Crítica | Humpá-Pá, O Pele-Vermelha

Humpá-Pá foi primeiro personagem criado por René Goscinny e Albert Uderzo, os mesmos responsáveis pelo fenômeno Asterix e Obelix. O simpático índio, cujo totem é um puma, foi o protagonista de uma série que contava as suas aventuras ao lado de seu amigo francês Humberto-da-Massa-Folhada (Hubert de la Pâte Feuilletée), também chamado de “irmão escalpo duplo” pelo nativo americano, referindo-se à peruca do oficial francês. A primeira saga de Humpá-Pá foi publicada no Le Journal de Tintim, em 2 de abril de 1958, e embora os autores tivessem um grande carinho pelo personagem, tendo demorado (e insistido) sete anos para conseguir publicá-lo, suas aventuras tiveram vida curta, pois os artistas precisavam de mais tempo para focar nas tramas de Asterix e Obelix.

Sendo esta a primeira história do personagem, temos todos os ingredientes necessários para conhecer o seu Universo (é importante lembrar que mesmo sendo inspirada nos índios Shawnees, a tribo de Humpá-Pá faz parte de uma criação humorística, logo, são esperadas e justificadas as diversas mudanças e exageros para dar espaço ao riso) e o choque com os franceses, representados aqui como covardes (exceto Humberto, que apesar de desastrado é muito corajoso) e indivíduos que não têm a mínima ideia do que estão fazendo naquele território da costa leste e ao norte do que hoje são os Estados Unidos. No fim, esse tratamento acaba tornando parte da narrativa um pouco solta, o que emperra a história em alguns aspectos de ação e comédia, caindo também na insistência em passagens de pouca ou nenhuma relevância para o avanço do texto, como a longa tentativa de matar Humberto, por exemplo.

A trama começa no navio que traz os franceses e basicamente estabelece um momento de apresentação e reconhecimento simples de personagens. Temos a noção de que quanto maior a patente militar, mas sem jeito e medroso é o oficial. Depois, conhecemos Humpá-Pá e rapidamente somos conquistados pela extrema simpatia do personagem. Seu modo “selvagem” é preservado pelo texto, mesmo após o contato com o francês.

Aula 1: espada vs. tomahawk. Aula 2: como caçar o almoço e não ser caçado por ele.

Até o elemento colonizador aqui é colocado em escanteio, pois perde a importância diante da brincadeira que os autores fazem com o impasse gerado pela presença de um europeu entre os peles-vermelhas e depois, pelo aprendizado de costumes e resistência de alguns índios da tribo em aceitar o visitante. A ação, por mais exagerada que seja, é baseada em acontecimentos reais de interação entre brancos e vermelhos na América do Norte, e mesmo que o enredo não tenha a intenção de criticar ou apontar qualquer coisa fora do humor para estes fatos, ele certamente está ancorado em pesquisa histórica.

Até o conflito entre tribos aqui é bem representado, mesmo dentro da comédia, algo bem longe de impasses étnicos questionáveis como o que foi mostrado por Franquin em Spirou na Terra dos Pigmeus, um quadrinho belga lançado no início da mesma década que este Humpá-Pá. Claro que ver os índios “rastreando” da maneira mais boba possível os seus inimigos não é uma boa representação em si, mas isto entra mais no campo do humor do que em uma mostra de ridicularização por parte dos autores, que ao longo de todo o volume representam com bastante carinho os nativos americanos, que realmente ganham o protagonismo da história. O final amistoso e a despedida entre dois amigos é algo bonito de se ver e indica uma relação que teria desdobramentos no futuro, com outros encontros entre “o mais bravo dos bravos dentre os bravos” de sua tribo e o “irmão escalpo duplo” que também não ficaria tanto tempo assim naquelas terras. Uma comédia que fala de amizade e aprendizado entre culturas dentro de um momento bastante peculiar da dominação europeia na América.

Nota sobre a questão das tribos: é importante deixar claro que a versão desta aventura que eu li foi a britânica, lançada pela Egmont/Methuen em 1977. Nela, a tradução diz que Humpá-Pá é da tribo dos Pés-Chatos (Flatfeet/Pieds Plats), que é inimiga da tribo dos Sockitoomee. Esta, inclusive, era a intenção original dos autores quando criaram o pele-vermelha, em 1951. Mas ao que parece a mudança para a publicação de fato, em 1958, trocou a tribo de Humpá-Pá para Shavashavahs (inspirado nos Shawnees) e colocou os Pés-Chatos como seus inimigos.

Humpá-pá deixa Humberto no Fort Issimo.

Se você que está lendo esta nota conferiu a edição brasileira, pela Editora Bruguera, comente abaixo e diga como foi a tradução/escolha editorial para a nomeação das tribos. O fato em si não tem peso na estrutura da trama, mas é uma informação interessante sobre a origem do personagem e, como existem divergências editoriais, nada mais justo do que apresentá-las aqui na crítica, não é mesmo?

Oumpah-pah, le Peau-Rouge (Bélgica, 1958)
Editora original:
Le Lombard
No Brasil: Editora Bruguera, 1962
Roteiro: René Goscinny
Arte: Albert Uderzo
34 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.