de Casa não consegue conciliar uma trama à outra, impedindo, por bastante tempo ao menos, que quaisquer das duas engrenem realmente. O início do primeiro ato, contudo, é promissor. Muito carregada, a comédia do longa, que apresenta-se já a partir de seus segundos iniciais – instantes que podem incomodar os mais puristas -,  nasce em consequência da impossibilidade de certas aparências serem mantidas. Uma das primeiras piadas, a exemplo, coloca Peter tentando sentar perto de MJ, apenas para o seu professor, interpretado por Martin Starr, interromper tudo. Já o que acontece naturalmente, em meio a aceitação de quem somos, como exemplifica-se uma gag relacionada ao amigo de Peter, Ned (Jacob Batalon), engata.

Deste jogo de aparências – e que conta até mesmo com Parker usando os antigos óculos de Tony, o que torna-se uma outra máscara ao personagem -, o roteiro não consegue, porém, aproveitar o seu potencial para reviravoltas muito inteligentes. Chris McKenna e Erik Sommers não pensam, ao menos, serem mais espertos que são, porque investem em uma certa efemeridade para suas resoluções. Tais impactos são um tanto bruscos, em contraposição a construções narrativas mega-intrincadas. Por sorte, Watts também compartilha ocasionalmente desse pensamento ansioso, mantendo coesão. Enquanto Mystério prova ser um personagem rico ao cinema, os Elementais, em contrapartida, são criaturas genéricas que não agregam para a criatividade do cineasta em pensar cenas de ação. O próprio uniforme preto que o Aranha usa é totalmente desnecessário, tanto narrativamente quanto visualmente, simplesmente servindo para montar uma piada – mas que, ao menos, é ótima. É com o uso de Beck e os seus poderes, mais para frente, que Watts nos garante que cresceu de uma obra a outra. Fora uma computação não tão extraordinária assim, determinadas sequências imensamente imagéticas são conduzidas pelo cineasta com precisão, pautando-se em transformações espontâneas e contínuas de cenários, empolgando pela urgência.

Uma pena, noutra instância, Longe de Casa privar-se de criar relacionamentos mais complexos ou, ao menos, sinceros. Se para o par romântico do longa antecessor servia uma personagem com poucas camadas – a reviravolta com o Abutre misturada à trama era uma ajuda importante -, reiterar a mesma superficialidade aqui não é um ponto positivo. MJ é uma personagem de uma nota só, numa mistura entre sarcasmo, acidez e introversão, contudo, sempre repetitiva e nunca evoluída. Watts ainda consegue, porém, trazer uma conclusão ao relacionamento que demonstra naturalidade na maneira como retrata um momento importante entre os pombinhos. No entanto, o caminho até essa situação em questão não é envolvente ou priorizado o suficiente. O uso de um coadjuvante “menor” é maior que o uso da menina propriamente dita. De qualquer forma, as máscaras novamente caem, por MJ descobrir que Peter é o Homem-Aranha. Mas para incrementar essa narrativa, o roteiro poderia, quiçá, traçar um núcleo em que o protagonista se comportasse estranhamente para conquistar a garota, então esquecendo de ser si mesmo. Pensando em como vai revelar os seus sentimentos e no presente que vai dar, os planos de Parker, terminando por complicar o que é simples, já insinuem essa proposta, mas que nunca é assumida completamente.

Por se manter coeso em ser um teatro cinematográfico, o longa cresce. Em uma cena crucial, um personagem até mesmo profere um enorme monólogo justamente estando em cima de um palco, em uma performance que soa característica à teatralidade exagerada. E, como comentado, as tais cenas pós-créditos nunca casaram tão bem com a essência da produção que as antecedeu quanto aqui. Mas esse espetáculo das aparências é composto por momentos rápidos e imediatos e não costuras engajantes, ou seja, impactos momentâneos e não progressões de tensão e emoção. Ora, uma das características que Watts melhor constrói é as piadas que se reiteram e entretém sem precisar se renovar, só se repetindo. Como um truque de mágica, no caso, não é suposto de se prolongar por muito tempo, ser mais engenhoso do que aparenta. Nisso, a ansiosa pose teatral termina sufocando qualquer intensidade dramática ou repensamentos mais significativos de arcos, como seriam jornadas emocionais – está mais para arrepios emocionais. Quando o romance da Tia May é mais carismático que o principal, quase uma ilusão em si, temos um problema. Diz mais a cena que toca “Led Zeppelin” do que Beck ou Happy (Jon Favreau) conversando com Peter sobre quem ele é. Lá, compreendemos melhor qual será o lugar de Tom Holland após Robert Downey Jr..

Homem-Aranha: Longe de Casa (Spider-Man: Far From Home) – EUA, 2019
Direção: Jon Watts
Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers
Elenco: Tom Holland, Jake Gyllenhaal, Zendaya, Samuel L. Jackson, Cobie Smulders, Jacob Batalon, Angourie Rice, Marisa Tomei, Jon Favreau, Tony Revolori
Duração: 129 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.