Home TVTemporadas Crítica | How To Get Away With Murder – A Série Completa

Crítica | How To Get Away With Murder – A Série Completa

por Leonardo Campos
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Parte integrante do eixo dramática da produtora Shonda Rhimes, a mesma criadora das séries Scandal e Grey’s Anatomy, How To Get Away With Murder foi uma série que ao longo de suas seis temporadas, exibidas entre 2014 e 2020, debateu questões muito próximas ao que o filósofo marxista Gramsci refletiu sobre a palavra-conceito sociedade, salvaguardadas, obviamente, as suas devidas e necessárias proporções. Criada por Peter Nowalk, tendo a Shondaland apenas na produção executiva, a série distribuída pela ABC e protagonizada por Viola Davis colocou em xeque qualquer virtuosidade imaginada pelos cidadãos em relação ao sistema judiciário cada vez mais corrompido por relações internas que envolvem trocas de favores e apodrecimento de qualquer fragmento de ética e moral, numa onda devastadora que suprime a oxigenação de quem não coaduna com os mecanismos que engendram as suas estruturas.

Juízes, governadores, cidadãos comuns, advogados de defesa, promotores judiciais, enfim, todos os envolvidos nas malhas do Direito precisam saber exatamente quando entrar e sair das diversas situações, muitas vezes tendo que sujar as mãos numa causa questionável em prol do mínimo grau de justiça possível. É exatamente neste ponto que, vindo de uma formação filosófica, entrelacei as tais considerações de Gramsci sobre sociedade, espaço repleto de obstáculos que pedem, constantemente, mudanças nas táticas e estratégias dos envolvidos em cada caso apresentado ao longo das temporadas de 15 episódios da série How To Get Away With Murder, produção de grande importância no que tange aos processos de determinadas visibilidades político-culturais, bem como no que diz respeito ao eficiente exercício narrativo dos realizadores, conectados com as demandas do entretenimento audiovisual contemporâneo.

Isso, no entanto, não impediu a série de apresentar inconsistências entre uma temporada e outra, sendo o auge do desgaste o seu terceiro ano, moroso e falho, fôlego recuperado nos anos seguintes, ainda impactantes, mas sem o brilho das duas temporadas iniciais, com exceção da fase final, trilhada com equilíbrio pelos realizadores que fecharam os arcos dos personagens de maneira dramaticamente digna. Dentre várias participações especiais, convidados com arcos mais prolongados que o previsto e uma quantidade considerável de coadjuvantes e outras presenças passageiras, How To Get Away With Murder é o drama de Annalise Keating, interpretada com respeito e total entrega por Viola Davis até mesmo nos anos menos empolgantes. Em sua posição de esposa, professora, advogada, mulher negra, bissexual, filha de um lar abusivo, dentre outras alcunhas que amalgamam a sua definição enquanto cidadã estadunidense em constante batalha contra as brechas de um sistema judicial corrosivo, a personagem de Davis é o ponto nevrálgico de onde os conflitos da série são catalisados.

Professora de Direito Criminal na Universidade de Middleton, na Filadélfia, Anna Mae Karness é uma docente que tem como metodologia ativa de ensino e aprendizagem, a confrontação dos estudantes em situações próximas, simulações do real, ou até mesmo casos que ela cuida enquanto divide o tempo com a sala de aula. A sua estratégia de premiação envolve a possibilidade de trabalhar em seu escritório, algo que permite o surgimento do Keating Five: Wes Gibbins (Alfred Enoch), Connor Walsh (Jack Falahee), Michaela Pratt (Aja Naomi King), Laurel Castillo (Karla Souza) e Asher Millstone (Matt McGorry), estudantes que serão supervisionados por Bonnie Winterbottom (Liza Field) e Frank Delfino (Charlie Weber), ambos absurdamente conectados aos esquemas pessoais e sociais que regem a vida da advogada. A história deste grupo, proporcionadora de diversas idas e vindas temporais do primeiro ao sexto ano, desintegra crenças e outras narrativas que determinaram a vida de todos durante tanto tempo. Ao se envolverem com o assassinato de Sam Keating (Tom Verica), marido infiel de Annalise, todos adentram num turbilhão de emoções, crimes, perdas e muitos danos.

