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Crítica | “Hybrid Theory” – Linkin Park

por Iann Jeliel
971 views (a partir de agosto de 2020)

I tried so hard and got so far

But in the end, it doesn’t even matter

I had to fall to lose it all

But in the end it doesn’t even matter

Há 20 anos, Linkin Park impunha sua teoria de música híbrida ao mundo, num disco absolutamente transgressor e memorável no mundo do rock. É verdade que os conceitos por trás do nu metal ou alternativo já haviam sido introduzidos anteriormente nos anos 90, mas a mistura proposta por Linkin era algo único, diria que jamais visto antes com tamanho impacto acústico, ao conseguir se comunicar com praticamente todo nicho que caracterizava, incluindo o que seria a tendência futura de cada vez mais uma eletronização da música.

Engraçado que apesar desse disco ser um dos precursores do meu repertório musical, a tendência com ele criada me fez parar no tempo em relação à abertura de novos sons, em especial o eletrônico. Isso porque eu acredito muito que efeitos digitais precisam ser utilizados como recurso potencializador de acordes e vocais, mas nunca tomarem conta deles e se tornarem o elemento principal da música, algo que majoritariamente aconteceu depois na indústria. Felizmente, Joe Hahn acreditava nesse princípio e fazia exatamente o que mandava o figurino, pontuando cirurgicamente as batidas “artificias” em sincronia com as trocas constantes de vocais entre os raps de Shinoda e os screamings de Chester, que virariam um conglomerado icônico e harmônico em cada uma das faixas de Hybrid Theory, incluindo a maioria de suas bônus vindas ao longo dos anos.

O álbum em si tem várias versões. A primeira, lançada um ano antes, é em formato de EP, com a banda já na sua segunda formação e ainda sem o nome Linkin Park, e sim o nome do que seria seu primeiro álbum. Já antes dele, quando se chamava Xero, era possível perceber algo diferente na proposta de Shinoda, que só precisava do elemento Chester para consolidar a mistura de sua mente em uma experimentação efetiva, vinda nesse EP de 1999. Considerando o contexto de início, a maturidade vista nesse EP demonstrava bem que Linkin Park tinha uma ideia estilística certa na cabeça, não à toa, duas das faixas desse EP – And One e High Voltage – se classificariam como as melhores músicas da banda. Só faltava então organizá-las dentro de uma narrativa em comum para lançarem um disco completo, que em sua versão principal contava com 12 faixas, mas depois, através de outras, iria incluir músicas da antiga demo do Xero, do primeiro EP, além de outras faixas exclusivas – como My December.

Fato é que o surgimento do álbum nem foi tão demorado ou difícil, Shinoda reaproveitaria vários dos raps planejados para o Xero, enquanto Chester montava as letras dentro de sentimentos presos em sua alma. Não ficava claro na época, mas após o fatídico suicídio do vocalista em 2017, é possível enxergar um caráter de desabafo na letra de todas as faixas, carregadas de ambiguidade para nunca deixar claro sua pessoalidade. Dizem que música boa é aquela que lava a alma, e por mais que o álbum virasse fenômeno, e posteriormente a banda adotasse um som que cada vez mais quisesse alcançar o popular, Hybrid Theory queria lavar a alma daqueles que ouviam e que carregavam os mesmos sentimentos de Chester, uma impotência sobre traumas químicos que se acumulavam clinicamente na depressão. Muito antes disso virar pauta, Chester já desabafava e estudava a própria condição em suas músicas.

Triste pensar que isso também acabou reverberando no legado deixado para a próxima geração, além de infelizmente não ser compreendido até hoje. É só olhar as críticas ao próprio álbum quando foi lançado e refletir sobre o que foi dito sobre o último, One More Light, primeiro valorizando somente o estilístico para descaracterizar o lirismo, pois os versos eram “pobres” e refletiam uma glamourização da tristeza dos jovens para o millennial. Depois, o inverso, dizendo que havia maturidade nas letras, em contrapartida reclamando que elas não faziam parte do estilo da banda. Como não? É só observar as letras de Crawling ou One Step Closer, por exemplo:

Não à toa são duas das músicas mais intensas do álbum, pois Linkin Park não foi somente genial na mescla estilística, como também coerentemente direcionava a intensidade e ritmo de cada canção correspondente à urgência de cada mensagem que queria passar. De modo geral, todas eram, de alguma forma, urgentes, senão o álbum não seria tão objetivamente curto, o que se tornou uma identidade estrutural da banda posteriormente, além de novamente uma tendência as outras. Com aproximadamente 38 minutos, a música mais longa seria a icônica In The End, que se tornaria seu maior hino, com 3 minutos e 36 segundos, de resto, todas as demais, estruturalmente falando, duravam em média 3 minutos, categoricamente pensados no sequenciamento de verso-refrão-verso-refrão-ponte-refrão. A chave de não tornar esse sequenciamento repetitivo, mesmo com uma mesma duração, era a novidade do experimentalismo da mistura, ora o rap trocava com o rock ora era o contrário, ora era em conjunto ora era somente um ou o outro – ou somente o eletrônico, como o instrumental Cure For The Itch -, onde geralmente propunha as transições. Enfim, era uma variedade estilística e letrista com objetividade em primazia qualitativa.

De Papercut a Pushing me Away não havia música ruim ou momento cansativo, pelo contrário, era uma nova surpresa a cada faixa e um novo som para se viciar pelos próximos dias. Um caso em que o sucesso estrondoso no mainstream se justifica sob qualquer perspectiva, o álbum de rock mais vendido deste século, passando as 30 milhões de cópias, também foi para a lista de “Os 100 melhores álbuns de rock de todos os tempos” da Classic Rock e entrou no Top 100 de “Os 200 álbuns definitivos” do Rock and Roll Hall of Fame. Este é o poder do início de Linkin Park e deste álbum, que em minha humilde visão, é o melhor do século, até hoje, 20 anos depois de seu lançamento.

Curiosidade: sua última versão foi a edição do aniversário de 20 anos, lançada dia 9 deste mês. Basicamente, reuni tudo que saiu das outras versões + o álbum reanimation (quem sabe eu fale dele um dia) + faixas redescobertas dos fãs e lançadas como compilados chamados Underground + uma nova música, intitulada She Couldn’t, que é bem bacaninha e você pode conferir abaixo.

Aumenta!: tudo, mas especialmente Whit You e In The End
Diminui!: em nenhum momento

Hybrid Theory
Artista: Linkin Park
País: EUA
Lançamento: 24 de outubro de 2000
Gravadora: Warner Bros.
Estilo: Rock, Rap, Eletrônico, Nu metal, Rap Metal, Rap Rock, Rock Alternativo, Metal Alternativo

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