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Crítica | Horácio: Os Tabloides da Folhinha de S. Paulo (1963 – 1964)

Os primeiros passos de um fofíssimo comedor de alfaces.

por Luiz Santiago
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O Horácio é um dos personagens mais adorados da galeria de Mauricio de Sousa. Criado no ano de 1961, em uma tirinha do Piteco publicada no Diário de Bauru (confira essa tirinha logo abaixo), o T-Rex filhote que come alfaces voltaria a aparecer, já em pompa e circunstância, dois anos depois, na Folhinha de S. Paulo — suplemento para o qual Mauricio foi contratado para escrever e desenhar tabloides. Nos extras da edição que compila todo esse material, intitulada Horácio Completo (coleção absurdamente incrível da editora Pipoca e Nanquim), descobrimos que Mauricio se questionou sobre qual personagem deveria escolher para estampar no jornal, e que sua opção pelo Horácio veio da percepção de que crianças e adolescentes gostam muito de dinossauros, portanto, o Horácio era a melhor pedida. Isso e o fato de ele ser um “personagem diferente”, algo que o autor também estava buscando.

Para esta crítica, eu fiz a seleção das histórias que foram publicadas entre 8 de setembro de 1963 (estreia do personagem na Folhinha) e 16 de fevereiro de 1964. Minha ideia original era publicar um texto para cada ano dos tabloides, mas a página que finaliza o ano de 63 termina com o aviso de “continua…” e este vai aparecendo nas histórias até fevereiro do ano seguinte, por isso que o recorte temporal para o presente compilado acabou englobando os dois anos, e creio que será assim para as próximas críticas também.

Em termos de organização, vale dizer que as primeiras seis páginas ou aparecem com a palavra “fim” no último quadro ou simplesmente sem nenhuma definição. É apenas a partir da sétima história (com data de 20 de outubro de 1963) que Mauricio começou a marcar a serialização das narrativas, adicionando um “continua…” ao final do último quadro. Dessa maneira, temos aqui alguns contos bem curtinhos e outros que avançam por algumas páginas a mais. Infelizmente essas histórias não foram publicadas com um títulos, então vou fazer os comentários para cada uma das tramas indicando a sua data de publicação e falando brevemente sobre os seus enredos.

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Primeira aparição do Horácio (ainda sem nome) em uma tirinha do Piteco (1961).

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Tudo começa com a tristonha aventura de 8 de setembro de 63, onde aprendemos um pouquinho sobre o protagonista: um dinossaurinho que foi criado como filhote por uma aldeia de homens (no final do tabloide descobrimos que se trata da aldeia de Lem, a mesma de Piteco), mas que foi expulso do lugar por “comer demais“. Aqui já podemos tirar algumas conclusões a respeito do personagem: ele não tem pais, ele é um fofo, ele sempre procura fazer amigos, mas sem muito sucesso, e também tenta conseguir o seu lugar no mundo, apesar sempre encontrar empecilhos.

É uma estreia bem-humorada, com um enredo que nos faz adotar emocionalmente o personagem e que mostra a relação de Horácio com os humanos, vendo em Lem um porto-seguro, um lar para onde pode correr toda vez que algo der muito errado… embora seja um abrigo só por mais umas poucas horas. Essa trama inicial dura por 4 tabloides e, nas páginas posteriores, vemos dois eventos que terminam de modo triste para o pequeno T-Rex: o primeiro quando ele tenta se juntar a uma família de pterodáctilos e a segunda quando ele encontra uma dinossaurinha solitária mas que fala pelos cotovelos, sendo impossível viver ao lado dela. Definitivamente o Horário não tem sorte.

Já as histórias de 6 e 13 de outubro formam um pequenino arco isolado, dando sequência ao que vimos nos tabloides passados. A caverna quentinha que Horácio encontrou anteriormente pertence a um animal (um dente-de-sabre) que se chama Sabrino. O tigre espertalhão tentará se aproveitar da inocência do pequeno órfão para descolar um “bom jantar“, mas o acaso acaba salvando Horácio. Já a sequência dessa quase-tragédia mostra o protagonista encontrando um estegossauro chorando e, de forma bem divertida e meio nonsense, acaba “criando” uma “nova espécie” de dinossauro.

Estreia do Horácio na Folhinha de S. Paulo.

O arco que encerra essa parte do compilado (indo do 7º ao 24º tabloide na sequência original), durou de 20 de outubro de 1963 a 16 de fevereiro de 1964, e nesse bloco vemos Horácio, finalmente, encontrando uma família. Três temas principais são trabalhados por Mauricio de Sousa aqui, embora possamos identificar temáticas secundárias em cada página. Ao mostrar um casal de mastodontes cuja fêmea tem o coração mole e sai pegando todo filhote órfão que encontra pela floresta, o autor nos faz pensar em todo processo de adoção, para logo em seguida sacudir esse pensamento com algo bastante macabro: o fato de o “papai” mastodonte jogar os filhotes num buraco próximo, para não ser perturbado pelas crianças.

O segundo grande tema passa a ser desenvolvido quando, já na superfície, Horácio brinca com seu irmão Antão, desenvolvendo habilidades sociais e a administração de seus medos. O T-Rex é um filhote inseguro, que possui baixa autoestima e que numa ocasião específica, sem querer, acaba fazendo com alguém o que algumas pessoas fazem com ele. O fato de desmaiar e depois correr do Niquinho — um feiosinho ainda em estado de lagarta gigante, antes de se tornar uma borboleta — é uma espécie de reafirmação do problema que o leitor vem acompanhando desde o primeiro tabloide do personagem, só que agora protagonizado por quem, até o momento, havia sido vítima da rejeição.

Na parte final do arco Horácio se afasta da família de mastodontes e acaba indo parar perto do “cemitério dos velhos” que a mamãe tinha lhe dito. Os “macacos” que ali vemos (possivelmente uma representação de Mauricio para os Neandertais) e o tal cemitério dos mastodontes fecham a história com uma macabra chave de ouro, trabalhando abertamente a criação de um mito que força comportamentos questionáveis por parte de um grupo de animais e também a xenofobia e o racismo, quando os fantasmas dos paquidermes falam de pureza racial e que não querem Horácio por perto para não se misturar e “destoar do todo puro“. Nem o tom de humor (igualmente macabro) ao fim da história é capaz de quebrar o peso dessa excelente abordagem do autor, que em poucas páginas e falas conseguiu fazer coisas muito interessantes nos primeiros passos de seu adorado personagem, o verdinho que rapidamente tornar-se-ia o seu alter ego nas páginas dos quadrinhos.

Horácio – Folhinha de S. Paulo (Brasil, 8 de setembro de 1963 a 16 de fevereiro de 1964)
Compilado em:
Horácio Completo – 1963 a 1969 (Brasil, agosto de 2021)
Roteiro: Mauricio de Sousa
Arte original: Mauricio de Sousa
Cores originais: Mauricio de Sousa
Arte complementar: Sidnei L. Salustre
Arte-final complementar: Kazuo Yamassake, Marcos Paulo da Silva, Reginaldo S. Almeida
Assistente de arte e cor: Adriano Nunes, Henderson Nunes
Editora: Pipoca e Nanquin
32 páginas (apenas o recorte selecionado para esta crítica. O volume inteiro tem 306 páginas)

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