Crítica | Hulk: Círculo Vicioso

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Antes de assumir definitivamente os roteiros da revista Incredible Hulk Vol.1 em maio de 1987, Peter David já havia feito um pequeno teste, na edição #228, originalmente intitulada Piece of Mind (lançada inicialmente como Fragmentos, aqui no Brasil, pela Editora Abril, em 1990). Ao falar sobre a “aposta divina” dos editores Bob Harras e Bobbie Chase quando escalaram como principal roteirista, um novato vindo da gerência de vendas da Marvel, Peter David colocou por terra todos os sonhos dourados em torno da questão. Ele disse que com a saída repentina de Al Milgrom do título, não havia ninguém que quisesse pegar a revista. Sobrava então para o novato de quem a equipe criativa não gostava muito (ele era “o cara das vendas que se metia a escrever roteiros“), e ninguém realmente se importou com sua indicação para o Verdão, afinal de contas, O Incrível Hulk era a revista ‘patinho feio’ da editora, com uma sequência de eventos que era um verdadeiro abacaxi de confusões para descascar. Então Peter David assumiu os roteiros. E passou 12 anos escrevendo para o título.

A reclamação de que “haviam confusões demais na revista“, que fique bem claro, não era sem motivo. Muita coisa havia acontecido com o Verd…Cinzão nos últimos anos, desde a mudança — ou retorno — de cor para… cinza (como ele era na versão original de 1962, por Stan Lee, Jack Kirby e Paul Reinman), até as novas condições de transformação de Bruce Banner em Hulk. Com cor diferente, mais inteligente; com retórica no ponto, muito cinismo e um pouco menos de força, o Golias que Peter David pegou para trabalhar exigia ideias muito boas e um ritmo de narração que prendesse o leitor a tantas e estranhas novidades.

O que mais nos impressiona neste Círculo Vicioso, primeiro arco de David no título, é a forma como o autor joga com as muitas coisas difíceis de se resolverem, tirando sarro delas, retomando-as como motivos narrativos em diferentes edições e por um tempo muito bem medido. E acima de tudo, como o Hulk é de fato retrabalhado aqui. O leitor tem a oportunidade de conhecer novamente o herói, primeiro em sua vida pessoal — num casamento nada exemplar — e depois em sua vida profissional e… genética, que é na verdade o que toma todo o tempo do personagem, deixando a pobre Betty confusa, descontente e compreensivelmente enraivecida. Num primeiro momento, a preocupação do autor é seguir com o ritmo da história e tirar de cena o impasse do Hulk-Rick Jones. Para um leitor desavisado, as primeiras páginas dessa nova fase são uma verdadeira montanha russa, seja pela quantidade de informações não necessariamente muito conhecidas do cânone do personagem, seja pela alucinante linha de ação com a qual o roteirista e um também novato artista chamado Todd McFarlane nos brindam.

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Hulk, o orador.

McFarlane começa ainda tímido na edição Mudança de Lua (Inconstant Moon), mas já na revista seguinte, Dança Com o Demônio (Dance with the Devil), ele se solta em todos os sentidos. Há mais movimentos, mais quadros de ação sob ângulos criativos, grande expressividade dos personagens — especialmente na faceta monstruosa deles, um gosto que o desenhista iria levar até a sua maturidade no mercado — e uma diagramação que obedece ao ritmo da história que está sendo contada, jamais encerrando a narração em um único formato de organização das páginas. Mesmo histórias com participações especiais como X-Factor e os X-Men (ou mais precisamente o Wolverine, rememorando o encontro que teve com o Hulk lá no início da fase do Len Wein) a arte consegue manter o Cinzão em destaque, algo que o roteiro também facilita muito, sem nunca se esquecer das quebras necessárias para falar de problemas da vida real, ligados a Bruce Banner ou não.

Com muito bom humor, realismo nas temáticas transversais à ficção científica e ação à toda prova, Peter David faz uma estreia sensacional como roteirista oficial do Hulk. Seus longos diálogos são graciosos e nunca nos cansam. Sua facilidade em ligar ações similares e resolver problemas com muitas variantes é impressionante. Embora a trama demore basicamente a primeira revista inteira para se estabelecer como um corpo inteligível, do qual podemos tirar uma série de conclusões, todo o restante flui com gosto. Um esmagador início.

Incredible Hulk Vol.1 #331 – 340: Vicious Circle (EUA, maio de 1987 a fevereiro de 1988)
No Brasil: Editora Abril (1990) e Panini Comics (2008 e 2014)
Roteiro:
 Peter David
Arte: Todd McFarlane, John Ridgeway
Arte-final: Kim DeMulder, Pablo Marcos, Jim Sanders III, John Ridgeway
Cores: Petra Scotese
Letras: Rick Parker, John Workman
Capas: Steve Geiger, Jim Sanders III, Bob McLeod
Editoria: Bob Harras, Bobbie Chase
24 páginas (cada edição)

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.