Crítica | Honey Boy (2019)

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Logo quando Honey Boy começa, uma claquete bate e, como parte das filmagens de um filme (em alusão à Transformers), uma grande explosão arremessa Otis (Lucas Hedges) para longe. Pendurado por um fio, ele fica suspenso no ar, esperando que alguém o retire de lá. Assim, nada mais simbólico do que a autobiografia de Shia LaBeouf já começar com este grande indicativo do que ele pensa de si mesmo: uma grande marionete. 

Por alguns anos, Shia foi como essa marionete para indústria dos blockbusters. Ainda que estrelar filmes como Transformers e Indiana Jones talvez seja um grande privilégio para muitos, é como se esta oportunidade tivesse sido um fardo gigante para o ator. Com o fracasso dessas franquias, ele acabou saindo como um grande bode expiatório.

Procurando cada vez mais se afastar da imagem de um astro do star system, Shia parece estar comprometido a criar uma nova persona através de performances artísticas no mínimo excêntricas. Só para exemplificar, destaco os momentos nos quais ele transmitiu ao vivo um vídeo de si mesmo assistindo a todos os seus filmes em sequência ou quando foi para o Festival de Berlim em 2014 usando uma sacola de plástico na cabeça escrita: “EU NÃO SOU MAIS FAMOSO”.

Aliás, curioso como suas atitudes acabam desembocando em um grande paradoxo. Quanto mais busca fugir dos holofotes, mais ele parece atraí-los para si. Afinal, qual o objetivo de Shia Labeouf? Fazer um filme sobre si mesmo apenas reafirma este caráter dúbio. Todavia, uma coisa é certa: estamos diante de uma personalidade problemática e que, de alguma forma, busca encontrar seu lugar no mundo — tanto no cinema quanto na vida real. Shia não quer ser uma marionete, mas seu próprio mestre, e por isso decidiu escrever um roteiro sobre sua própria história.

A trama de Honey Boy se passa durante dois períodos. No presente, Otis é levado para uma clínica de reabilitação, após ser preso por problemas de comportamento. Naquele lugar isolado, ele passa a escrever um roteiro (o do próprio filme, em uma metalinguagem), enquanto busca entender como seus traumas do passado ainda assombram sua vida. Paralelamente, visitamos a infância de Otis, que já era um ator de sucesso em uma série infantil e que tinha sua carreira era administrada pelo pai, James Lort (Shia Labeouf), um palhaço ex-alcoólatra.

Primeiramente, o fato de Shia estar interpretando seu próprio pai já diz muita coisa. Obviamente, por ser um relato muito pessoal, temos a questão prática de só ele saber como são os trejeitos de sua figura paterna. Por outro lado, há um simbolismo muito grande nesta escolha: se o Shia é seu pai, é como se estivesse dizendo que ele é o espelho daquele homem. Tudo que o ator é hoje acaba sendo um reflexo daquela convivência, seja nos aspectos positivos ou negativos.  

Justamente por isso, o roteiro de Shia — aliado com a sensível direção de Alma Har’el (Bombay Beach) — consegue fugir de um maniqueísmo muito comum neste tipo de produção. Ainda que uma figura extremamente tóxica, a personalidade de seu pai soa muito humana: um homem falho, mas que parece estar sempre buscando melhorar. Mais do que isso, Lort é um retrato de tempo: um veterano de guerra divorciado, com problemas alcoólicos e que parece muito obcecado com a masculinidade de seu filho. Todos esses fatores acabaram se resumindo em um fardo muito excessivo para o próprio Otis criança (um brilhante Noah Jupe): ele tinha de ser um homem melhor do que seu próprio pai. 

Assim, Har’el e a montagem constroem um ritmo muito dinâmico entre presente e passado, refletindo esta ligação de causa-consequência entre as duas linhas temporais. Cria-se um senso de unidade com os paralelismos construídos através dos pequenos gestos. No presente, entendemos o fato do Otis do futuro parar diante de um vaso sanitário porque momentos depois descobrimos que na infância ele era cobrado pelo pai para “urinar que nem homem”.

Por fim, Honey Boy não é uma autobiografia que está preocupada em dar respostas definitivas sobre a formação de seu protagonista (apesar das cenas com a prostituta indicarem bastante a falta de uma figura materna). É possível que nem Shia LaBeouf  entenda completamente o motivo da existência dessa obra, mas, ao fazer cinema sobre si mesmo, e ao interpretar seu pai, é como se ele estivesse expurgando, definitivamente, os fantasmas de seu passado. 

E aqui entra novamente o paradoxo Shia LaBeouf: ao mesmo tempo que esta obra é intimista demais e uma carta de descarrego para seu pai, Honey Boy acaba se tornando um melancólico drama universal sobre uma relação paterna. No fundo, talvez Shia descubra que ele é menos especial do que imagina, e é justamente este autoconhecimento que ajudará uma nova retomada em sua carreira. Desta vez, ele se prova tanto quanto ator e roteirista. 

Honey Boy (Honey Boy) — Estados Unidos, 2019
Direção: Alma Har’el
Roteiro: Shia LaBeouf
Elenco: Shia LaBeouf, Lucas Hedges, Noah Jupe, Byron Bowers, Laura San Giacomo, FKA Twigs, Natasha Lyonne, Maika Monroe
Duração: 94 min.

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.