Crítica | I Am Nancy

O slasher é um subgênero do terror que mantém a sua chama viva desde os primeiros filmes lançados nos anos 1970/1980, não apenas pelas refilmagens ou maratonas em festivais que exibem estas produções para os fãs, mas também por causa dos documentários retrospectivos que sempre resgatam elementos históricos, estéticos e desdobramentos temáticos deste segmento. Wes Craven e Freddy Krueger já tiveram algumas produções voltadas aos impactos e a importância do legado de A Hora do Pesadelo para a cultura pop, tendo I am Nancy como uma produção tangencial, voltada especificamente ao protagonismo da final girl interpretada por Heather Langenkamp, a famosa e querida Nancy Thompson do primeiro filme da franquia do maníaco que assassinava suas vítimas em seus pesadelos, um dos diferenciais que tornaram o antagonista forte e mais bem elaborado enquanto personagem.

Lançado em 2011 e com distribuição bem tímida, o documentário ganha a legitimação não apenas da biografada, mas também de partes importantes dos envolvidos na história da franquia A Hora do Pesadelo, em especial, Wes Craven, criador dos personagens e responsável por fincar, depois de muita batalha com Robert Shaye e a iniciante New Line Cinema, Freddy no imaginário cultural popular, a oxigenação no campo do terror que em 1984, estava começando a apresentar sinais de declínio com a perda de rumo da série Sexta-Feira 13 e o excesso de filmes slashers genéricos e com estruturadas plagiadas excessivamente, sem qualquer disfarce. Além de Craven, os envolvidos trouxeram a necessária presença do “outro lado de Nancy Thompson”, isto é, Robert Englund, o famoso intérprete de Krueger em basicamente todos os filmes do universo, com exceção da refilmagem oca de 2010.

Assim, sob a direção de Arlene Marechal, acompanhamos a trajetória da personagem, um breve panorama situacional do slasher na época, algumas poucas cenas do filme, um dos pecados da produção que poderia trazer mais material para coadunar com as afirmações dos depoimentos, além de uma abordagem da vida de Heather Langenkamp na atualidade, posterior aos anos 1980. Ela se encontra com tatuadores logo na abertura, discutem sobre o imaginário destes personagens, com direito ao questionamento da atriz sobre a sua ausência num guichê cheio de displays gigantescos e camisetas de vários personagens icônicos do gênero. Se o público fala tanto em Nancy, por qual motivo ela também não recebe as mesmas produções industriais voltadas ao mercado de colecionadores?

São questões debatidas com humor, mas que funcionam exclusivamente para fãs, críticos e historiadores do subgênero slasher, haja vista a palidez do roteiro do documentário, produção que oferece pouco material para o montador Tray Bogert editar. Há alguns efeitos legais na abertura, bem como a circulação de diversos fãs excêntricos em festivais que sempre convidam tais artistas para depoimentos e contato com os seus admiradores, pessoas que mantém o legado da franquia aceso até hoje. I am Nancy faz parte de um segmento peculiar de documentários produzidos para nichos, neste caso, os consumidores das narrativas slashers. É interessante observar como essas pessoas seguem em vidas menos badaladas que o cotidiano fabricado das celebridades hollywoodianas, mas ainda assim, estão sempre em fluxo midiático nestes eventos, em entrevistas para a mídia e em documentários que retomam as suas trajetórias, percursos que os consumidores/fãs não cansam de ver reinterpretados.

Ademais, torna-se relevante ressaltar que apesar de I am Nancy ser um documentário sobre a personagem de Langenkamp, Robert Englund e Freddy Krueger ocupam um espaço bem privilegiado ao longo dos 71 minutos da produção. Será que não poderia ter sido editado, em especial, uma cena dentro de um encontro de fãs numa feira que teve parte dos envolvidos em A Hora do Pesadelo para conceder entrevistas, fotos e autógrafos aos fãs. A atriz entra e é muito bem recebida, mas o teto do auditório quase desaba quando o intérprete do lendário antagonista é chamado ao palco. Sabemos que um não existe sem o outro, pois para Nancy brilhar, Krueger precisou coloca-la numa dinâmica de guerra na tentativa de ser uma sobrevivente. Mas, ainda assim, alguns truques deveriam favorecer mais a protagonista, mesmo que o Freddy de Englund eclipse a presença não apenas da final girl, mas de qualquer outro personagem do segmento.

I Am Nancy  – Estados Unidos, 2011.
Direção: Arlene Marechal
Roteiro: Arlene Marechal, Heather Langenkamp
Elenco: Heather Langenkamp, Robert Englund, Wes Craven, Tom Kircher, Abdullah Al-Daihani, Hollie Dziedzic, Earl Ellis, Shawn Lecrone, Mike Rotella
Duração: 71 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.