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Crítica | Hulk: Futuro Imperfeito

por Ritter Fan
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Adoro “futuros possíveis” dos universos dos quadrinhos mainstream, mesmo que, muitas vezes, isso seja licença para o roteirista escrever basicamente qualquer coisa. Se hoje essa abordagem é sempre encarada na forma de grandes eventos que ganham muita publicidade e fanfarra das editoras, em um passado não tão longínquo assim isso acontecia de maneira muito mais “discreta”. Na Marvel Comics, apenas como exemplos, temos a clássica Dias de um Futuro Esquecido, publicada em dois números da revista mensal principal dos X-Men e, mais recentemente, O Velho Logan, que “quebrou” a publicação normal da revista solo de Wolverine, ambas não só angariando enorme sucesso como resultando em muita exploração posterior, inclusive inspirando longas-metragens.

Futuro Imperfeito é o dessas duas histórias para o Hulk, em uma minissérie de apenas duas edições, que apesar de não ter tecnicamente interrompido a publicação normal do Gigante Esmeralda, funcionou como um baita de um “parênteses” que arremessa o protagonista para um futuro distópico pós-apocalíptico em que o poderoso Maestro governa a cidade de Distopia (faltou originalidade no batismo aqui) com mão de ferro, aproveitando-se de seu poder para oprimir a população. Quem é Maestro? Obviamente a versão mais velha do próprio Hulk.

Peter David, que era o roteirista do personagem na época, faz mágica na história considerando o diminuto número de páginas que tem. Para isso, no lugar de começar pelo Hulk ou mesmo preocupar-se em criar uma história de origem para Maestro, ele usa seu cuidadoso e econômico texto para já apresentar esse futuro já completamente consolidado, começando sua abordagem pelo ponto de vista de rebeldes liderados por Janis Jones. É assim que aprendemos muito rapidamente sobre essa terrível distopia, com a introdução de Maestro se dando com bastante rapidez e sem que o mistério seja protraído no tempo. É bem verdade que a “maldade” do personagem é mais falada do que vista e isso é, para mim, o único defeito da narrativa, talvez ditado pela literal falta de espaço para desenvolver algo mais abrangente.

Mas David faz algo até arriscado e, diria, mais adulto do que se poderia esperar de uma publicação “comum” da Marvel: seu Hulk, mais do que mal no sentido mais comum de se ver por aí, matando a torto e a direito ou torturando pessoas, é retratado como um sultão lascivo que literalmente tem um harém à sua disposição. É um Hulk mais velho depravado que inclusive usa a promessa de prazer como uma forma de tortura psicológica para seu eu mais novo em páginas bem ousadas sob qualquer base que se analise. Em outras palavras, o roteirista não procura manipular o leitor da maneira mais fácil, gerando asco imediato pela postura doentia de Maestro.

A própria introdução do Hulk – naquela versão mais esguia e inteligente que marcou a fase de Peter David – é bem trabalhada e abordada como fato já consumado que vai aos poucos sendo explicada, com a introdução da versão Matusalém de um importante personagem de sua mitologia e de uma excelente página dupla que, quase que completamente sem a necessidade de balões explicativos, já evidencia a gravidade da situação, com uma belíssima “sala de troféus” com objetos dos mais variados super-heróis e super-vilões da Marvel aniquilados nesse futuro distante. É no trabalho visual que a economia verbal de David encontra eco e empresta a qualidade final que Futuro Imperfeito teria.

Afinal, a arte ficou por conta do incomparável mago George Pérez que, com as cores vivas de Tom Smith, faz mágica nas duas breves edições. Seu estilo marcante fica evidente logo na primeira página dupla da minissérie em que vemos Distopia em toda sua glória tumultuada, com o espaço quase que integralmente tomado por um enorme número de pessoas cientificamente distribuídas no grande e dinâmico quadro que ele cria. É fascinante analisar os detalhes impossíveis do trabalho do artista que não deixa nada inacabado, nenhum plano, por mais longínquo que seja, sem detalhes e tudo fazendo perfeito sentido em meio ao mais completo caos visual.

O Maestro de Pérez é outra criação marcante, com seus cabelos e barbas brancos contrastando com a pele verde e um figurino sci-fi que parece estranho em “um Hulk”, mas que funciona muito bem desde sua marcante primeira aparição já de corpo inteiro. O único defeito na arte é o que ele acaba não tendo espaço para fazer: um embate realmente de gigantescas proporções entre o vilão e o Hulk. O que ele desenha, porém, não decepciona nem um pouco, ainda que falte escala para o que é prometido.

Futuro Imperfeito é um excelente exemplo de concisão narrativa e qualidade artística que entrega uma história simples, mas memorável e um vilão asqueroso, mas inesquecível sem que seja necessário criar eventos complexos, longos e cheios de tie-in. A minissérie de Peter David e George Pérez é um exemplo de criatividade e ousadia que deveria ser seguido mais vezes.

Hulk: Futuro Imperfeito (Hulk: Future Imperfect – EUA, 1992/3)
Contendo: Hulk: Future Imperfect #1 e 2
Roteiro: Peter David
Arte: George Pérez
Cores: Tom Smith
Letras: Joe Rosen
Editoria: Bobbie Chase, Matt Morra, Tom DeFalco
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: dezembro de 1992 e janeiro de 1993
Editoras no Brasil: Editora Abril, Panini Comics
Datas de publicação no Brasil: novembro de 1996 (Abril), agosto de 2003, janeiro de 2014, novembro de 2020 (Panini)
Páginas: 96

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