Crítica | Homem-Borracha: Origem e Primeiras Aventuras (Police Comics #1 a 10)

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É quase impossível acreditar que um quadrinho de super-herói da Era de Ouro seja tão absurdamente divertido, ousado, inovador e irreverente quanto este do Homem-Borracha (Plastic Man/Patrick “Eel” O’Brian). Criado por Jack Cole (roteiro, arte, finalização, cores e letras!) na primeira edição da revista Police Comics, em agosto de 1941, o Borracha é o tipo de super-herói que desde o início se mostra diferente na forma de pensar e agir, principalmente por conta de sua origem pouco louvável e um tanto… forçada (em termos morais), mas ainda assim, perfeitamente aceitável dentro do que a revista propunha. Como as primeiras oito edições do personagem tinham apenas 6 páginas — o que certamente contribuiu muito para ser algo leve, hilário e delicioso de se ler, diferente de certos grupos com histórias colossais e chatas, a ponto de nos fazer querer dormir por 28 anos consecutivos — a forma como os roteiros trabalhavam o tempo precisava ser objetiva ao máximo, muitas vezes incorrendo em problemas no desenvolvimento de algumas coisas que, normalmente, precisariam de mais alguns quadros. No entanto, nada disso atrapalha a leitura.

Em Police Comics #1 conhecemos um bandidinho de quinta categoria chamado Eel O’Brian (o apelido “eel“, ou “enguia“, veio bem a calhar quando ele ganhou super-poderes), que durante um assalto à Crawford Chemical Works é surpreendido pela polícia. Seus comparsas conseguem fugir, mas ele acaba sofrendo um acidente e banhado por um mortal ácido tóxico. O autor não explica como Eel saiu vivo daquela situação, mas acreditem: não há absolutamente nenhuma necessidade disso na história. A gente simplesmente não sente falta. Por fazer parte de uma revista chamada Police Comics, as histórias seguiam a regra de temáticas de investigação de crimes e perseguição a diversos tipos de malfeitores, dando aos textos uma sólida conexão com o público, onde o imaginário, o absurdo e toda a base da comédia slapstick e da gag bem programada (uma mistura de técnicas visuais que flertavam com Chaplin, Keaton e Lloyd!) eram rapidamente compreendidos como comuns para este Universo.

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A sensacional arte e letramento de Jack Cole. Nem parece um quadrinho da Era de Ouro!

Para ser muito sincero, em 10 edições, apenas três momentos estranhos e não-digeríveis na concepção dos roteiros são encontrados aqui, o que certamente é um recorde, considerando o mesmo número de revistas de qualquer outro super-herói da Era. Depois do acidente, Eel é resgatado e levado para um monastério, onde acorda e tem uma conversa com um monge bonachão. Descobrindo de maneira muito engraçada que teve sua fisiologia mudada pelo banho de ácido, na fuga do assalto, ele entende que pode esticar e também modelar seu corpo em qualquer forma que deseje (isso é muito importante lembrar, para diferenciá-lo de outros “estica-estica” que apareceriam nos quadrinhos depois.).

Pensando em uma fórmula com os mais conhecidos heróis que detêm poderes semelhantes, Eel é uma mistura de Homem Elástico com Senhor Fantástico [menos a inteligência deste] + o poder do Metamorfo. Ele então resolve viver como um “agente duplo”. Uma parte de sua vida é estar ao lado de bandidos, infiltrando-se nas mais diversas organizações criminosas para descobrir seu modus operandi, seus locais de ação, líderes e peões. Já a outra parte, é dedicada a pegar esses bandidos, sob o manto de Homem-Borracha.

Na segunda edição, entra em cena o Capitão Murphy, chefe da polícia de Mammoth City, New Jersey, base de operações do Borracha. Novamente brincando com o gênero policial e comédia, o autor torna a relação do herói com o Capitão o centro de diversos momentos cômicos, com o irlandês carrancudo se portando de maneira dura na frente do novo membro da Corporação, mas nos bastidores, nutrindo um forte sentimento paterno por ele. No outro ponto dessas relações, temos o fato de que, para a polícia, Eel continua vivo e era um dos bandidos mais procurados em 8 Estados do país, situação que faz suas aparições na cidade serem um Deus-nos-acuda para a polícia, que nunca o captura, obviamente. Ao longo dessas 10 primeiras tramas, vemos o personagem mostrar um senso de humor impagável e um ótimo aproveitamento de situações a seu favor, além de se mostrar bom estrategista e alguém que sabe dialogar e dar uma segunda chance a quem merece, como ele faz com a Madame Brawn e com o homem que teve as mãos amaldiçoadas.

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Quebra de 4ª Parede em 1942? Tem. Monstro Hitler-Musso-Hirohito? Tem também!

O Homem-Borracha foi um sucesso desde o início. Só nessa primeira leva, a Quality Comics aumentou o número da revista de 6 para 9 páginas, começou a colocar o Borracha na capa a partir da edição #5 e passou a imprimir as suas histórias como a primeira da antologia, a partir da edição #9 (antes, era quase sempre a sexta da revista). A partir da edição #25, o Plastic Man seria o destaque absoluto do título e manteria esse posto até a sua última participação nas páginas da Police Comics, na edição #102, em outubro de 1950. E só para constar, a partir de 1944, o personagem ganharia a sua série solo nos quadrinhos, e Jack Cole manteria o excelente trabalho nos roteiros e na arte nas duas revistas (Police Comics e Plastic Man Vol.1).

Com muita irreverência, histórias simples e inteligentes (cheias de deliciosos absurdos e os mais diversos tipos de bandidos, de cientistas loucos a pseudo-Amazonas), quebras narrativas de 4ª parede — exatamente isso que você leu! — e inclusão de histórias que refletiam o seu tempo — a 2ª Guerra Mundial –, colocando-o contra espiões nazistas em pleno território americano, essas primeiras dez histórias do Homem-Borracha é a coisa mais divertida de super-herói que eu já li da Era de Ouro. Uma verdadeira delícia dos primeiros anos da Nona Arte, que tem ainda uma arte, diagramação e letramento absolutamente inteligentes de Jack Cole. Se você não leu, não sabe o que está perdendo!

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A seguir, a ordem das edições, seus títulos originais e as minhas notas atribuídas a cada uma delas. The Origin of Plastic Man (4/5); Duelling the Dope Smugglers (4/5); The Pinball Racket (4,5/5); Crime School For Delinquent Girls (4,5/5); The Return of Madam Brawn (4/5); Case of the Disembodied Hands (4/5); The United Crooks of America (5/5); The Sinister Eight Ball (3,5/5); Satan’s Son Sells Out to the Japs (4,5/5); The Cyclop Caper (4,5/5).

Police Comics #1 – 10 (EUA, agosto de 1941 a julho de 1942)
Publicação original: Quality Comics
Roteiro: Jack Cole
Arte: Jack Cole
Arte-final: Jack Cole
Letras: Jack Cole
Capas: Gill Fox
Editoria: Ed Cronin (edições #1 a 8), Gill Fox (edições #9 e 10)
6 páginas (edições #1 a 8) e 9 páginas (edições #9 e 10)

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.