Ainda compõem a linha de frente deste grupo: Oliver (Conrad Ricamora), companheiro de Connor, inicialmente um caso qualquer do jovem promíscuo, e Nate (Billy Brown), detetive que coloca a sua carreira em risco várias vezes para atender aos anseios de Annelise Keating em sua busca por resolução de muitos problemas que na verdade ela sequer arranjou, mas foi indiretamente colocada, haja vista a falta de equilíbrio dos jovens mencionados, regidos muito mais pela emoção, em detrimento da racionalidade que internamente causa danos, mas permite que certas coisas sejam colocadas em seu devido lugar nas aparências do cotidiano. Desde o primeiro ano, um pacto é selado entre os envolvidos, algo que de maneira circular, parece fazer volta-los a se reencontrar em diversos outros casos que surgem no caminho de Annalise e de seus seguidores. Em todas as temporadas, geralmente há um caso principal central, acompanhado por várias tramas que derivam deste epicentro ou surgem como distrações para atrapalhar os personagens.

É a dispersão em nome da tensão, trabalhada adequadamente pela edição da série, em sua maioria, assinada por Matthew Pevic e Chris Lorusso, montadores de 20 e 10 episódios, respectivamente, dos 90 dispersos ao longo dos seus anos de produção que contou com o trabalho musical de Photek, o compositor do empolgante tema principal. Outro setor importante para a concepção dos personagens em How To Get Away With Murder é o design de produção, majoritariamente sob a assinatura de Mayling Cheng e Charles M. Logola, eficientes na construção dos espaços por ondem circulam os personagens ora trajados elegantemente, tendo em vista transmitir o devido respeito nos tribunais e demais ambientes de patrulhamento do “poder”, ora despidos de qualquer figurino ou adereço que não os transformem em seres humanos comuns, imbuídos numa rede de situações complexas e difíceis de se deslocar. Com participação especial da figurinista veterana Ellen Mirojnick em um episódio, os figurinos foram concebidos, em sua maioria, por Linda M. Bass e Lyn Paolo, ambas competentes e eficientes.

Para fazer dar certo, os realizadores de How To Get Away With Murder contaram com a direção de fotografia bastante cuidadosa na peculiaridade das paletas entre flashbacks e flashfowards, parte da concepção estética da série, uma marca forte em seus 90 episódios. Jeff Jur e Michael Price, veteranos na televisão, assumiram boa parte das temporadas, num setor essencial também por sua iluminação e angulação, próprias para a sustentação ideal das estruturas dramáticas dos episódios bons e dos momentos razoáveis ou abaixo disso. A estética, cabe ressaltar, nunca foi problema na série, produção que também teve vantagens ao aderir pela entrega de 15 episódios por temporada, indo na contramão dos longínquos 22 ou 24, mais comuns em outras produções distribuídas pela ABC, estratégia de serialização que acaba dilatando demais os roteiros e permite que alguns programas percam o foco e, consequentemente, a qualidade, preâmbulo para o desinteresse das audiências.

Por falar em audiência, creio que seja importante compreender que a globalização, tal como estudamos na vida escolar, permitiu que a mídia padronizasse movimentos, tipos, etc. E com isso, os estereótipos foram ainda mais pelos grupos hegemônicos, enrijecendo a cultura alheia e transformando em caricatura ou imagem de perigo, os tantos grupos que circulam pelos episódios de How To Get Away With Murder. Tatuados, negros, homossexuais, transsexuais, prostitutas, lésbicas, orientais, latinos, enfim, não há espaço para qualquer elemento que esteja de fora do processo de padronização não apenas da sociedade estadunidense, tensa e intensa em suas discussões, diferente dos brasileiros que vivem o seu fantasioso mito da democracia racial. Constantemente defendidos por Annalise Keating quando mais ninguém acredita no destino destas vidas, em muitos casos, inocentes, colocados para assumir crimes que sequer conhecem adequadamente, algumas vezes sob ameaças, noutras situações, assumidos para absolver quem verdadeiramente está por detrás de uma perigosa teia maior que o imaginado.

