Crítica | I Am Mother

Mother
Yeah, can you keep them in the dark for life
Can you hide them from the waiting world
Oh mother
– Danzig

Exibido no Festival de Sundance de 2019 e comprado para distribuição mundial pelo Netflix, a produção americana e australiana I Am Mother é um belo exemplar de ficção científica que bebe sem pudor de muitos clássicos, emprestando ao resultado final uma pegada própria e bem construída que nos remete àqueles filmes modestos do gênero que têm muita ambição, muito a dizer, mas que não tem orçamento para exageros pirotécnicos, focando em ambientação quase que integralmente confinada, elenco enxuto e uma história esperta. Dirigido por Michael Sputore e escrito por Michael Lloyd Green, dois ilustres desconhecidos que debutam nas respectivas cadeiras em longas com esse filme, I Am Mother é uma obra de queima lenta, que usa seu tempo para construir uma atmosfera claustrofóbica e extrai o melhor de suas atrizes.

A história reúne o conceito de apocalipse na Terra, Arca de Noé e inteligência artificial, elementos clássicos de milhares de sci-fi por aí, de Exterminador do Futuro até Up – Altas Aventuras, passando por Lunar, Pandorum, Chappie e uma infinidade de outros, sem se esquecer de obras seminais da literatura como Eu, Robô. Em outras palavras, qualquer espectador com um mínimo de experiência cinematográfica reconhecerá as peças e até poderá prever o todo com um razoável grau de acurácia, mas isso de forma alguma diminui o resultado final.

Começando no dia seguinte ao fim do mundo, o filme imediatamente situa o espectador em uma instalação tecnológica comandada por um único robô, a mãe do título (voz de Rose Byrne e trabalho corporal de Luke Hawker vestindo uma perfeitamente crível armadura criada pela Weta Workshop, de Peter Jackson), que protege 63 mil embriões humanos para futura recolonização do planeta. Aparentemente como parte do projeto, a mãe descongela e provoca a gestação em 24 horas de um desses embriões, passando a cuidar da criança até a adolescência em uma bela montagem de crescimento. Aprendemos muito aos poucos a rotina daquele frio e solitário local, acompanhamos a conexão entre mãe e filha (a quase estreante Clara Rugaard) e a crescente curiosidade da garota sobre a finada humanidade e sobre o que está logo do lado de fora do local onde vive. Essa lúgubre paz, então, é quebrada pela chegada de uma mulher (Hilary Swank), imediatamente albergada pela filha, mas vista com desconfiança pela mãe, o que, então funciona como catalisador para a aceleração dos eventos reveladores que se sucedem.

Sem diálogos longos e sem descambar para explicações mastigadas de tudo, o roteiro de Green empresta uma estranha naturalidade (sim, eu sei, uma contradição em termos, mas é isso mesmo!) para a relação entre mãe e filha, algo que tanto a dupla responsável por dar vida ao robô quanto a jovem Rugaard amplificam eficientemente com um rapport imediato, que oferece legitimidade à fita quase que imediatamente. A chegada disruptiva da paranoica e assustada mulher vivida por Swank não só é uma maneira direta de se introduzir relativização sobre absolutamente tudo o que aprendemos até o momento, como também a coloca em dúvida, fazendo-nos aproximar ainda mais da filha que precisa, por si própria, começar a entender de verdade o que sua vida significa. Com as revelações vindo a conta-gotas, mas sempre de maneira constante e obedecendo a lógica interna da fita, a produção, apesar de ser razoavelmente longa, com um pouco menos de duas horas, é bem ritmada pela decupagem precisa de Sputore e a montagem contemplativa de Sean Lahiff, tudo banhado por uma fotografia acertadamente asséptica e sombria, mas sem escura, de Steve Annis que sabe pontualmente trazer calor à narrativa quando exigido pelo roteiro.

E, como disse, as surpresas e as reviravoltas talvez caiam na adjetivação “previsível” de muita gente, mas sempre defendi que a imprevisibilidade não pode ser o completamente inesperado, mas sim algo que decorra naturalmente das escolhas do roteiro dentro das regras do universo apresentado. Afinal, um olhar experiente para essa obra muito provavelmente levará a algumas conclusões acertadas sobre o que exatamente é o que, mas isso não retira dela sua qualidade. Muito ao contrário, é justamente um testamento ao cuidado do roteiro que faz muito com muito pouco e apresenta um universo expansivo mesmo que preso a um ambiente só (ou quase).

I Am Mother surpreende muito mais é pela maneira simples como aborda sua temática e por criar um robô tão humano, mesmo sem parecer fisicamente um ser humano, lembrando um pouco o Robbie da nova versão de Perdidos no Espaço. Sem dúvida alguma, uma ficção científica de respeito feita com carinho e dedicação que transparecem facilmente em cada detalhe, especialmente no diminuto, mas poderoso elenco.

I Am Mother (Idem, EUA/Austrália – 07 de junho de 2019)
Direção: Grant Sputore
Roteiro: Michael Lloyd Green
Elenco: Rose Byrne, Luke Hawker, Clara Rugaard, Hilary Swank, Maddie Lenton, Summer Lenton, Hazel Sandery, Tahlia Sturzaker
Duração: 113 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.