Na época da exibição de cada temporada, os espectadores podiam assistir aos episódios e postar em suas redes sociais a famosa sigla TGIT, isto é, Thank’s God It’s Thursday. Era a forma de comemorar o lançamento dos capítulos, parte integrante de uma série que abriu bastante espaço para discussões importantes e também entreter os espectadores com narrativas audaciosas, guiadas pela lógica da Distorção Temporal, termo que hoje também é um conceito cunhado pelo ensaísta Paul Booth em um artigo sobre as estratégias de produção seriadas na cultura contemporânea, uma busca por ampliação de público e disseminação do interesse pelo acompanhamento das narrativas que já não dialogavam com os padrões lineares estabelecidos por outras séries televisivas igualmente interessantes, mas com formatos que não davam conta dos anseios do público por novidade, a eterna sina da cultura do entretenimento. Ou inova ou se torna obsoleto e adentra pelos meandros do indesejável ostracismo. Em alguns casos, essa demanda requer bastante extração da qualidade artística. Noutros, permite oxigenação narrativa e abre precedentes para formas variadas de se contar histórias e magnetizar os espectadores.

Diante do exposto, How To Get Away With Murder pode e deve ser considerada uma série empoderadora. Com alguns momentos excepcionais e outros menos interessantes que o imaginado, a série ousou em seu formato e se tornou uma referência. E nos leva de volta ao que mencionei sobre as considerações de Gramsci para o “termo” sociedade, anteriormente. Em suas palavras, o pensador apontou que a estabilidade de uma tessitura social depende da combinação os poderes hegemônicos que dão conta da dominação e da força, necessárias para a conservação de determinados valores, intactos graças aos esquemas militares, políticos, etc. Tais instâncias ganham apoio de outros segmentos sociais, tais como a escola, as religiões, a mídia, dentre outros, setores que induzem os cidadãos no contrato de anuência com a “ordem dominante”, hegemônica em suas atribuições ideológicas. Ao ler Gramsci em A Cultura da Mídia, o renomado Douglas Kellner traça considerações que coadunam com seu ponto de partida, ao apontar que a sociedade é um conjunto hierárquico de relações caracterizadas pela opressão das classes, sexos, etnias, dentre outros extratos sociais subalternizados há eras.

E é dentro dessa massa imprensada pelo rolo compressor da injustiça que Annalise Keating advoga com proeminência, tendo em vista conseguir ser ao menos justa no mundo que reflete a realidade tal como um espelho, superfície que muito diferente do que se fazia há algum tempo, transforma a sua protagonista numa anti-heroína que sabe exatamente os seus pontos fracos e que esconde, por debaixo da armadura social empoderada, uma mulher cheia de fragilidades e inseguranças, oprimida por um sistema que não a considerada aceitável para uma posição de poder. É no turbilhão de suas demandas psicológicas que Annalise Keating arranja a força necessária para enfrentar esquemas tão imbricados e historicamente cristalizados. Ela é parte de uma sociedade que condena pessoas pela aparência. É a “subalterna que pode falar”, mas que precisa pagar caro por sua bravura. Ela circula pelas ruas cerceadas pela “cultura do medo”, tal como as descrições do cunhador deste termo, Barry Glassner.

Annalise é uma sobrevivente. Por sinal, “extra-diegeticamente” falando também, pois na produção executiva, Shonda Rhimes tratou de se empenhar e dar dignidade a sua protagonista, indo muito além das conhecidas cotas para a participação do elenco negro. A atriz sai do esquema de choro e lamentação do questionável Histórias Cruzadas para assumir o lugar de uma mulher que corrompe e é corrompida constantemente, caso queira sobreviver e salvar ao menos uma pequena parcela de tantas perdas que gravitam em torno de sua existência. É uma série que também permite debates além do tema e da estética, num diálogo com reflexões importantes sobre a cultura da convergência, suporte teórico ideal para compreendermos melhor o consumo na cultura do entretenimento. Detentora do poder da empatia, também discutido teoricamente na área de Comunicação e Dramaturgia, Annalise Keating permitiu, em sua trajetória de seis temporadas, a aproximação com os espectadores que viram nela a batalha atual das mulheres e de outros grupos sociais com projetos de vida minados pelos que sempre detiveram privilégios.

How To Get Away With Murder (idem, Estados Unidos/2014-2020).
Criação: Peter Nowalk
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Viola Davis, Alfred Enoch, Jack Falahee, Aja Naomi King, Karla Souza, Matt McGorry, Liza Field, Charlie Weber, Tom Verica, Conrad Ricamora, Billy Brown
Duração: 45 min (cada episódio – 90 episódios no total)

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